“Tive que falar inglês para ser bem tratado” – um brasileiro a falar inglês convincente? (X) Doubt
Vem do instagram “brasileirasnaosecalam” logo nem vale a pena ler, basta ver os comentários dos brasileiros nesse instagram e vemos quem realmente é xenofobo.
Mais uma moeda, mais uma voltinha!
Tenho uma amiga brasileira, fala bem ingles, ja vive na Irlanda ha uma serie de anos, foi passar ferias a Portugal e disse-me a mesma coisa. Se falasse brasileiro era olhada de lado, mas em ingles tratavam-na bem.
Também passavam o tempo a fazer piadas sobre Brasileiros?
A gozar com a forma como falas?
A pedirem para devolveres o granito?
Somos um país super racista e xenofobo /s
Eu como brasileiro sempre fui bem tratado por cá, tão mais bem tratado em Portugal do que no Brasil, que hoje prefiro isto aqui, e não volto pra lá nem que me paguem. Os únicos que não me tratam bem por cá são os governantes, mas isso é a toda gente.
Eu tive várias situações em que fui maltratado por brasileiras em Portugal. Ninguém me defendeu e eu continuo a gostar de brasileiras.
Somos assim tão maus e vão para aqui? Parece mais choradinho a fazer-se de vítima que outra coisa.
Bom, é fim de tarde de sexta. Antes de ir para as cervejas, deixa-me lá ver se consigo meter um bocado de ordem nisto antes que os comentários descambem.
1. Choque cultural: existe.
2. Quanto maior a emigração/turismo, mais hipótese de ocorrência de choques culturais.
Quando um brasileiro “médio” chega a Portugal, vem com uma de duas ideias pré-concebidas: ou que somos povos idênticos em resultado da língua; ou que somos racistas. Cada uma destas ideias feitas dá resultado em fricções e loops de auto-confirmação.
Os portugueses são muito diferentes dos brasileiros. É um povo mais reservado, talvez até mais desconfiado. Diria que o que nos une são os nossos defeitos: *a culpa é sempre do outro, nunca minha.* Mas deixemos isso de lado por agora.
O brasileiro comum é muito mais intenso no seu trato. Casos práticos: o brasileiro é muito mais festivo; o brasileiro é muito mais reivindicativo. Basta-me sair à minha rua (uma zona completamente insuspeita da cidade de Lisboa) e vejo cartazes apelando à reparação histórica, às injustiças perpetradas aos índios amazónicos, aos “direitos da buceta”. Seria impensável um português sair do seu país e fazer o mesmo no estrangeiro. Não estou a fazer juízo de valor.
Estas diferenças de trato resultam em mal-entendidos. É frequente ver tanto portugueses e brasileiros dizerem que uns e outros são antipáticos. O português acusa o brasileiro de não começar uma conversa com *bom dia/boa tarde/boa noite,* o que é uma grande não-não em Portugal. O brasileiro acusa o português de ser bruto, porque não fala da forma açúcarada que os brasileiros o fazem. Tanto um como o outro dizem verdades, observações verdadeiras *aos seus olhos.* É choque cultural.
Desse choque cultural resulta que muitos dos intérpretes se isolem nos seus grupos sociais. Muitos brasileiros só se dão com os seus patrícios, o que, mais uma vez, resulta em loops de confirmação: *os portugueses são isto, são aquilo.* Os portugueses, por outro lado, vêm-se confrontados com sociedades fechadas de brasileiros a fazerem a mesma vida que faziam no Brasil (música alta, falar alto, festejos barulhentos) e caem num fenómeno igual: *os brasileiros são isto, são aquilo.*
Depois acresce que um brasileiro que volte à sua terra natal (porque veio pouco preparado para a realidade portuguesa) amargurado, nesse regresso espalhe as más notícias que os tugas são uns merdosos. Só podem ser, porque a sua experiência correu mal, porque foi explorado. O problema é que ele vê do seu ponto de vista, esquecendo que em Portugal **todos** são explorados, menos o explorador.
