



Boa noite malta…
Volta e meia ressurge, neste espaço e nos outros do lado, o infindável feudo contra os ciclistas.
Ora porque andam a pares, ora porque não andam na ciclovia, ora porque não rodam o mais à direita possível, ora porque não pagam IUC e por isso “têm menos direitos que eu que sou a última bolacha do pacote”.
Enquanto mortal amante da modalidade, sempre que saio de casa em duas rodas, faço por me lembrar que a melhor maneira de chegar a casa inteiro é assumir sempre que sou invisível para todos os demais utilizadores da estrada, dos passeios, das ciclovias e qualquer demais sítio onde tenha de passar com a bicicleta. Para isso certifico-me que, entre outras tantas medidas preventivas e defensivas, circulo, sempre que possível o mais próximo que possa do centro da via de rodagem. Faço excepção quando a berma é larga, limpa, contínua e acima de tudo desimpedida de obstáculos como veículos, portas e portões, tampas etc.
Já perdi a conta aos sustos que apanhei nas bermas; sejam portas de carros que se abrem “de surpresa”, pessoas que saem de casa para a estrada como saem do quarto para a sala, cães que saltam muros, putos a correr atrás de bolas… Enfim, por cada susto com condutores selvagens há outro com eventos nas bermas. Circulando mais ao centro da faixa evitam-se os últimos e minimizam-se os primeiros.
Pois bem… Está sexta-feira saí na segunda perna da minha volta Porto – São Jacinto – Porto tive, na beira da N327, o mais aparatoso acidente da minha vida em duas rodas.
Ia no sentido sul-norte, 70 km feitos e outros tantos para chegar a casa, compenetrado na música que ouvia (auscultadores de condução óssea), a lutar contra a nortada para tentar manter a média de >32kmh, a Ria de Aveiro brilhando do meu lado direito, o cheiro a maresia e boas sensações nas pernas e no coração. De repente, um vulto negro aparece e dou por mim estatelado no chão, no meio da faixa de rodagem, com o capacete amolgado, as manetes das mudanças empenadas, a bicicleta em cima de mim, sangue no braço, nas pernas e no rosto.
Ouço uma mulher a gritar: “ai meu Deus, ai meu Deus, de onde é que ele veio?”
Levanto-me atordoado para impedir que o GPS envie mensagens aos meus contactos de emergência avisando que tive um acidente; percebi que não tinha nada partido e estava relativamente bem, apesar de ter o lado esquerdo do corpo (para onde caí), todo dorido, arranhado, roupa rasgada, telemóvel partido… Não fazia idea do que poderia ter causado a minha queda. Não tinha batido na senhora; ia a 35 km/h e, pela estatura dela – 155 a 160cm, 60kg max, 65-70 anos – teria ficado em pior estado que eu se lhe tivesse acertado.
Acontece que circulava na berma da estrada porque, desde que saíra de São Jacinto, já tinha sido assediado por pelo menos dois condutores agressivos e, como do lado direito só havia ria e a berma estava relativamente limpa, pareceu-me seguro encostar à berma. Lá meti eventualmente a metafórica “quinta” e entrei em velocidade cruzeiro N327 fora. Quilómetro atrás de quilómetro com apenas e só a ria de Aveiro para me fazer companhia à direita…
…até chegar aqui: https://maps.app.goo.gl/fNke9ZGDUvgiSxfr7?g_st=ipc
Abram o Google Street View. Irão ver dois contentores do lixo. Entre eles, a senhora preparava-se para levantar um saco de 50L lixo lá para dentro, no preciso momento em que eu na berma da estrada me preparava para o comer na tromba a 35kmh. Sítio errado à hora errada.
Durante estes dias tenho refletido bastante sobre o sucedido: o que poderia ter acontecido de pior, como aconteceu o acidente, o que poderia ter feito para o evitar, etc.. Entretanto cheguei à conclusão que, se tivesse feito o que sempre faço, isto é, circular no centro da faixa, hoje não estava todo pisado e esmurrado e teria evitado algo que poderia ter sido muito mais grave.
Felizmente nem eu, nem a senhora, nem a bicicleta tivemos danos irreparáveis. Consegui completar os 70 km que faltavam até casa, apesar de algumas dores e um pouco de choque. E é por isto que doravante, nunca mais ando na berma.
