Apesar de haver imensa discriminação, conseguir arrendar um quarto à quarta tentativa está muito abaixo da média. Todos os anos temos estudantes a tentar dezenas de casas até encontrar um quarto, parece um programa dos ídolos com fases de eliminação e entrevistas
E antes que venham com o tradicional “o senhorio não é a Santa Casa da Misericordia”, ser cego não é algo que devesse obrigar uma pessoa a tornar-se dependente do Estado, se tem condiçoes para trabalhar e ter rendimentos e ser uma pessoa que paga as suas despesas como é este o caso.
Sou um sortudo porque trabalho em IT remotamente para o estrangeiro e isso deu-me possibilidades de comprar o meu apartamento, num prédio com degraus na entrada (felizmente só uns 4/5), porque NADA do que via tinha uma entrada acessível. Ando, mas um dia irei deslocar-me com uma cadeira de rodas e sei que vou ter de lutar para poder entrar em casa. Vai ser difícil adaptar o apartamento, mas felizmente tenho (e espero ter na altura) família que me ajude com isso. Conheço uma outra pessoa, com uma deficiência mais grave, que conseguiu viver num prédio com uma entrada acessível, mas tem custos enormes e praticamente não lhe dá para mais nada. O resto dos meus amigos com deficiência vivem com os pais ou outros familiares. Pessoas nos 30, 40 anos ou mais. Tudo aumenta, mas a PSI mantém-se no mesmo valor há anos, e já no seu último aumento eram migalhas. Não podes receber o salário mínimo ou pouco acima praticamente, que já não tens direito a PSI com uma incapacidade de 60-80%. Temos direito a um crédito bonificado para a casa, mas a prestação pode mudar todos os meses de acordo com as taxas do BCE. Tentar a sorte no estrangeiro, com estas deficiências e as contas da saúde para pagar, é impossível. Há muita gente presa em casa por causa disso. É quase uma sentença das pessoas com deficiência à pobreza.
Até quando até perceberem que imensa gente aqui não está equipada para lidar com nenhuma situação prática que esteja sequer uma vírgula ao lado da Chapa 5 do menor denominador comum? Esta é a realidade da população _portuguesa_.
O preconceito e a aversão ao risco típicas da nossa sociedade são apenas o reflexo dessa realidade à escala da sociedade. Não é porque as pessoas são simplesmente burras que são preconceituosas ou com falta de visão; é porque se houver algum tipo de problema, o custo potencial que isso acarreta é algo que à partida já sabem que não podem suportar.
Por isso resolvem da forma mais lógica possível: cortar o mal pela raiz. Se não aceitarem coisas fora do normal, não têm de lidar com potenciais problemas. Todas as justificações mirabolantes servem apenas para legitimar este alinhamento decidido _a priori_, que não é possível sujeitar a argumentação com base em lógica.
Este é só mais um exemplo ilustrativo de como as coisas funcionam _de facto_ e não _de jure_.
Existe alguma proteção extra contra despejos de pessoas com deficiências? Em caso afirmativo pode ser uma das razões.
É um assunto que devia ser mais falado. Fala-se muito de inclusão mas depois na prática a vida digna para pessoas com deficiência contínua a ser muito difícil.
Na cabeça da maioria dos portugueses os deficientes são uns coitadinhos que vão viver ao cuidado da família ou em instituições a vida toda. Mas muitas pessoas com deficiência são perfeitamente capazes de trabalhar, e ter uma vida se tiverem algumas adaptações. E a habitação é talvez das áreas mais complicadas.
Existe o crédito bonificado (crédito habitação com juros mais baixos) mas com os preços como estão dificilmente uma pessoa com deficiência consegue sequer dar a entrada, é nalguns casos como em Lisboa a grande maioria das casa excede o valor máximo do crédito bonificado, por isso essa possibilidade fica logo à partida excluída.
Sei que CML vai ter algumas casas de renda acessível exclusivamente para algumas pessoas com deficiência (as com mobilidade reduzida, existem outras deficiências não abrangidas) mas é insuficiente.
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Apesar de haver imensa discriminação, conseguir arrendar um quarto à quarta tentativa está muito abaixo da média. Todos os anos temos estudantes a tentar dezenas de casas até encontrar um quarto, parece um programa dos ídolos com fases de eliminação e entrevistas
E antes que venham com o tradicional “o senhorio não é a Santa Casa da Misericordia”, ser cego não é algo que devesse obrigar uma pessoa a tornar-se dependente do Estado, se tem condiçoes para trabalhar e ter rendimentos e ser uma pessoa que paga as suas despesas como é este o caso.
Sou um sortudo porque trabalho em IT remotamente para o estrangeiro e isso deu-me possibilidades de comprar o meu apartamento, num prédio com degraus na entrada (felizmente só uns 4/5), porque NADA do que via tinha uma entrada acessível. Ando, mas um dia irei deslocar-me com uma cadeira de rodas e sei que vou ter de lutar para poder entrar em casa. Vai ser difícil adaptar o apartamento, mas felizmente tenho (e espero ter na altura) família que me ajude com isso. Conheço uma outra pessoa, com uma deficiência mais grave, que conseguiu viver num prédio com uma entrada acessível, mas tem custos enormes e praticamente não lhe dá para mais nada. O resto dos meus amigos com deficiência vivem com os pais ou outros familiares. Pessoas nos 30, 40 anos ou mais. Tudo aumenta, mas a PSI mantém-se no mesmo valor há anos, e já no seu último aumento eram migalhas. Não podes receber o salário mínimo ou pouco acima praticamente, que já não tens direito a PSI com uma incapacidade de 60-80%. Temos direito a um crédito bonificado para a casa, mas a prestação pode mudar todos os meses de acordo com as taxas do BCE. Tentar a sorte no estrangeiro, com estas deficiências e as contas da saúde para pagar, é impossível. Há muita gente presa em casa por causa disso. É quase uma sentença das pessoas com deficiência à pobreza.
Até quando até perceberem que imensa gente aqui não está equipada para lidar com nenhuma situação prática que esteja sequer uma vírgula ao lado da Chapa 5 do menor denominador comum? Esta é a realidade da população _portuguesa_.
O preconceito e a aversão ao risco típicas da nossa sociedade são apenas o reflexo dessa realidade à escala da sociedade. Não é porque as pessoas são simplesmente burras que são preconceituosas ou com falta de visão; é porque se houver algum tipo de problema, o custo potencial que isso acarreta é algo que à partida já sabem que não podem suportar.
Por isso resolvem da forma mais lógica possível: cortar o mal pela raiz. Se não aceitarem coisas fora do normal, não têm de lidar com potenciais problemas. Todas as justificações mirabolantes servem apenas para legitimar este alinhamento decidido _a priori_, que não é possível sujeitar a argumentação com base em lógica.
Este é só mais um exemplo ilustrativo de como as coisas funcionam _de facto_ e não _de jure_.
Existe alguma proteção extra contra despejos de pessoas com deficiências? Em caso afirmativo pode ser uma das razões.
É um assunto que devia ser mais falado. Fala-se muito de inclusão mas depois na prática a vida digna para pessoas com deficiência contínua a ser muito difícil.
Na cabeça da maioria dos portugueses os deficientes são uns coitadinhos que vão viver ao cuidado da família ou em instituições a vida toda. Mas muitas pessoas com deficiência são perfeitamente capazes de trabalhar, e ter uma vida se tiverem algumas adaptações. E a habitação é talvez das áreas mais complicadas.
Existe o crédito bonificado (crédito habitação com juros mais baixos) mas com os preços como estão dificilmente uma pessoa com deficiência consegue sequer dar a entrada, é nalguns casos como em Lisboa a grande maioria das casa excede o valor máximo do crédito bonificado, por isso essa possibilidade fica logo à partida excluída.
Sei que CML vai ter algumas casas de renda acessível exclusivamente para algumas pessoas com deficiência (as com mobilidade reduzida, existem outras deficiências não abrangidas) mas é insuficiente.
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