> O uso da classificação de “conservador” é nos dias de hoje, na maioria dos casos, abusiva. Ela foi usada para caracterizar o activista Charles Kirk, que morreu assassinado, repetindo uma classificação usada nos EUA, mas ocultando que também nos EUA muitos órgãos de comunicação o classificaram de extrema-direita. As ideias de Kirk – defesa das armas, racismo contra os negros, que seriam melhores no tempo da agressiva supremacia branca nos estados do Sul, afirmação da inferioridade de inteligência das mulheres negras, ataque aos “trans”, submissão das mulheres aos homens no quadro da “família”, e por fim, o elemento mais moralmente impiedoso, o combate à empatia, aquilo que o une a Musk e a Trump numa visão cruel do Estado e da sociedade. Nada disto é conservador.
> Essa classificação de “conservador”, pouco comum na actual política portuguesa, entrou por imitação das notícias sobre Kirk. O ADN, o partido dos bebés de plástico, colocou uma faixa a falar dos “valores conservadores”, e não tenho dúvidas de que a designação se vai tornar mais habitual, até porque é mais “simpática”. Mas, como muita coisa que por aí circula, é falsa – a classificação de extrema-direita é mais rigorosa, embora tenda a esconder o que é novo nessa zona política, mas não vale a pena perder muito espaço com isto. Mesmo que se diga verdadeira, com grandes teorizações citando Burke, não é – a não ser que se substitua a recusa da Revolução Francesa pela recusa do 25 de Abril. Conservadores é que não são.
> Para simplificar, consideremos questões de estilo e de conteúdo em que a diferença é abissal. Há no conservadorismo um módico de costumes, uma recusa da má educação, dos insultos nas redes sociais, das caretas e gestos dos deputados do Chega no Parlamento. Os conservadores podem ter muitos defeitos, uma certa atracção pelo snobismo, hipocrisia, muita pose, e muitas vezes o atravessar da fronteira entre o conservadorismo e o reaccionarismo. Mas o pensamento conservador, a linguagem, a postura, são completamente distintos desta boçalidade e do programa que ela transporta, de violência explícita, e de uma certa forma, na sua intenção revolucionária, de profunda perturbação social.
> Basta comparar um genuíno conservador como João Carlos Espada com a turma vociferante dos comentadores e influencers próximos do Chega ou da ala mais à direita do PSD, exaltados aos berros, ou enunciando platitudes que atribuem ao “povo” que está fora da “bolha”, com o seu anti-intelectualismo e ignorância agressiva, o uso sistemático da mentira e do exagero como discursos principais. Quanto ao conteúdo, usando a trilogia clássica de Deus, Pátria e Família – apesar de ela própria ter deixado também, há muito na Europa, de personificar o pensamento conservador -, percebe-se a distância da extrema-direita impulsionada pelo populismo dessa trilogia.
> Os nossos homens e mulheres de extrema-direita pouco têm a ver com Deus se o personificarmos na Igreja Católica, onde a maioria se proclama crente e é, no limite, religiosa não praticante. Mas, em dois aspectos, estão do lado oposto: na doutrina social da Igreja e no ataque à empatia, que sem minudências teológicas é o cerne da ideia de “caridade”. E por estranho que possa parecer, no seu ataque a outra das grandes religiões monoteístas, o Islão, que é também bem pouco “católico”. Aliás, uma das coisas que afastavam o ditador conservador que era Salazar do nazismo (como, aliás, Pétain e o ditador católico Dolfuss da Áustria) era o paganismo dos nazis, o culto da violência rácica presente na negação do “outro”, base do racismo e do discurso contra os imigrantes. E se a Igreja cometeu muitas violências no passado, a Igreja de hoje em sociedades como as europeias é uma força de moderação e uma reserva de “empatia” para os mais fracos, como são os pobres e os perseguidos, sejam portugueses de lei ou imigrantes ao lado da lei.
