Recentemente foi lançada uma reportagem americana sobre o trabalho fantasma efectuado dentro das grandes empresas de AI e tecnologia onde é mencionada a Accenture Portugal e o trabalho horrível que é trabalhar nestes projectos. São temas que são/foram levantados dentro da própria empresa e que são abafados para que exista segredo sobre os problemas que este "projecto" causa na vida das pessoas que lá trabalham ou que lá trabalharam.

URL da reportagem (menção de Portugal, Majorel, Accenture Portugal entre outras após o minuto 30): https://youtu.be/VPSZFUiElls?si=QTzdmu3X74jVvE1t&t=1842

Dentro deste "projecto" temos várias pessoas a limpar o conteúdo existente nas plataformas. Esta limpeza é baseada nos reports/denúncias efectuados pelos utilizadores das plataformas. Um bom exemplo do trauma causado é poderes estar a ver uma avó que partilhou uma foto no facebook com a neta e a neta reportou a publicação porque tem vergonha da avó, e no momento seguinte estás a ver a violação de uma criança…. Momentos como este fazem parte do dia a dia de certas pessoas deixando traumas, depressões e muitas vezes a morte do colaborador.

Suícidios ou tentativa de suicidio por parte dos colaboradores é um tema reconhecido pela gestão havendo uma política de visita à tua habitação caso não apareças no trabalho ao fim de certos dias. A empresa tem um X número de dias que te considera "OK" e caso após esses X dias, não apareças é efectuada uma visita à tua habitação para verificar o teu estado de saúde. Caso estejas bem, ou vens trabalhar outra vez, ou és despedido.

Não te é dada indicação para que empresa irás trabalhar durante a contratação, saberás apenas para quem trabalhas quando te sentas pela primeira vez no escritório, tal como é visto na reportagem, chegando ao ponto de ser "segredo" partilhar o teu projecto com outros colegas da Accenture. Quando deres por ti, porque pensas que saiste do teu trabalho normal de escritório para ires trabalhar para a accenture fazer coisas fixes e banais, estás na realidade a limpar a podridão desta sociedade no meio de alegria e falsidade laboral. Que opção tens de momento? Acabaste de mudar de trabalho, com 800€ não há muito que possas fazer a não ser arranjar outro emprego, portanto vais ter que ficar aqui preso até alguém te responder, contudo, não são permitidos telefones dentro do edificio, és obrigado a deixa-los num cacifo especifico, portanto caso te liguem durante o trabalho para marcar entrevista, terás que aguardar até ao fim do dia para retornar a chamada ou então por email.

É uma vida degradante, que te tira o brilho do mundo sem qualquer tipo de compensação monetária justa pelo que vemos durante o nosso dia. Dependendo do mercado, podemos começar o dia com um homicidio, de seguida conteúdo "banal" durante 30m e quando dás por ti, tens uma violação para ver.

O pior de tudo é o som, o som de agonia de muita gente a morrer, que já morreu ou que está a ser abusada, independentemente da maneira que seja, por uns meros 800€ por mês…. Sendo honesto, acho que não há dinheiro que compense ver este tipo de conteúdo diariamente. Um ponto de referencia os videos brutais que existem no whatsapp e que são passados de pessoa em pessoa, sei que durante uma altura isso andava muito na moda infelizmente. Quem souber do que falo, tem então uma ideia do que é ter este tipo de trabalho.

Espero que isto seja partilhado pelos media e que a população tenha conhecimento da possível quantidade de trabalhos como este que existem no país, um tipo de trabalho que se faz nas sombras, sem ninguém saber com riscos de ações judiciais devido à papelada toda assinada sobre segredo do tema.

Tenho como objectivo partilhar isto com o máximo de cadeiras mediáticas possível, se alguém daqui trabalhar em alguma, apite.

TL;DR: Lê o titulo e estás esclarecido 🙂

by Good_Tea_2947

17 comments
  1. Este tipo de trabalho existe praticamente desde que surgiram as redes sociais.

    A maior parte das plataformas tem bases de dados de pornografia infantil “conhecida” e mecanismos automáticos para a remover assim que é inserida. Mas para o conteúdo ser identificado dessa maneira, é sempre preciso uma pessoa para o ver pela primeira vez.

    Não me surpreende que em Portugal seja trabalho de 800 ao mês. Nos EUA é um trabalho infame por motivos óbvios, mas também é conhecido por não necessitar de curso superior e ser bastante generoso.

    Tivemos um thread esta semana de um cromo que ia pedir um empréstimo porque o chefe era uma pessoa 5 estrelas e muito fixe mas devia-lhe 5000 euros de salário. O tuga anseia por ser o paquistanês da Europa, daí também não gostar dos imigrantes concorrentes.

  2. Há quem veja isso por diversão. Não é trabalho para a pessoa comum, mas há malucos que vão achar excelente deal ser pago para isso. É contratar esses.