Outro ponto: se o brasileiro tem o problema de desconhecer a cultura portuguesa (o Brasil é tão grande que é auto-suficiente em termos culturais), o português tem o problema de assistir ao que lhe chega a casa através dos orgãos de comunicação social: corrupção política, criminalidade, o absoluto desastre que é o governo de Bolsonaro. A partir destes inputs, é fácil extrapolar que o Brasil é só isto, talvez com um pouco mais de picanha e feijão preto. E está errado.
É tudo, tudo, choque cultural.
Mas se lermos o artigo, quase todos os exemplos que lá estão são de outra ordem: são xenofobia. E sim, temos xenófobos entre as nossas fileiras. Nunca justificado, mas alguns casos têm um background. Esta é a segunda vaga de emigração brasileira, sendo que essa trouxe muito tráfico de mulheres pra prostituição, o que resultou nesta noção parva que todas as brasileiras são *putas ou fáceis*. O facto das mulheres portuguesas serem algo conservadoras no relacionamento (mais verdade nas gerações mais velhas) acaba por reforçar esse preconceito. Ao lado de uma portuguesa, a maioria das mulheres estrangeiras são relativamente *fáceis*.
E há também brasileiros intratáveis. Normalmente são aqueles que os brasileiros apelam de *coxinhas*. Chegam de rei na barriga, e querem que o classismo que impõem no Brasil possa ser aplicado em Portugal. E dá merda. Exemplo prático: com a vaga de imigração de cozinhas veio o ressurgimento dos apartamentos com *elevador para empregadas.* Isto não existia em Portugal (ou havia deixado de existir), e é-nos chocante.
Tudo isto, não sendo desejável, é a meu ver relativamente expectável. Vagas de imigração resultam sempre em algum tipo de fricção. Eventualmente o balanço chegará, com a vivência entre partes.
Há quem queira saltar por cima dessa fase de adaptação, pelo que não é raro ver-se um brasileiro a fazer-se passar por anglófono aqui no r/portugal. E pelos jeitos, também acontece AFK.
11 comments
Lá vamos nós a mais uma rodada do mesmo assunto…
Haja paciência.
“Tive que falar inglês para ser bem tratado” – um brasileiro a falar inglês convincente? (X) Doubt
Vem do instagram “brasileirasnaosecalam” logo nem vale a pena ler, basta ver os comentários dos brasileiros nesse instagram e vemos quem realmente é xenofobo.
Mais uma moeda, mais uma voltinha!
Tenho uma amiga brasileira, fala bem ingles, ja vive na Irlanda ha uma serie de anos, foi passar ferias a Portugal e disse-me a mesma coisa. Se falasse brasileiro era olhada de lado, mas em ingles tratavam-na bem.
Também passavam o tempo a fazer piadas sobre Brasileiros?
A gozar com a forma como falas?
A pedirem para devolveres o granito?
Somos um país super racista e xenofobo /s
Eu como brasileiro sempre fui bem tratado por cá, tão mais bem tratado em Portugal do que no Brasil, que hoje prefiro isto aqui, e não volto pra lá nem que me paguem. Os únicos que não me tratam bem por cá são os governantes, mas isso é a toda gente.
Eu tive várias situações em que fui maltratado por brasileiras em Portugal. Ninguém me defendeu e eu continuo a gostar de brasileiras.
Somos assim tão maus e vão para aqui? Parece mais choradinho a fazer-se de vítima que outra coisa.
Bom, é fim de tarde de sexta. Antes de ir para as cervejas, deixa-me lá ver se consigo meter um bocado de ordem nisto antes que os comentários descambem.
1. Choque cultural: existe.
2. Quanto maior a emigração/turismo, mais hipótese de ocorrência de choques culturais.
Quando um brasileiro “médio” chega a Portugal, vem com uma de duas ideias pré-concebidas: ou que somos povos idênticos em resultado da língua; ou que somos racistas. Cada uma destas ideias feitas dá resultado em fricções e loops de auto-confirmação.