> Quanto à Pátria, uma coisa é ser patriota, outra ser nacionalista e xenófobo. A história portuguesa não tem H grande como todas as histórias de qualquer país. Substituir o patriotismo fundado no que fomos e no que somos por uma espécie de fanfarronice não nos engrandece, antes nos diminui. Aceitar a história como ela foi, com os momentos de violência da reconquista, do colonialismo, da escravatura, das lutas liberais, da guerra colonial, e com os momentos de redenção como o 25 de Abril, pode ser um factor de moderação. Como será para qualquer genuíno conservador ver a Pátria com o olhar dos portugueses da Peregrinação, da História Trágico Marítima, d’Os Lusíadas, de Herculano, Camilo, de Eça, mas também olhar com humildade para a Valise de Carton de Linda de Suza, ou o Oliveira da Figueira de Hergé e nos perceba, compreenda como nos percebem, para depois perceber os “outros”.
> Quanto à Família, esse “valor conservador”, então é que não tem de todo qualquer sentido. São homens e mulheres do nosso tempo, com casamentos e divórcios, uniões de facto, promiscuidade, amantes, sexo, aborto, e só a hipocrisia “familiar” deles justifica que fale disto, porque entendo que cada um vive como entende, mas não é a extrema-direita que vem para cá dar lições de moral. As mulheres abortam, os maridos e namorados pagam os abortos. Só que, de novo, são apanhados pela sua hipocrisia. Uma é a violência doméstica, ou a pedofilia, que não tem nenhum papel no discurso da extrema-direita, e percebe-se porquê, até porque defender a castração química dos seus militantes é um pouco embaraçoso. Outra é que muito do machismo masculino oculta a sua homossexualidade, praticada ou latente.
> Hoje há muito poucos conservadores e muita gente da direita radical e da extrema-direita. E chamar-lhes conservadores é dar-lhes uma caução de moderação que não só não têm como é um dos seus alvos principais.
errado ele não tá, mas que o CHEGA é extrema-direita é.
[deleted]
O surgimento da direita radical acontece exatamente pela incapacidade dos “conservadores” em… conservar. É pouco provável também que eles consigam conservar a sua própria designação. Compreensível também por isso o Pacheco Perreira estar preocupado com a situação porque lhe convém ter “conservadores” como principais opositores políticos.
Termos relativamente inúteis, ambos.
“Extremo-qualquer coisa” implica que há valor inato numa posição pela sua moderação/popularidade apenas.
“Conservador” levanta a pergunta: “Conservador do quê?”
Efetivamente chamar “conservador” a gajos que querem transformar a sociedade de alto a baixo é um eufemismo do caraças. Mas até fica bem na sociedade da pós-verdade.
Se formos por essa via também há outras classificações, que muitas vezes são abusivas, mas amplamente utilizadas de forma de forma habilitadora, independentemente dos meios utilizados como por exemplo “ativista”.
Mais uma vez Pacheco Pereira a dizer aquilo que é simultaneamente óbvio E urgente.
Há vários tipos de “conservador”.
Eu considero-me “conservador” no sentido de ordem pública, mas rejeito ideias do que deve ser uma “família cristã”. No entanto aceito e concordo com os valores cristãos a nível social e prático.
Acho que cada um tem aspetos que concorda mais e outros que concorda menos, daí não gostar de rótulos básicos pois somos humanos e somos mais complexos do que um simples nome indica.
O mundo é da direita… basta ver o a ascensão do chega.
O pessoal estupidificou. Estão tão preocupados com o pessoal manhoso a entrar (que na maioria dos casos nem os afeta, tipo a minha mãe a falar mal deles quando nunca vê nenhum deles) que não entendem que em tudo o resto estão a destruir um país sem grandes probabilidades de conseguir manter a longo prazo nem metade das políticas que defendem.