Obrigado por virem ao meu Ted Talk.
by ocrlqtfda
14 comments
As melhoras, uma boa recuperação
Quando ando de bicicleta e me “encosto” a direita, faço-o de maneira a ter algum espaço de manobra para me desviar ainda mais para a direita se algum condutor vier a fazer pontaria ao guiador.
Ou seja, nesse caso viria na via, mas não na berma, para ter a berma para fugir caso fosse preciso.
Fica mais facil para qualquer automovel ultrapassar do que ir no meio, mas também não dá confiança total. Se teria adiantado ou não neste caso, não sei.
Eu acho bicicleta algo muito legal, mas a minha vida vale mais, e acredito que todos deveriam pensar da mesma forma. Desisti disso já há bastante tempo.
Aliás, eu amo andar de moto, mas também deixei isso de lado. Com a quantidade de malucos no trânsito, ou mesmo motoristas cuidadosos que, em um momento de distração, podem acabar com a vida de alguém sobre duas rodas, achei mais seguro parar.
E mesmo quando não tiram a vida, já vi amigos e parentes próximos ficarem com sequelas permanentes por causa de quedas aparentemente “bobas”. Meu irmão, por exemplo, nunca mais conseguiu tocar violão depois de uma queda.
Porra que história ainda bem que estás bem.
Como amante de duas rodas motorizadas tenho sempre o maior respeito por quem anda de duas rodas, infelizmente em qualquer modalidade há sempre quem abusa e como em todas uns pagam pelos outros.
Concordo contigo que deves marcar posição já fui tratado diversas vezes como uma bicicleta no sentido de ser encostado para a berma, porém se a par no cruzamento ou passando tão próximo que podia encostar o ombro no carro.
O que alerto e tu pareces me bem ciente disso é que marcar posição e criar embaraço ao trânsito são duas coisas bem distintas e as vezes isso é o que falta a alguns.
Acho que já me assustei eu e assustei ciclistas ao mesmo tempo simplesmente porque faço uma curva cega na n108 e tenho ciclistas a par a 30 numa zona de 70.
Desejo-te as melhoras e mais sorte para uma próxima.
Não viste a senhora? Parece ser uma zona com visibilidade razoável.
Essa senhora deve gostar de comme restus
Bom texto. Efectivamente foi mesmo hora errada, local errado.
As melhoras 😀
Foda-se, não é para levar a música dos come restos a sério!
As melhoras e boas pedaladas, que lá isso tens!
Como se diz para morrer basta estar vivo ou a morte até pelo buraco do cu nasce.
Quero com isto dizer que não vale a pena estares a reviver o momento e deixar te atormentar por isso.
É continuares os teus passeios com os mesmos cuidados que já tinhas. Foi um azar que acontece ao mais cuidadoso.
Pegando na parte em que falas que foste assediado .. valida de certa forma uma teoria que vou tendo que o pior sítio/ocasião para se andar de bicicleta na estrada (no sentido de apanhar mais desvairados e stressados que o pensamento de te passar por cima está lá) é em sítios onde as pessoas gostam de ir passear ao domingo e feriados.
Ainda no outro dia em Leça, numa estrada completamente livre de trânsito, em que não havia qualquer desafio à ultrapassagem (praticamente sem trânsito e onde eu ia no “1/3 direito” da faixa) , um lunático passa a apitar, rente a mim ao ponto de me ter tocado e ainda abriu o vidro para me insultar. Depois viu que não parei, achou que eu devia ir atrás dele e acelerou a fugir como o homem forte que era. Isto com duas crianças atrás.
Infelizmente, Portugal em grande parte das coisas continua a ser o peido da Europa e civismo na estrada não é excepção.
As melhoras.
“Ultima bolhacha do pacote” sabia que es de Aveiro e arredores sem dizeres lol mais ninguém usa isto.
Boa recuperação, quanto a andares no centro da faixa, tu não tens direito mais que os automobilistas, nem eles mais que tu mas ha que ter bom senso e facilitar a ultrapassagem.
Quanto a min quando ando de bicla tenho amor a vida e nunca vou para nacionais, mas tambem tenho sorte de que aqui ha boas ciclo-vias
Por isso é que só faço btt.
Tens um chão de taco. Fixe 😎
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