>Almeida Costa chamou “investigações médicas” a alegadas experiências nazis para fundamentar a afirmação (cientificamente sem fundamento) de que as mulheres violadas não engravidam, e assim justificar a sua recusa da legalização da interrupção da gravidez em qualquer circunstância, até em caso de crime sexual.
fodasse, ca granda besta.
Eu só não compreendo como é que gajos destes chegam a estes patamares…
É triste que tenha estás posições. Posso garantir que é dos melhores professores da fdup a nivel pedagógico. De resto, ainda bem que não foi aceite.
Achei fascinante esta noticia pois não conhecia de todo o caso. Fui investigar. E o que descobri é **(TLDR) bastante interessante e mostra que este caso não é assim tão simples como estão a pintar. Aliás, diria que há aqui um viés enorme sobre o tema (aborto) de ambas as partes (pro e contra aborto) e que estão a juntar uma imensidão de meias verdades e factos no mesmo pote para todos comerem**.
Os dados a que consegui chegar em poucas horas desde que este post foi criado, enquanto trabalhava na minha área de IT (não sou jornalista, como já devem percebido).
– Não conheço o senhor, mas achei interessante a APMJ estar tão contra a aceitação do António Almeida Costa no TC, num processo de voto que em si é totalmente opaco, secreto e pouco ou nada se sabe do mesmo. Que teria feito ou dito este candidato para a APMJ estar tão contra ele?
– Fui ver quais os motivos dessa contestação tão grande e é bastante interessante: num ponto claro, acusam o candidato de “posições jurídicas atentatórias da dignidade da pessoa humana, valor em que se funda a República”. Acusação bastante grave, diga-se de passagem.
– De facto, importa saber se a) ele de facto declarou isso na altura e se ainda mantinha a sua opinião, quase 40 anos depois b) se tem ou não fundamento científico e c) se é ou não reprovável esta afirmação num artigo de uma revista.
– Relativamente ao ponto a), encontrei o artigo na ROA, que podem consultar [aqui](https://portal.oa.pt/upl/%7B09813eef-7b36-459a-b1ff-48a30defb0d3%7D.pdf). Não vou referenciar nenhum ponto em particular, deixo ao critério de todos lerem o artigo e suas notas, para uma melhor compreensão do tema (são só 40 páginas). Importa referir que o artigo é de 1984 e a sociedade que havia na altura e suas diferenças para a sociedade de agora.
– Não encontrei qualquer negação ou contradição do que foi escrito por AAC mas também não encontrei qualquer afirmação ou reforço de todas as afirmações que são feitas no artigo. Assim diria que é legitimo afirmar que a) está correto…mas será que está?
AAC refere por diversas vezes o artigo “The indications for induced abortion”, escrito por Fred E. Mecklenburg, em 1972 e contido no livro “Abortion and social justice”, de Thomas W Hilgers e Dennis J Horan. Este autor nota no seu artigo que “evidências médicas indicam que uma mulher exposta a um trauma emocional (como violação) não irão ovular dentro do período fértil”. Cita experiências desenvolvidas pelos nazis como evidência médica, onde as mulheres eram enviadas para as camaras de gás para serem mortas e depois eram devolvidas à prisão, onde esse trauma era catalisador para a não ovulação. Contudo o autor refere essas experiências através de uma palestra de Andre Hellegers em 1967, onde este estaria provavelmente a citar Hermann Stieve, conhecido médico alemão que durante a 2ª GM estudou a menstruação e ovulaçãodas mulheres na univercidade de Berlim, sendo os seus trabalhos reconhecidos mundialmente (mas manchados pelas condições em que foram realizados e não se sabe exactamente se este era ou não nazi). De notar que o estudo desenvolvido por Hermann não refere nada sobre violação ou camaras de gás nem os efeitos da violação no contexto de originar uma gravidez, mas sim que o facto de as prisioneiras no contexto de prisão e de elevado stress desenvolvem alterações substanciais na ovulação (ver mais [aqui](http://www.slate.com/articles/life/history/2013/11/nazi_anatomy_history_the_origins_of_conservatives_anti_abortion_claims_that.html?via=gdpr-consent) e [aqui](https://en.wikipedia.org/wiki/Hermann_Stieve)).
Assim se percebe a ordem dos eventos: há um autor (Fred E. Mecklenburg) que desenvolve um artigo conhecido e muito usado internacionalmente com base nos artigos mundialmente aceites de um médico alemão (Hermann Stieve), onde extrapola as conclusões para determinar o seu viés antiaborto nos seus artigos.
E AAC refere esse autor, 12 anos mais tarde, num artigo onde menciona, entre outras coisas, “Como decorre do exposto, os casos de gravidez proveniente de violação são muito raros.” (p. 577).
