A TAP é, discutivelmente, a empresa mais polémica em Portugal. E, por entre as várias polémicas com as quais a TAP nos brindou ao longo dos anos, a sua privatização em 2015 é ainda, um dos processos mais controversos.

A TAP foi comprada com o seu próprio dinheiro”, foi o chavão de quase todos os média portugueses durante esta semana. Mas, como? O nosso estagiário em engenharia aeronáutica explica-te:

A verdade é simples, mas, ao mesmo tempo, complexa. Simples, porque é fácil perceber que, antes da privatização, a TAP não tinha dinheiro nem para comprar combustível, quanto mais para comprar-se a si própria – um belo oxímoro.

Agora vem a parte complexa. A Inspeção Geral das Finanças (“IGF”) esteve a varrer as contas da TAP e encontrou várias irregularidades, algumas das quais indicou que deveriam seguir para investigação criminal por parte do Ministério Público. Uma destas irregularidades tem a ver com o processo de privatização da TAP em 2015. O IGF concluiu que a privatização foi feita com recurso a um empréstimo da Airbus ao empresário David Neeleman, no valor de 226 milhões de euros, de que a própria companhia aérea apresentou garantia.

Vamos recuar. Em 2015, David Neeleman, líder do consórcio Atlantic Gateway, comprou 61% do capital da TAP, comprometendo-se a financiar a companhia aérea com 226 milhões de euros. No entanto, esses 226 milhões não vieram de Neeleman, mas sim da Airbus. Isto porque Neeleman negociou com a Airbus a compra de 53 aviões por parte da TAP, em contrapartida da cedência de um empréstimo de 226 milhões da Airbus à Atlantic Gateway, dinheiro esse que depois a Atlantic Gateway entregaria à TAP para cumprir a promessa de financiamento. A Airbus ficou com a garantia dada pela TAP que a companhia aérea iria comprar os 53 aviões sob pena de devolver os 226 milhões. 

Ou seja, Neeleman e o seu consórcio arranjaram maneira de cumprir a promessa de financiar a TAP usando dinheiro da… Airbus – o que a fabricante aceitou, tendo como contrapartida a garantia da TAP como esta iria adquirir 53 aviões. É duvidoso? Sim. É ilegal? É isso que o Ministério Público deverá agora apurar.

Resta dizer que o relatório da IGF aponta para outras irregularidades, tais como possíveis fugas de impostos em pagamentos aos membros do Conselho de Administração da TAP, contratos dúbios para serviços de consultoria, e negócios arriscados no Brasil. 

by weighedllama213

7 comments
  1. Este tipo de compra não é nada de novo nestes negócios

  2. Falta acrescentar que os aviões vendidos à TAP pela AirBus foram vendidos acima do valor de mercado, completando assim o ciclo.

    Ou seja, an AirBus emprestou dinheiro a uma empresa do Neeleman que depois a TAP “devolveu”.

    Simplificando a equação. A AirBus “emprestou” dinheiro à TAP para que esta se comprasse por David Neeleman.

  3. Este post é um shuffle da [thread do CGP sobre o mesmo assunto](https://twitter.com/cgpliberal/status/1830904050247774254). Tipo quando copias o teste do colega do lado mas alteras um bocado para não dar cana. Also assenta numa falácia: que a Airbus emprestou dinheiro ao Neeleman para ele comprar a TAP. A Airbus não é um banco, não financia operações pelos lindos olhos dos CEOs.

    Os 200+ milhões são parte do beneficio que a Airbus ganha quando a TAP desiste da sua posição contratual de aquisição dos A350 (tinha-os encomendado em 2005), que assim a Airbus pode vender a outros. Era um modelo de longo curso com procura extremamente elevada, que se encaixava perfeitamente no hub de Lisboa, e que a TAP ainda não tem. Além de perder acesso aos A350 de que precisava, a TAP ainda fica comprometida a comprar vários modelos de curto e médio curso acima do preço de mercado.

    Ou seja, a TAP não estava “sem dinheiro”. Pelo contrário. Só a posição contratual junto da Airbus (que podia ser vendida a terceiros) valia mais do que tudo o que o Neelman pagou pela companhia inteira. Além de ter sido comprada com esse dinheiro, que foi completamente apropriado pelo Neelman e pela Airbus, ainda ficou prejudicada pelo enrabanço que foi perder os aviões de longo curso e ser forçada a operar mais curto curso, como se tivesse um hub no centro da Europa e não no extremo do continente.

    Se o contrato-promessa entre o Neelman e a Airbus é ilegal não interessa aqui para o caso – dependendo de onde o fizeram, pode nem estar sujeito à lei portuguesa. O que interessa é que o governo português sabia que a TAP ia ser “paga” com o seu próprio dinheiro e sujeita a gestão danosa desde mesmo antes de ser adquirida, e foi a correr assinar o negócio já depois de ter perdido as eleições.

  4. Como diz um dos comentários da thread do Pássaro do CGP (linkado na thread que fui ler):

    > Tenho a certeza de que pelo menos @PNSpedronuno que é filho de um empresário, sabe muito bem entender como funciona uma empresa e daí não ter obviamente comentado.

    Quem sabe, sabe.

  5. Já para não falar dos Embraer cedidos pela Azul a preços absurdos à TAP.

    Neeleman, rei do double dipping…

  6. A legalidade deste negócio pode ser questionável mas diria que o mais importante aqui é a nível político, e o facto dos maiores responsáveis por este negócio estarem neste momento com a mesma pasta do governo e na comissão europeia.

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