  3. A verdade é que só vai quem quer, é preciso estômago e não é trabalho para todos mas se não houvesse mão de obra a 800 eles tinham de subir a parada ou mandar pra um pais com os salários mais baixos. Este é um bom exemplo do que um trabalho não qualificado é! Estudem, mas acima de tudo posicionem-se num papel onde são úteis e necessários.

  4. Quem é que vai querer comprovar que fizeste bem o trabalho, o teu chefe?

    Vai tudo a hate dá cá 800€

  5. Fico a pensar… provavelmente é daqueles trabalhos que alguém tem que fazer, mas no minimo, apoio psicológico e acompanhamento de muito perto, a quem o faz.

  6. Tenho um amigo estrangeiro que entretanto voltou para o seu país e lá arranjou um trabalho deste género. Segundo ele o trabalho é passar o dia a rever conteúdo, aprovar ou não aprovar, é a única coisa que tem de fazer. No caso dele ganha um salário fixo mas depois também ganha pelo número de publicações que revê.

    Há pouco falei com ele e ele disse-me que rejeita tudo, é sempre a andar e nem olha para aquilo.

  7. Já tive casos de pessoas que trabalhavam neste tipo de funções e ficaram com PTSD. Mesmo estando de baixo e com relatórios médicos, a empresa recusava-se a mudar a pessoa de funções porque “eram imprescindíveis”. Eram constantemente assediados para voltar ao trabalho o mais rapidamente possível.

  8. I worked as content moderator in Portugal, Oeiras, for approximately 6 months. I was finishing my master thesis and urgently needed some money to cover my living expenses until graduation. I took this opportunity since the idea of relocating in Lisbon doing a low-effort job and having a decent amount of free time seemed interesting, compared to being exploited by the usual “Big 4” internship programs. To be honest, I don’t think the job was really traumatic. Occasionally, there were some extreme contents (suicides, self-harm, etc..), but I don’t really remember ever having seen stuff like pedophilia. Some colleagues did, but it was still extremely rare. It was mostly a dull, repetitive job, mostly dealing with bullying, racist comments, pornographic/gory pictures and videos. Clearly it is not a job for everyone, and I’m not even sure whether it could be defined a proper job since you don’t really acquire competences and skills that can be used elesewhere in the job market. Overall, the 6 months spent there were ok, housing was cheap back then, you could even save some money, it was really easy to meet new people and make friends, plus the company offered some language courses (I got the B1 level certificate -Deple in portuguese with the good ol’ Instituto Camões). The majority of the co-worker left after a few months, after finding better jobs, mostly in the Lisbon area. I remeber that a lot of the colleagues were from Venezuela and Brazil and had portuguese passports.

  9. Conheço quem faça isso para o Instagram, paga mais de 800€ e tem acompanhamento, mas nao deixa de ser duro..

  10. Sou Quality Assurer num projeto destes (outra empresa) e subi para este cargo fazendo a revisão deste tipo de conteúdo. Não é para toda a gente, mas acabas por ganhar alguma resiliência… Sempre fiz o trabalho sem problemas, mas já vi muita gente a ir e vir, não é um emprego de sonho, mas na empresa em que estou até não paga assim tão mal e o escritório está a 5min de casa.

    Pessoalmente não vejo este tipo de conteúdo a causar-me problemas psicológicos, já o faço há mais de 2 anos e até hoje ninguém reportou alterações na minha pessoa, e tenho amigos e família que estão sempre atentos a isso pq sabem o que faço e têm algum receio. Eu sempre fui um gajo um bocado frio, mas a verdade é ver este tipo de conteúdo todos os dias fez-me apreciar as pequenas coisas da vida, e que comparando a muita gente e muitos sítios deste mundo eu até não vivo assim tão mal.

  11. Pensava q isto só havia na Índia, onde o trabalho de “identificação” / “categorização” é ainda mais barato

  12. Não é secreto para ninguém que o “centro de tecnologia da Accenture em Lisboa”, que alguns chamam o “Indian campus”, é para trabalhos degradantes e mal pagos. É um low cost center, nao é para fazer cosias de valor.

  13. Ok, é duro e eu não era capaz de fazer mas se para já não há outra forma de limpar este conteúdo das redes é um mal necessário e só vai quem quer.

  14. Não há solução nenhuma para este tipo de problemas sem regulação. Tão simples quanto isso. Isso, e talvez obrigar à utilização de nomes reais nas redes sociais e a utilização de sistema semelhantes aos KYC de bancos para registo nas mesmas.

    Mas a sociedade ainda não está pronta para esse debate (basta verem os downvotes que este comentário vai levar), muito menos os users do Reddit, e vai ser demasiado tarde quando a sociedade ocidental perceber os riscos existenciais colocados pelo esgoto da redes sociais.

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