Os portugueses são muito diferentes dos brasileiros. É um povo mais reservado, talvez até mais desconfiado. Diria que o que nos une são os nossos defeitos: *a culpa é sempre do outro, nunca minha.* Mas deixemos isso de lado por agora.
O brasileiro comum é muito mais intenso no seu trato. Casos práticos: o brasileiro é muito mais festivo; o brasileiro é muito mais reivindicativo. Basta-me sair à minha rua (uma zona completamente insuspeita da cidade de Lisboa) e vejo cartazes apelando à reparação histórica, às injustiças perpetradas aos índios amazónicos, aos “direitos da buceta”. Seria impensável um português sair do seu país e fazer o mesmo no estrangeiro. Não estou a fazer juízo de valor.
Estas diferenças de trato resultam em mal-entendidos. É frequente ver tanto portugueses e brasileiros dizerem que uns e outros são antipáticos. O português acusa o brasileiro de não começar uma conversa com *bom dia/boa tarde/boa noite,* o que é uma grande não-não em Portugal. O brasileiro acusa o português de ser bruto, porque não fala da forma açúcarada que os brasileiros o fazem. Tanto um como o outro dizem verdades, observações verdadeiras *aos seus olhos.* É choque cultural.
Desse choque cultural resulta que muitos dos intérpretes se isolem nos seus grupos sociais. Muitos brasileiros só se dão com os seus patrícios, o que, mais uma vez, resulta em loops de confirmação: *os portugueses são isto, são aquilo.* Os portugueses, por outro lado, vêm-se confrontados com sociedades fechadas de brasileiros a fazerem a mesma vida que faziam no Brasil (música alta, falar alto, festejos barulhentos) e caem num fenómeno igual: *os brasileiros são isto, são aquilo.*
Depois acresce que um brasileiro que volte à sua terra natal (porque veio pouco preparado para a realidade portuguesa) amargurado, nesse regresso espalhe as más notícias que os tugas são uns merdosos. Só podem ser, porque a sua experiência correu mal, porque foi explorado. O problema é que ele vê do seu ponto de vista, esquecendo que em Portugal **todos** são explorados, menos o explorador.
Outro ponto: se o brasileiro tem o problema de desconhecer a cultura portuguesa (o Brasil é tão grande que é auto-suficiente em termos culturais), o português tem o problema de assistir ao que lhe chega a casa através dos orgãos de comunicação social: corrupção política, criminalidade, o absoluto desastre que é o governo de Bolsonaro. A partir destes inputs, é fácil extrapolar que o Brasil é só isto, talvez com um pouco mais de picanha e feijão preto. E está errado.
É tudo, tudo, choque cultural.
Mas se lermos o artigo, quase todos os exemplos que lá estão são de outra ordem: são xenofobia. E sim, temos xenófobos entre as nossas fileiras. Nunca justificado, mas alguns casos têm um background. Esta é a segunda vaga de emigração brasileira, sendo que essa trouxe muito tráfico de mulheres pra prostituição, o que resultou nesta noção parva que todas as brasileiras são *putas ou fáceis*. O facto das mulheres portuguesas serem algo conservadoras no relacionamento (mais verdade nas gerações mais velhas) acaba por reforçar esse preconceito. Ao lado de uma portuguesa, a maioria das mulheres estrangeiras são relativamente *fáceis*.
E há também brasileiros intratáveis. Normalmente são aqueles que os brasileiros apelam de *coxinhas*. Chegam de rei na barriga, e querem que o classismo que impõem no Brasil possa ser aplicado em Portugal. E dá merda. Exemplo prático: com a vaga de imigração de cozinhas veio o ressurgimento dos apartamentos com *elevador para empregadas.* Isto não existia em Portugal (ou havia deixado de existir), e é-nos chocante.
Tudo isto, não sendo desejável, é a meu ver relativamente expectável. Vagas de imigração resultam sempre em algum tipo de fricção. Eventualmente o balanço chegará, com a vivência entre partes.
Há quem queira saltar por cima dessa fase de adaptação, pelo que não é raro ver-se um brasileiro a fazer-se passar por anglófono aqui no r/portugal. E pelos jeitos, também acontece AFK.