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A partir de janeiro, os búlgaros poderão ir à Grécia, o principal destino turístico, e comprar uma garrafa de ouzo com a mesma moeda. Da mesma forma, os cerca de 30 mil portugueses que anualmente visitam a Bulgária poderão agora fazê-lo sem ter de converter euros em lev.

As sondagens mostram um país dividido entre os que acreditam que a adesão ao euro é um passo positivo e os que acham que vão ficar a perder. Inquéritos realizados este ano revelaram que cerca de 57% dos búlgaros eram contra a adoção do euro e apenas entre 25% e 26 % estavam a favor.

Na Bulgária, tal como em outros onze Estados-membros, entre os quais Portugal, não houve referendo sobre a adesão à União Europeia. Mas muitos consideram que devia ter havido um referendo sobre a adesão ao euro — o que aconteceu em apenas dois Estados, Dinamarca e Suécia, e em ambos ganhou o “não”. Irlanda, França e Dinamarca fizeram referendos sobre o Tratado de Maastricht, que criou o euro.

Entre as principais vantagens de fazer parte da zona euro, os búlgaros apontam a facilidade de viajar e efetuar transações sem ter de pensar na troca de divisas, em taxas e conversões. Além disso, esperam que a adoção do euro reforce a integração da Bulgária na UE, fortaleça a economia e traga mais estabilidade monetária.

No lado oposto, estão os que se opõem à mudança e receiam os famosos arredondamentos para cima e o aumento dos preços. Acresce o temor pela perda de soberania monetária e ainda a preocupação de que os benefícios do euro possam não chegar igualmente a todos, especialmente em zonas rurais e entre pessoas de menores rendimentos.

Os primeiros tempos serão de adaptação e muitos consideram que o Estado devia explicar de forma mais clara a mudança, uma vez que ainda há muita gente com dúvidas: “Somos um povo que precisa de muita persuasão e, além disso, somos uma nação dividida”, explica numa entrevista ao “Politico” Anton Teofilov, de 73 anos, vendedor no mercado de Pernik, nos arredores de Sófia.

Se o euro vai aproximar a Bulgária do resto da Europa? Claro que sim. “Não haverá diferença entre a Alemanha e nós — estaremos muito mais próximos da Europa. Lembro-me da década de 1990 [a Bulgária aderiu à UE em 2007], quando era necessário preencher uma infinidade de formulários só para viajar, quanto mais para trabalhar no estrangeiro. Estive um ano a trabalhar na construção civil na Alemanha e obter todas as licenças e vistos foi uma grande dor de cabeça. Agora as coisas são completamente diferentes e a entrada na zona euro é mais um passo em direção a essa abertura”, responde.

Mas nem todos pensam da mesma maneira. No mesmo artigo, Petya Spasova, uma ortopedista de 55 anos, opõe-se. “A entrada na zona euro preocupa-me muito. Não creio que este seja o momento certo para a Bulgária entrar na zona euro. Em primeiro lugar, o país está politicamente muito instável, e a própria zona euro enfrenta problemas graves. Como membro mais pobre da UE, não estamos imunes a estes problemas. Pelo contrário, só irão agravar a crise aqui. A guerra na Ucrânia, a crescente dívida da Alemanha e da França… estaremos agora a partilhar as dívidas de toda a Europa. Estamos a adoptar o euro numa altura em que as economias estão frágeis, o que poderá acarretar diversos transtornos e um custo de vida mais elevado”, desabafa.

“Mesmo agora, quando vamos ao supermercado e olhamos para o preço do pão ou de outros alimentos básicos, vemos os preços a subir. Receio que muitas pessoas acabem por viver em extrema pobreza. Nós praticamente não produzimos nada; somos um país baseado em serviços. Quando as pessoas empobrecem, começam naturalmente a consumir menos”, diz.

“Não estou preocupada comigo nem com a minha família. Vivemos em Sófia, onde há mais oportunidades de emprego e salários mais elevados. Estou preocupado com as pessoas em geral. Todos os dias vejo doentes que não têm sequer condições para suportar os custos da viagem para virem a Sófia fazer exames médicos”, acrescenta Petya.

E nem as garantias dadas pelo primeiro-ministro da Bulgária, Rosen Zhelyazkov, de que a transição para o euro será feita “de forma suave e em benefício de todos os cidadãos”, o salvaram. “Estabilidade, investimento e melhor padrão de vida” para os búlgaros não foram suficientes para evitar que se demitisse. Quem será o líder do governo no ano que vem?

Rosen Zhelyazkov, à frente de uma coligação minoritária liderada pelo partido de centro-direita Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária (Gerb), demitiu-se depois de semanas de manifestações contra suas políticas económicas, o orçamento nacional e a corrupção generalizada no país. “Percebemos que os protestos foram contra a arrogância e a presunção; não se trata de um protesto social, mas sim de um protesto por valores”, disse então o primeiro-ministro.

A renúncia “é o primeiro passo para que a Bulgária se torne um país europeu normal”, respondeu Asen Vassilev, líder do partido de oposição Continuamos a Mudança. O próximo passo será “realizar eleições justas e livres, que não sejam marcadas por manipulação eleitoral, como foi o caso das últimas eleições parlamentares”, afirmou.

A data das eleições ainda não está definida, mas não serão as únicas a acontecer em 2026, ano de presidenciais. “Entre a voz do povo e o medo da máfia, ouçam as praças públicas”, escreveu no Facebook o presidente, Rumen Radev, num apelo ao governo e parlamento.

De acordo com a Constituição da Bulgária, o presidente deve pedir aos partidos no Parlamento para trabalhem em conjunto para formar um novo governo. Caso a tentativa falhe, e essa é a hipótese certa, nomeia então um executivo interino para governar o país até às novas eleições.

Embora a viver tempos de crise e instabilidade pelo menos desde 2024, a Comissão Europeia concluiu, através do seu Relatório de Convergência de 2025, que a Bulgária “cumpre os critérios técnicos de convergência para adoptar a moeda única em 2026 — incluindo estabilidade de preços, finanças públicas e regimes cambiais compatíveis”. Esta avaliação foi depois aprovada pelo Parlamento Europeu, com 531 votos a favor, 69 contra e 79 abstenções.

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