É o mandamento de qualquer sufrágio: por um voto se ganha, por um voto se perde. Não foi o caso das legislativas de domingo. O Partido Socialista perdeu as eleições, perdeu por muitos votos e a esquerda perdeu em toda a linha, mesmo como um fôlego débil do Livre, que elegeu seis deputados. Com os votos dos emigrantes ainda por contabilizar, que podem ainda ditar alterações na relação de forças do Parlamento português, os socialistas evitaram por uma nesga um terceiro lugar para lá de humilhante para a história do PS, mas não evitaram a demissão de Pedro Nuno Santos, que ainda ontem assumiu as responsabilidades de uma derrota copiosa, que acaba de vez com o bipartidarismo no sistema político português e deixa os socialistas em águas turvas para as eleições autárquicas que estão ao virar da esquina.
O chamado arco do poder tem agora uma nova força, que consolidou nestas eleições: o Chega. Já não é propriamente uma surpresa. Só os partidos do arco não o viam. E André Ventura, que ontem se apresentou sem resquícios de doença, muito pode agradecer ao monumental barrete político que Pedro Nuno Santos enfiou (erro histórico), votando contra a moção de confiança à AD (leia-se Luís Montenegro), à bolina do caso Spinumviva. Pedro Nuno Santos, pressionado por todos os quadrantes, mordeu o isco. Luís Montenegro arriscou tudo e ganhou.
Numa participação eleitoral bem acima das previsões para o abstencionismo (35,62 por cento de abstenção, 0,99 por cento de votos nulos e 1,44 por cento de votos em branco, por junto superior à votação, por exemplo, do Bloco de Esquerda, ficou claro que os portugueses não estavam assim tão cansados da responsabilidade eleitoral, assim como não atribuíram grande importância ao facto do primeiro-ministro receber avenças de empresas, algumas destas dependentes de licenças atribuídas pelo Estado, como é o caso da Solverde, empresa concessionária de casinos.
Se este caso abre um precedente perigoso? Muito possível. Mas é também possível que, depois de assentar a poeira – que agora depende dos resultados dos círculos da Europa e fora da Europa, que ainda podem causar alterações significativas no Parlamento, pois o Chega pode ainda ultrapassar o PS em número de deputados -, que a AD nem sequer necessite de coligar-se com a Iniciativa Liberal, uma hipótese que ao longo de uma das piores campanhas eleitorais de sempre, se foi tornando cada vez mais plausível. Respira de alívio o CDS-PP, partido-muleta da AD, pouco ou nada predisposto a partilhar o leito do poder para um “ménage à trois” liberal.
Uma vez que Luís Montenegro, que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, – que de novo teve de engolir as suas próprias palavras -, convidará a formar governo, mantém o seu “não é não” em relação a qualquer acordo de governo com o Chega, com o resultado destas eleições não parece ser de grande utilidade juntar os trapinhos com a Iniciativa Liberal, o que só iria causar convulsões internas na AD. Até porque a AD, vistas bem as coisas, tem sozinha mais votos no Parlamento que todos os partidos de esquerda juntos. Por outro lado, a AD e a IL somados também não lhe permitem formar uma maioria absoluta.
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A contas: A AD obteve 32,72 por cento dos votos, elegendo 89 deputados. O PS, com escassos 23,38 por cento, um dos piores resultados legislativos da sua história, elegeu 58 deputados, os mesmos que elegeu o Chega, com 22,56 por cento dos votos. A Iniciativa Liberal, com 5,53 por cento, aumentará para nove o número de deputados. O Livre, com 4,2 por cento, aumentará para seis deputados. A CDU, confirmando que eram manifestamente exageradas as notícias da sua morte, alcançou 3,03 por cento dos votos, elegendo três deputados. O Bloco de Esquerda, que sofreu outra pesada derrota, terá apenas Mariana Mortágua na bancada parlamentar bloquista. O PAN esteve com um pé fora do hemiciclo, mas Inês Sousa Real acabou por ser eleita com 1,36 por cento dos votos.
E, da ilha da Madeira, a outra surpresa destas eleições: o Juntos Pelo Povo (JPP), o 21º partido da democracia portuguesa, fez história, tornando-se no primeiro partido de carácter vincadamente regional a eleger um deputado para o Parlamento Português. Filipe Sousa, o ainda presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz, na Madeira, não cabia em si de contente.
Por junto, estas eleições resultaram num verdadeiro terramoto no sistema político português, interrompendo um longo ciclo de mais de meio-século em que PS e PSD alternavam entre si no poder. Está bem que o grande vencedor da noite eleitoral foi Luís Montenegro e a AD. Mas o Chega, que parece ter encontrado o seu cavalo de Tróia nas questões da imigração, chega-se cada vez mais aos lugares do poder. Curiosamente, é no voto dos emigrantes que reside de novo a chave para a nova composição do Parlamento português. Que pode ainda ditar um desonroso terceiro lugar ao PS.
(O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico)