
Médico do Hospital de Santa Maria terá escolhido os casos mais bem pagos, mas não há suspeitas de que tenha falseado casos ou diagnósticos
by SLY_cs

Médico do Hospital de Santa Maria terá escolhido os casos mais bem pagos, mas não há suspeitas de que tenha falseado casos ou diagnósticos
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Médico do Hospital de Santa Maria fez 497 operações ao sábado e quase 1500 no horário regular entre 2021 e 2024. Terá escolhido os casos mais bem pagos, mas não há suspeitas de que tenha falseado casos ou diagnósticos
Expresso 30/5/2025
O dermatologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, sob escrutínio devido a remunerações milionárias por cirurgias em regime adicional recebeu mais do que tem sido noticiado e não é caso único no hospital nem no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Desde 2021, quando a unidade de dermatologia começou a priorizar os doentes em lista de espera, e até 2024, o especialista somou €714.829 por cirurgias em produção adicional e o valor não destoa do global dos encargos. Nos mesmos quatro anos, com os restantes seis dermatologistas que também operaram doentes aos sábados, o serviço entregou ao hospital uma fatura total de €3,8 milhões.
Os dados a que o Expresso teve acesso indicam que o jovem médico, especialista há dois anos, realizou 497 cirurgias em produção adicional e quase 1500 no horário regular. Isto é, cumpriu a exigência de três intervenções em dias úteis por cada uma adicional. A atividade foi sempre crescente: aos sábados passou de 64 intervenções em 2021 para 234 no ano passado. Em 2023 fez apenas 86 cirurgias, porque esteve oito meses ausente do hospital.
Segundo as contas do Santa Maria, as idas ao bloco operatório do clínico tiveram um custo médio de €1438 nos quatro anos analisados, ligeiramente menos do que a média do serviço de dermatologia (€1444) e um pouco mais face ao balanço de toda a atividade cirúrgica adicional do hospital, com €1313 por doente.
A informação obtida mostra que a redução das listas de espera cirúrgicas mediante incentivos (Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia — SIGIC) mobilizou as equipas do Santa Maria, operando sempre mais doentes e a preços crescentes. O dermatologista aumentou os ganhos extra em 200%, de €28.525 em 2021 para €423 mil no ano passado. A dermatologia, no seu todo, passou de €179.347 para €1,7 milhões e o conjunto das especialidades de €6,5 milhões para €14,5 milhões em 2024. Nos quatros anos, o conjunto das especialidades somou €44,6 milhões em incentivos, €3,8 milhões da dermatologia.
A adesão ao SIGIC repete-se pela generalidade dos hospitais. A Direção-Executiva do SNS avançou que o número de doentes operados mediante o pagamento de incentivos aumentou 77% nos últimos três anos. Dados a que o Expresso teve acesso mostram que só no primeiro trimestre do ano o SNS tinha 63.027 intervenções ao abrigo do SIGIC e 131.759 em produção base. No Santa Maria, quatro especialidades (obstetrícia, cirurgia vascular, urologia e cirurgia geral) tinham já a maioria dos doentes operados através do programa de incentivos.
CODIFICAÇÃO ESTARÁ CORRETA
No caso do especialista, houve desde logo uma situação irregular: foi o próprio médico a codificar as intervenções que realizou, a descrever os procedimentos cirúrgicos e a atribuir um custo — o valor a pagar por cirurgia está definido e tabelado pelo Governo, através dos Grupos de Diagnósticos Homogéneos (GDH). As regras definidas por lei mandam os hospitais ter gabinetes de codificação, mas o Santa Maria só tinha um médico codificador na dermatologia desde abril de 2021.
O Expresso sabe que a codificação feita pelo dermatologista estará clinicamente correta — por exemplo, nos casos de suposta lesão cancerígena, há confirmação laboratorial posterior — e que a falha, a existir, será outra. O médico terá marcado os casos mais caros para a produção adicional, tendo deixado para operar dentro do horário de trabalho os menos complexos. A confirmar-se esta informação, terá falhado o controlo logo no início, que deve ser feito pelo diretor do serviço e pelo diretor clínico (ver caixa).
A administração teve dois alertas em 2024 sobre os montantes pagos ao clínico e atuou. Em abril reduziu a percentagem a pagar às equipas, em agosto afastou o médico da codificação e em novembro limitou o nível de severidade máximo que a dermatologia podia codificar e receber. Pelo meio, foram feitas várias análises, incluindo uma auditoria clínica. Os resultados foram de “normalidade” e “conformidade”. E agora vai entregar a codificação das cirurgias adicionais a uma empresa.
€1 MILHÃO PARA QUATRO MÉDICOS
Esta semana surgiu uma nova denúncia, agora sobre a dermatologia no Hospital de Portimão. A unidade pagou €1 milhão a quatro médicos por um ano de cirurgias em SIGIC. A administração já afirmou que não foram por agora detetadas irregularidades, mas abriu um inquérito e vai enviar a informação ao Ministério Público, que já está a investigar o Santa Maria. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde também vai analisar o SIGIC em todo o SNS.
Vários clínicos e responsáveis ouvidos pelo Expresso garantem que os valores exuberantes pagos através do SIGIC são exclusivos de poucas especialidades, desde logo da dermatologia ou da oftalmologia. Ambas têm procedimentos sem grande complexidade e rápidos, mas com um valor tabelado bastante elevado.
Numa manhã de sábado, dermatologistas ou oftalmologistas podem extrair sinais ou quistos, operar cataratas ou administrar injeções intraoculares a 20 ou 30 doentes. São premiados pelo volume e não são prejudicados pela complexidade, que obriga outros médicos a permanecerem horas no bloco com um único doente e um só pagamento.
Quem diria que pagar extras em vez de contratar ia dar nisto 🙄
O SNS dá de mamar muita gente
Portugal precisa de mudar para um sistema de Saúde Suíço ou pelo menos Holandês
Ai pff. Pior que haver meia dúzia de gajos a aldrabar para sacar meio milhão em duas semanas é o sistema permitir que legalmente saquem meio milhão em duas semanas 🤡
Malta parece que tudo foi feito de acordo com a lei, posso estar maluco mas isto me cheira que o problema é que o pessoal que fazem as nossas leis são uma cambada de incompetentes.
Ou seja, na prática, não parece ter havido nada de ilegal neste caso. Muito inflamatório e possivelmente com um objetivo muito específico.
A principal questão aqui é saber se vai haver ajuste dos valores tabelados quando comparado com outras especialidades cirúrgicas que fazem cirurgias mais complexas.
Se calhar mais importante que isso, é garantir salários adequados aos médicos de modo a que consiga efetivamente contratar mais profissionais.
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