
Eng. Electrotécnico (IST) aqui, com alguma experiência na área, trabalhei na EFACEC no desenvolvimento de proteção e controlo de subestações.
Embora seja muito prematuro para tecer conclusões, aponto aqui a minha hipótese (teorias são formas avançadas de conhecimento, por isso tenho apenas hipótese e não teoria).
Antes de mais dizer que sou grande fã das renováveis para combater alterações climáticas, por isso, espero que o meu comentário não seja usado para fins políticos pouco lícitos.
Uma rede elétrica precisa de estar sempre em equilíbrio entre produção e consumo. Sempre que acendem uma lâmpada em casa (consumo), algures no lado da produção, há o respectivo aumento da energia. Todavia não é possível armazenar energia para débito rápido para alimentar uma cidade, por exemplo. As barragens são formas engenhosas de armazenar energia (energia potencial da água), mas não permitem débito rápido, tal depende da gravidade e secção da conduta. Ou seja, as barragens permitem armazenar muita energia, mas não permitem elevada potência de débito.
As formas mais eficazes que permitem inserir elevada energia na rede num curto de espaço de tempo (aka elevada potência) são as centrais térmicas (gás ou nuclear, por exemplo). Se houver uma falha na oferta, o controlador da central térmica consegue em pouco tempo aumentar a queima de gás, aumentando a potência da turbina, mantendo a estabilidade da rede elétrica.
Contudo a elevada dependência das renováveis faz com que a rede seja mais instável a oscilações do lado da produção. Uma falha numa linha de alta tensão no lado da produção e sem capacidade de adaptação em tempo real de forma rápida, faz com que não seja possível alimentar o consumo exigido (era dia de semana, onde o consumo é mais alto). Em teoria seria possível limitar o problema apenas a uma determinada zona (deslastre), mas visto que a rede está toda interligada (e assim deve ser devido ao facto de ser uma rede AC que precisa de estar em sincronismo para que haja transporte e fornecimento de energia e para que haja balanceamento na carga, aka "load balancing"), quado há uma forte perturbação do lado da oferta, pode causar um efeito em cadeia que faz com que toda a rede vá abaixo.
Ou seja, porque não controlamos o sol nem o vento, não conseguimos adaptar a rede para falhas extremas, tornando a rede menos resiliente, sendo que Portugal e Espanha têm uma elevada dependência de renováveis. Insisto que essa dependência é boa, mas precisamos de bons "backups", e talvez a decisão do governo Costa de fechar uma central térmica não tenha sido a mais sensata.
Outro factor a considerar é o facto de estarmos isolados. Se fôssemos a Polónia, (apenas um exemplo de cariz estritamente geográfico, não conheço de todo o caso polaco), mesmo que houvesse uma falha monumental no fornecimento do lado alemão, e mesmo que a Polónia funcionasse apenas a renováveis, poderiam mais facilmente obter a energia em falta dos outros países com quem faz fronteira, visto que faz fronteira com muitos países. Mas a Península Ibérica está isolada e ligada ao resto apenas a França e Marrocos, tornando-a mais vulnerável e menos resiliente.
É isto, insisto que isto é apenas a minha opinião de ter trabalhado na área e de falado com imensa gente. E volto a reiterar que não devemos abandonar as renováveis, devemos apenas tornar a rede mais resiliente, ou com centrais a gás ou centrais nucleares com sistemas black start.
by Internal_Gur_3466
16 comments
Obrigado Sr. Engenheiro pela sua opinião.
Informo também, que foi um gosto enorme ter a oportunidade de a ler.
Abraço
Desde já obrigado pela tua explicação, muito interessante!
Um aparte: Apresentares-te como “Eng. Electrotécnico **(IST)**” é a coisa mais *ISTiana* de sempre
“) são as centrais térmicas (gás ou nuclear, ” …gas tudo bem! nuclear é reactor que não desligas quando te apetece ….
