Quando, na semana passada, fui a Portugal com os meus amigos luxemburgueses, tive dois ou três momentos de suspiro profundo – e só não me irritei porque estava de férias, o que, como toda a gente sabe, é o melhor tónico que existe no mundo contra a irritação.

Mas houve dois ou três momentos em que tive de me perguntar se Portugal ainda é bom destino de férias. Bom, há coisas que sim, claro que sim. O clima é na maior parte das vezes estupendo, as praias igualmente, a comida é extraordinária e o povo é acolhedor. É o nosso chão, afinal de contas, o lugar onde pertencemos.

A nossa semana em Lisboa, todavia, fez-me duvidar dessa ideia de chão. A capital portuguesa é a minha cidade, o lugar onde nasci, cresci, estudei e trabalhei a maior parte da minha vida. É o meu lugar. Então foi para o meu lugar que eu levei os meus amigos – ou pelo menos era isso que eu pensava. Mas foi?

Multidões de turistas enchiam Alfama e Belém, a Baixa e o Cais do Sodré, o Chiado e o Príncipe Real. Deslocavam-se em tuk-tuks, em carros antigos, em veículos anfíbios que entravam e saíam Tejo dentro. E eu só pensava: isto não é a capital do meu país, francamente. Isto é a Disneylândia.

O assalto ao turista – e a ânsia de retirar dividendos dos viajantes – estão a criar um novo Portugal, e não gosto desta dinâmica. Quando nos preparávamos para alugar um AirBnB, não pudemos deixar de notar a escalada dos preços. Alugar uma casa em Lisboa sai mais caro do que Londres ou Paris, Roma ou Berlim. É estranho. O nível salarial dos portugueses é muito mais baixo.

Desviei-me muitas vezes da rota turística, sobretudo quando chegava a hora de comer. No centro, as armadilhas estavam montadas – sobram os lugares caros onde se come codfish em vez de bacalhau. Onde a bebida típica é a sangria. Onde há tapas em vez de petiscos. Mas, como lisboeta, e com tantos amigos lisboetas ainda, consegue dar-se a volta ao tema. É preferir as incursões pelos bairros menos galgados, onde os tascos e as casas ainda servem a autenticidade culinária do meu país. Que, não restem dúvidas, é excelente.

Na hora de irmos embora, a caminho do aeroporto, demorámos mais de meia hora a percorrer de carro os 500 metros que separam a rotunda do relógio da zona de partidas. Tamanha era a massa humana que embalava no vaivém estival, Lisboa dentro, Lisboa fora, Lisboa toda, Lisboa nenhuma. Da sobrelotação da Portela estamos falados.

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Bem sei que o turismo representa um pedaço importante da economia do meu país. Bem sei que não podemos querer guardar o nosso país só para nós, quando ele é tão especial também temos de saber partilhá-lo com os outros. Mas temo que a loucura em que mergulharam Lisboa, o Porto e o Algarve, os preços que se estão a praticar, a sobrelotação dos espaços que antes vingavam pela sua serenidade, crie um efeito tramado: o de matarmos a galinha dos ovos de ouro.

Voltarei a Portugal de férias, sempre. Mas duvido que o meu verão passe pelos lugares que antes frequentava. Adeus, Alfama. Adeus, Cedofeita. Adeus, Porto Covo. Adeus, Lagos. Vou para o Minho e as Beiras, para o Alentejo menos conhecido e o Algarve dos extremos. Portugal ainda é o que era, mas já não está nas mesmas partes onde estava. Boas férias.