Enfim… eu pessoalmente não tou preocupado. Mas para mais de 50% da população portuguesa, uma direita no poder vai ser excelente para perceberem a estupidez que estão a fazer apenas por causa de ódios de estimação sem sentido…
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> O uso da classificação de “conservador” é nos dias de hoje, na maioria dos casos, abusiva. Ela foi usada para caracterizar o activista Charles Kirk, que morreu assassinado, repetindo uma classificação usada nos EUA, mas ocultando que também nos EUA muitos órgãos de comunicação o classificaram de extrema-direita. As ideias de Kirk – defesa das armas, racismo contra os negros, que seriam melhores no tempo da agressiva supremacia branca nos estados do Sul, afirmação da inferioridade de inteligência das mulheres negras, ataque aos “trans”, submissão das mulheres aos homens no quadro da “família”, e por fim, o elemento mais moralmente impiedoso, o combate à empatia, aquilo que o une a Musk e a Trump numa visão cruel do Estado e da sociedade. Nada disto é conservador.
> Essa classificação de “conservador”, pouco comum na actual política portuguesa, entrou por imitação das notícias sobre Kirk. O ADN, o partido dos bebés de plástico, colocou uma faixa a falar dos “valores conservadores”, e não tenho dúvidas de que a designação se vai tornar mais habitual, até porque é mais “simpática”. Mas, como muita coisa que por aí circula, é falsa – a classificação de extrema-direita é mais rigorosa, embora tenda a esconder o que é novo nessa zona política, mas não vale a pena perder muito espaço com isto. Mesmo que se diga verdadeira, com grandes teorizações citando Burke, não é – a não ser que se substitua a recusa da Revolução Francesa pela recusa do 25 de Abril. Conservadores é que não são.
> Para simplificar, consideremos questões de estilo e de conteúdo em que a diferença é abissal. Há no conservadorismo um módico de costumes, uma recusa da má educação, dos insultos nas redes sociais, das caretas e gestos dos deputados do Chega no Parlamento. Os conservadores podem ter muitos defeitos, uma certa atracção pelo snobismo, hipocrisia, muita pose, e muitas vezes o atravessar da fronteira entre o conservadorismo e o reaccionarismo. Mas o pensamento conservador, a linguagem, a postura, são completamente distintos desta boçalidade e do programa que ela transporta, de violência explícita, e de uma certa forma, na sua intenção revolucionária, de profunda perturbação social.
> Basta comparar um genuíno conservador como João Carlos Espada com a turma vociferante dos comentadores e influencers próximos do Chega ou da ala mais à direita do PSD, exaltados aos berros, ou enunciando platitudes que atribuem ao “povo” que está fora da “bolha”, com o seu anti-intelectualismo e ignorância agressiva, o uso sistemático da mentira e do exagero como discursos principais. Quanto ao conteúdo, usando a trilogia clássica de Deus, Pátria e Família – apesar de ela própria ter deixado também, há muito na Europa, de personificar o pensamento conservador -, percebe-se a distância da extrema-direita impulsionada pelo populismo dessa trilogia.
> Os nossos homens e mulheres de extrema-direita pouco têm a ver com Deus se o personificarmos na Igreja Católica, onde a maioria se proclama crente e é, no limite, religiosa não praticante. Mas, em dois aspectos, estão do lado oposto: na doutrina social da Igreja e no ataque à empatia, que sem minudências teológicas é o cerne da ideia de “caridade”. E por estranho que possa parecer, no seu ataque a outra das grandes religiões monoteístas, o Islão, que é também bem pouco “católico”. Aliás, uma das coisas que afastavam o ditador conservador que era Salazar do nazismo (como, aliás, Pétain e o ditador católico Dolfuss da Áustria) era o paganismo dos nazis, o culto da violência rácica presente na negação do “outro”, base do racismo e do discurso contra os imigrantes. E se a Igreja cometeu muitas violências no passado, a Igreja de hoje em sociedades como as europeias é uma força de moderação e uma reserva de “empatia” para os mais fracos, como são os pobres e os perseguidos, sejam portugueses de lei ou imigrantes ao lado da lei.
