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Em entrevista ao Expresso, o psicólogo espanhol Marc Massip, especialista em adição ao smartphone, fala sobre os riscos do dispositivo, que compara à heroína, e defende leis rígidas que regulem o acesso dos menores às redes sociais
Há 12 anos, Marc Massip lançou em Espanha o “Desconecta”, um programa terapêutico pioneiro para ajudar crianças e adolescentes com dependência de ecrãs a libertarem-se do vício. De então para cá, mais de quatro mil menores foram tratados numa das três clínicas especializadas em adição às tecnologias que tem em Madrid, Barcelona e Málaga. Mas muito do seu tempo é passado fora do consultório, em conferências realizadas um pouco por toda a Europa e em que tenta consciencializar os pais para os riscos deste dispositivo – como a que dará esta terça-feira ao final da tarde no Colégio São João de Brito, organizada pela Associação Mirabilis, criada por duas mães para sensibilizar as famílias portuguesas para a importância de reduzir o uso de ecrãs.
Em entrevista ao Expresso, o psicólogo espanhol explica que, até aos 16 anos, o cérebro dos menores não está suficientemente desenvolvido para lidarem com um dispositivo com as potencialidades de um smartphone. E diz aos pais que não devem ter medo de dar um passo atrás e retirá-lo se começarem a ver nos filhos sinais de uso excessivo.
Costuma dizer que o smartphone é a heroína do século XXI. Porquê?
Quando apareceu a heroína não se conheciam exatamente os riscos nem o potencial de dependência, nem havia uma noção clara de quão perigosa era. Com o smartphone passou-se um pouco o mesmo. Quando surgiu não sabíamos muito bem o que era ou que consequências podia ter e só agora estamos a perceber que é realmente perigoso. Neste momento, já não há dúvidas que pode trazer muito mal-estar à sociedade e que é um grande problema para as famílias. A verdade é que um vício é um vício. Não há muita diferença entre uma dependência de substâncias, como a droga, e a dependência do telemóvel. O mecanismo da dependência é semelhante.
Marc Massip, psicólogo espanhol especialista em dependência de ecrãs
Neste caso, quais são os principais sinais ou sintomas da dependência entre crianças e jovens?
O tempo que passam agarrados ao telemóvel é cada vez maior e acaba por substituir outras atividades que antes lhes davam prazer. Deixam de ter interesse em fazer outras coisas, passam muito tempo no quarto e estão sempre colados ao ecrã, a desoras e em lugares ou situações inapropriadas. Há uma espécie de desligamento do mundo real.
Alterações emocionais, problemas de sono, quebra na comunicação com os pais e diminuição do desempenho escolar são outros sinais. E há um síndrome de abstinência, tal como nas outras dependências. Se não puderem usar o dispositivo, o humor muda e os jovens ficam irritados, o que potencia os conflitos familiares.
Há uma ligação entre o uso excessivo de ecrãs e problemas de saúde mental, como ansiedade?
Sim. E não apenas com a ansiedade ou com a depressão, mas também com a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA). É importante perceber que a causa destes transtornos não é o smartphone ou os ecrãs, mas estes acabam por ampliar, como um altifalante, o desconforto interno e o sofrimento psicológico, contribuindo para agravar estes problemas.
Qual se estima ser a percentagem de pessoas com dependência de ecrãs?
Atualmente, a média europeia é de 12,7% no que diz respeito à dependência da internet. No caso do smartphone, 77% da população europeia admite que depende do smartphone ou não se sente tão bem quando não o tem.
O problema é semelhante entre rapazes e raparigas?
Da minha experiência, as redes sociais provocam mais dependência entre as raparigas e os videojogos entre os rapazes.
Qual é o tratamento para a dependência de ecrãs?
No programa “Desconecta” fazemos um tratamento integral com os pacientes e com as famílias que abrange todas as áreas – social, académica e familiar – através de uma terapia individual e de grupo com psiquiatras, psicólogos e terapeutas familiares. A abordagem é multidisciplinar.