Post muito interessante, obrigado pela explicação cuidada e detalhada mas, ainda assim, perceptível.
Surge uma dúvida, contudo, o que distingue um Eng. Electrotécnico (IST) de um Eng. Electrotécnico?
Obrigado pela explicação.
E centrais a biomassa, são úteis para um sistema destes “backups”?
É que vejo muita conversa das renováveis e gás + nuclear + carvão para baseline mas nunca falam das centrais a biomassa, ou até geotérmicas?
Perdeu-me quando achou relevante mencionar o IST no título 😂
A gente desta faculdade nunca vai escapar às alegações…
Também quero ouvir a opinião de um trolha (escola da vida) sobre o apagão
Até podias ter tirado o curso na farinha amparo: a maior parte daquilo que explicas é de compreensão fácil para qualquer pessoa que saiba ler e escrever: menos para os nossos políticos aparentemente. Serviço público.
Uma central térmica também não tem capacidade para se ajustar em segundos (especialmente se forem necessários grandes ajustes), precisa sempre de alguns minutos para ramp up/ramp down. Nesse aspeto uma barragem até tem tempos de resposta mais rápidos.
Se esta situação tivesse sido mais lenta, em que o consumo se vai desajustando gradualmente da produção, a própria REN tinha conseguido fazer um deslastre localizado da rede, e provavelmente terias apenas apagões localizados, ou nem teria chegado a esse ponto.
Como tal não aconteceu, indica que foi algo repentino e nessa situação não sei o que se possa fazer.
Depois de acontecer é sempre fácil falar mas deixo aqui este artigo que vi há umas semanas: [https://www.expansion.com/empresas/energia/2025/04/08/67f438ad468aeb44768b45ae.html](https://www.expansion.com/empresas/energia/2025/04/08/67f438ad468aeb44768b45ae.html)
Com baixa dos preços o mix de tipos de energia sofre alterações e causa problemas, por isso andam a mexer com isso…
As centrais nucleares em Espanha são o melhor backbone da rede eléctrica ibérica. Se não é viável elas funcionarem vamos todos ter problemas.
post fraco, so para atacar as renovaveis e o PS aka Antonio Costa
Quantas centrais de black start seriam adequadas? Visto que já temos 2, embora sejam barragens.
Apesar de terem fechado essa, a termoeleteica da Tapada do Outeiro era para ter sido fechada no ano passado, e eles renovaram para casos como este.
Uma central/centro de investigações de armazenamento de energia (através de parcerias com as universidades de engenharia em Portugal) deveria ser uma prioridade para um país dependente de renováveis, li há uns anos sobre um país sul-americano (EDIT: Chile) que consegue armazenar energia através do sal fundido e é(era) líder nessa “tecnologia”. Nós, com essa matéria prima em abundância, bem que podíamos investir em algo similar. Existe um projeto muito interessante onde até a Google está envolvida: Projeto Malta.
[Como o Chile quer se tornar uma potência na energia verde – YouTube](https://www.youtube.com/watch?v=v3HBoowkNzI)
Por enquanto, uma central de armazenamento de energia teria de ser com baterias de Lítio.
No entanto, temos os contras de uma central de baterias a lítio: Tem um tempo de vida curto para o investimento e não é nada eco-friendly.
Faço uma questão ao OP, uma central de hidrogénio “verde” para casos como o de ontem, não seria interessante?
Que eu saiba Portugal não produz gás natural. Não iria levar apenas a estarmos mais dependentes dessa importação? No caso do nosso sistema ter uma alta dependência do gás e por motivos geopolíticos deixássemos de o importar não iria ser pior? Não sei como é que íamos migrar para renováveis em pouco tempo e acho que ia levar a brownouts e coisas do género.
Estou mesmo a perguntar. Na minha cabeça um sistema misto como agora é a melhor opção, certo?
Acho que ontem até correu bastante bem. O grande problema na minha opinião foi mesmo as comunicações terem ido abaixo. Isso não pode acontecer desta maneira.
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