
Tendo acompanhado com alguma atenção os debates das legislativas, reparei que os partidos mais à direita têm dado destaque a números absolutos de migração, em específico portugueses à procura de melhores salários na UE, como no exemplo abaixo:
>*”saem 80 mil portugueses por ano do país”*
Como qualquer espectador que não tenha conhecimento destes dados, fiquei espantado mas não aceitei imediatamente que fosse um exagero. O meu raciocínio levou a comparar com dados de nascimentos para perceber o impacto a longo prazo disto, o que apenas aumentou esse espanto já que os nados vivos anuais actuais são um valor equivalente.
Decidi continuar a perceber estes números e esta reivindicação de evitar a saída de jovens, formados e não só, que é também muito usada como argumento de redução do IRS na classe média. Cheguei ao site do Observatório da Emigração – um grupo de investigação do ISCTE-IUL que publica dados relevantes sobre o tema. Após uma análise simples, reparo que os números dizem algo mais, e que as saídas tanto temporárias como permanentes de Portugueses tem vindo a diminuir na última década:
https://preview.redd.it/1gdnadozn5c81.png?width=1325&format=png&auto=webp&s=950e9eb2a54b6aad58488b65579956269a6e7795
^(()[^(Fonte)](http://observatorioemigracao.pt/np4/1315/)^(.) [^(Dados do INE também disponíveis aqui)](https://www.pordata.pt/Portugal/Emigrantes+total+e+por+tipo-21))
Ao bom estilo Polígrafo, podíamos aqui dizer que os tais “80 mil” são um facto ***Verdadeiro MAS****,* talvez até ***Descontextualizado***.
A expressão acima seria razoável em discussão quando aplicada até 2019. No entanto utilizar isto, em debate e em campanha, tem muito que se lhe diga. Omitir por exemplo que este número tem vindo a **descer consideravelmente desde 2014** é logo o primeiro atentado à intuição da audiência.
O segundo surge quando se verifica que as saídas são **maioritariamente temporárias**, que pela [definição até 2003](https://smi.ine.pt/Conceito/Detalhes/3408?modal=1) do INE se referia a **saídas inferiores a um ano** (que ainda será verdade j´á que [para 2020 ainda se usava essa definição noutro gráfico](https://www.pordata.pt/Portugal/Emigrantes+tempor%C3%A1rios+total+e+por+grupo+et%C3%A1rio-2523)).
Numa conta “rápida”, as saídas permanentes da última década são ali pelos ~39K, ou ~31K nos últimos 5 anos. Tem havido um decréscimo, tal como nas saídas totais, mas mais acentuada nesstas últimas, **reduzindo-se drasticamente, para metade, as saídas permanentes quando considerados os piores 2 anos, próximos do ínicio da década.** Num pequeno apontamento, o maior decréscimo aconteceu precisamente no ano em que a *Geringonça* ganhou o poder, ao cair do pano de 2015, muito provavelmente pela questão Suiça e de retornados a aproveitar uma suposta mudança de tendência à esquerda (que curiosamente viria a ser favorável aos retornados).
Aconselho a consultarem por vocês próprios o site do Observatório, além do próprio INE. Os dados pecam por ainda desconsiderarem 2021, e mesmo 2020 deve ser visto como um outlier devido à pandemia. O ano transacto a umas eleições legislativas traria dados muito mais relevantes, mesmo que não ainda representativos da acção legislativa e executiva devido às condições pandémicas que se mantiveram todo esse ano. Mas pessoalmente acredito que a tendência se mantivesse, com ou sem pandemia, em 2021.
Posto isto, exponho agora ao sub a discussão sobre a relevância do tema de emigração portuguesa pelas campanhas eleitorais e da argumentação relacionada a ele nos debates. Deixo ainda a tabela E2 em que o Observatório mantém um “saldo” estimativo confrontando saídas e entradas permanentes:
https://preview.redd.it/drtfqww8o5c81.png?width=1301&format=png&auto=webp&s=f3d285b1de1600b4709ded1548f7d1ca3c810957
5 comments
Jovens são overrated.
Há que limpar o país de fascistas.
Acho que a diminuição não é tanto mérito ou desmérito das medidas do governo mas simplesmente a diminuição do universo de pessoas que quer e está em condições de emigrar. Quem tinha ideia de sair saiu logo em 2011/15.
Acho que melhor métrica seria o número de retornados, que voltaram a integrar o mercado de trabalho Português.
Ainda bem que o saldo migratório é positivo depois daqueles jovens portugueses terem saído todos /s
Quando é que o país começou a cortar IRS para quem retorna? A dada altura eram precisos 5 anos fora do país… agora são 3… nas próximas eleições basta ir comprar rebuçados a Badajoz.
Acho que também mereces um “Verdade mas”, tirando 2020 em que por razões óbvias era mais difícil viajar e começar nova vida noutro país, o número já estava a descer muito devagarinho.
Concordo que já não é o que era no pico da crise mas isso talvez se explique por a maioria dos que tinham vontade de emigrar o tenham feito na altura e a baixa natalidade quer dizer não podes esperar que essas pessoas sejam substituídas por outras mais novas que saem uns anos mais tarde.
Arranjar narrativas com números é fácil, mas acho que quase toda a gente conhece várias pessoas que emigraram e sabe bem o motivo.