O que devem fazer os pais para prevenir ou combater a dependência de ecrãs?
Se já houver dependência deve-se procurar a ajuda de um profissional, claro. Mas não há dependência se conseguirmos evitá-la. Para o prevenir, o que os pais devem fazer é não dar um smartphone aos filhos antes dos 16 anos. Até essa idade, o cérebro não está suficientemente desenvolvido para este dispositivo. Com grande probabilidade acabam por ver conteúdos inadequados para os quais não estão preparados, o que lhes criará problemas. E não precisam de um smartphone para ter amigos, ir à escola ou estar com as suas famílias.
E no caso dos pais que já deram?
Se já tiverem dado e perceberem que há um problema, não devem ter medo de dar um passo atrás e retirá-lo ou, pelo menos, de estabelecer limites, criando uma espécie de contrato tecnológico, com proibição de uso em determinados horários ou contextos, por exemplo.
Muitos pais acabam por dar o smartphone porque todos os outros jovens têm e não querem que os filhos se sintam excluídos. Esta preocupação faz sentido?
Não. Isso é um receio que não tem fundamento. As crianças não têm ou deixam de ter amigos por terem ou não terem um telemóvel, mas sim pelas suas competências sociais e é nisso que os pais se devem focar. E não é um smarphone que melhora essas competências sociais, pelo contrário. Na verdade, o que vemos é que os adolescentes têm menos amigos porque têm um telemóvel, uma vez que o uso excessivo de ecrãs potencia precisamente o isolamento social e pode trazer-lhes outros problemas, nomeadamente na rede. Por isso, essa é uma preocupação que não faz sentido.
Concorda com a proibição do uso de smartphones nas escolas?
Sim, penso que é urgente. Mas não chega. É fundamental criar leis que regulem ou regulamentem a idade em que as crianças podem ver determinados conteúdos, através de um controlo de entrada baseado na idade. Neste momento, não existem leis que regulem a idade mínima de acesso às redes sociais, pelo menos não de forma eficaz. As recomendações que existem não são minimamente suficientes, nem cumpridas. A maioria dos menores aderem ao Whatsapp, por exemplo, antes dos 16 anos.
Como vê a evolução da dependência de ecrãs nos próximos anos, com o avanço de tecnologias como a realidade aumentada e a inteligência artificial?
Se não houver um travão, só vai piorar, porque a inteligência artificial e o mundo virtual vão crescer cada vez mais. As grandes tecnológicas querem continuar a ganhar dinheiro, pelo que continuarão a criar mecanismos que potenciem e alimentem a dependência.
by neapo
4 comments
Nao vou ler o texto todo e apesar de concordar com o tema, o especialista devia avisar também que os filhos deviam tirar os telemóveis dos pais antes deles terem 18 anos.
Contra mim falo!
Claro que a melhor forma de normalizar a ferramenta mais importante do século XXI é criar um estigma e uma proibição.
Aborrece-me estes profissionais de meia tigela terem tempo de antena e ironicamente acabam por usar as redes sociais como palco.
Reduzir o problema a: tirar smartphones até idade X é tão ridícula que me questiona se foi este o filho que a era da informação pariu.
Primeiro que tudo o problema não são os smartphones, são as redes sociais, a internet e a total negligência dos tutores (pais, professores, etc…) em saber dar a conhecer aos jovens de forma saudável e gradual como tirar partido positivo dos mesmos.
Mas infelizmente os pais, professores, psicólogos, etc.. preferem perder tempo eles com os seus smartphones nas suas redes sociais a discutir o problema dos jovens de hoje, quando bastava tirar uma selfie para encontrarem a raiz do problema. Se calhar os adultos é que precisam de se desenvolver mais invés de se perder nos smartphones.
Enfim.
> especialista em adição ao *smartphone*
adicionar o quê? um powerbank?
Também me faz confusão ver as crianças iPad dos dias de hoje, mas parece-me que seguir este conselho até aos 16 é uma bela forma de potenciar isolamento social ou até situações de bullying para um miúdo.