> Quanto à Pátria, uma coisa é ser patriota, outra ser nacionalista e xenófobo. A história portuguesa não tem H grande como todas as histórias de qualquer país. Substituir o patriotismo fundado no que fomos e no que somos por uma espécie de fanfarronice não nos engrandece, antes nos diminui. Aceitar a história como ela foi, com os momentos de violência da reconquista, do colonialismo, da escravatura, das lutas liberais, da guerra colonial, e com os momentos de redenção como o 25 de Abril, pode ser um factor de moderação. Como será para qualquer genuíno conservador ver a Pátria com o olhar dos portugueses da Peregrinação, da História Trágico Marítima, d’Os Lusíadas, de Herculano, Camilo, de Eça, mas também olhar com humildade para a Valise de Carton de Linda de Suza, ou o Oliveira da Figueira de Hergé e nos perceba, compreenda como nos percebem, para depois perceber os “outros”.
> Quanto à Família, esse “valor conservador”, então é que não tem de todo qualquer sentido. São homens e mulheres do nosso tempo, com casamentos e divórcios, uniões de facto, promiscuidade, amantes, sexo, aborto, e só a hipocrisia “familiar” deles justifica que fale disto, porque entendo que cada um vive como entende, mas não é a extrema-direita que vem para cá dar lições de moral. As mulheres abortam, os maridos e namorados pagam os abortos. Só que, de novo, são apanhados pela sua hipocrisia. Uma é a violência doméstica, ou a pedofilia, que não tem nenhum papel no discurso da extrema-direita, e percebe-se porquê, até porque defender a castração química dos seus militantes é um pouco embaraçoso. Outra é que muito do machismo masculino oculta a sua homossexualidade, praticada ou latente.
> Hoje há muito poucos conservadores e muita gente da direita radical e da extrema-direita. E chamar-lhes conservadores é dar-lhes uma caução de moderação que não só não têm como é um dos seus alvos principais.
errado ele não tá, mas que o CHEGA é extrema-direita é.
[deleted]
O surgimento da direita radical acontece exatamente pela incapacidade dos “conservadores” em… conservar. É pouco provável também que eles consigam conservar a sua própria designação. Compreensível também por isso o Pacheco Perreira estar preocupado com a situação porque lhe convém ter “conservadores” como principais opositores políticos.
Termos relativamente inúteis, ambos.
“Extremo-qualquer coisa” implica que há valor inato numa posição pela sua moderação/popularidade apenas.
“Conservador” levanta a pergunta: “Conservador do quê?”
Efetivamente chamar “conservador” a gajos que querem transformar a sociedade de alto a baixo é um eufemismo do caraças. Mas até fica bem na sociedade da pós-verdade.
Se formos por essa via também há outras classificações, que muitas vezes são abusivas, mas amplamente utilizadas de forma de forma habilitadora, independentemente dos meios utilizados como por exemplo “ativista”.
Mais uma vez Pacheco Pereira a dizer aquilo que é simultaneamente óbvio E urgente.
Há vários tipos de “conservador”.
Eu considero-me “conservador” no sentido de ordem pública, mas rejeito ideias do que deve ser uma “família cristã”. No entanto aceito e concordo com os valores cristãos a nível social e prático.
Acho que cada um tem aspetos que concorda mais e outros que concorda menos, daí não gostar de rótulos básicos pois somos humanos e somos mais complexos do que um simples nome indica.
O mundo é da direita… basta ver o a ascensão do chega.
O pessoal estupidificou. Estão tão preocupados com o pessoal manhoso a entrar (que na maioria dos casos nem os afeta, tipo a minha mãe a falar mal deles quando nunca vê nenhum deles) que não entendem que em tudo o resto estão a destruir um país sem grandes probabilidades de conseguir manter a longo prazo nem metade das políticas que defendem.
Enfim… eu pessoalmente não tou preocupado. Mas para mais de 50% da população portuguesa, uma direita no poder vai ser excelente para perceberem a estupidez que estão a fazer apenas por causa de ódios de estimação sem sentido…
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