Ele não refere que as mulheres não engravidam como consequência de uma violação e refere a probabilidade de um acto sexual conduzir a uma gravidez é muito baixa (nota 101, que nem é mencionada na carta da APMJ; aliás a carta da APMJ menciona somente as notas onde AAC refere Fred E. Mecklenburg, mas a APMJ não refere todos os outros autores, estudos e dados científicos que comprovam e servem de base para o artigo de AAC nem Pedro Pulido Adragão, que também foi referenciado muitas vezes, o que é bastante curioso).
Assim sendo é fácil perceber que AAC se baseou em dados à data do artigo presumivelmente verdadeiros mas que já em 2003 se comprovava não serem sustentáveis (ver [aqui](https://link.springer.com/article/10.1007/s12110-003-1014-0)). Diria até que pode ter sido enganado pelo viés do autor Fred E. Mecklenburg? Não sei e como quase 40 anos depois já passaram e AAC ainda não se redatou nem reforçou qualquer comentário em relação a essa situação, fica dificil perceber o seu ponto de vista atual.
– Em relação ao b), já está mais do que provado que não tem fundamento científico atual. Contudo o artigo de AAC refere outras situações, não só a violação resultante em gravidez e refere estudos, outro autores e dados.
– Em relação ao c) é reprovável se fosse dito exactamente como a APMJ e a FC referem. Mas não encontrei nada que assim o justifique (e de notar que os dados médicos obtidos durante a 2ª GM pelos médicos alemães, mesmo os nazis – e não eram poucos – são válidos). Ainda assim estou a terminar de estudar todo o artigo do AAC para determinar se as palavras exactas aparecem no mesmo.
**Conclusão**
Há muito viés nestes artigos, o que não ajuda em nada. Também não conheço o senhor em causa para saber qual a sua opinião actual e porque não comentou nada desde que se comprovou que este ponto em particular do seu artigo é falso, à luz dos dados científicos atuais.
E para nós, cidadãos: cuidado com o que dizem e aceitamos como sendo verdades absolutas. Mesmo que seja um artigo cientifico, é sempre necessário pensar que pode ser uma verdade hoje em dia e aceitável nesta sociedade, mas com mais dados epiricos pode ser reprovável e inconclusivo no futuro. Ou pior, pode ser um artigo cheio de meias verdades e dados falsos – já não seria a primeira vez que tal acontecia.
PS: demorei mais tempo a escrever este texto do que encontrar os dados que referi aqui. O que também é curioso perceber se quem anuncia a verdade num jornal se está mesmo interessado em procurá-la ou não.
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Vá lá que não foi eleito…
>Almeida Costa chamou “investigações médicas” a alegadas experiências nazis para fundamentar a afirmação (cientificamente sem fundamento) de que as mulheres violadas não engravidam, e assim justificar a sua recusa da legalização da interrupção da gravidez em qualquer circunstância, até em caso de crime sexual.
fodasse, ca granda besta.
Eu só não compreendo como é que gajos destes chegam a estes patamares…
É triste que tenha estás posições. Posso garantir que é dos melhores professores da fdup a nivel pedagógico. De resto, ainda bem que não foi aceite.
Achei fascinante esta noticia pois não conhecia de todo o caso. Fui investigar. E o que descobri é **(TLDR) bastante interessante e mostra que este caso não é assim tão simples como estão a pintar. Aliás, diria que há aqui um viés enorme sobre o tema (aborto) de ambas as partes (pro e contra aborto) e que estão a juntar uma imensidão de meias verdades e factos no mesmo pote para todos comerem**.
Os dados a que consegui chegar em poucas horas desde que este post foi criado, enquanto trabalhava na minha área de IT (não sou jornalista, como já devem percebido).
– Não conheço o senhor, mas achei interessante a APMJ estar tão contra a aceitação do António Almeida Costa no TC, num processo de voto que em si é totalmente opaco, secreto e pouco ou nada se sabe do mesmo. Que teria feito ou dito este candidato para a APMJ estar tão contra ele?
– Fui ver quais os motivos dessa contestação tão grande e é bastante interessante: num ponto claro, acusam o candidato de “posições jurídicas atentatórias da dignidade da pessoa humana, valor em que se funda a República”. Acusação bastante grave, diga-se de passagem.
– Segundo a Fernanda Câncio, que diz no seu artigo do DN “A APMJ referia-se à revelação, por este jornal, de que num artigo de 1984, quando era assistente da Faculdade de Direito de Coimbra, Almeida Costa chamou “investigações médicas” a alegadas experiências nazis para fundamentar a afirmação (cientificamente sem fundamento) de que as mulheres violadas não engravidam, e assim justificar a sua recusa da legalização da interrupção da gravidez em qualquer circunstância, até em caso de crime sexual.” Artigo [aqui](https://www.dn.pt/sociedade/almeida-costa-chumbado-corajosa-posicao-congratula-associacao-de-mulheres-juristas-14905755.html) e carta da APMJ ao TC [aqui](https://www.dn.pt/sociedade/almeida-costa-chumbado-corajosa-posicao-congratula-associacao-de-mulheres-juristas-14905755.html).
– De facto, importa saber se a) ele de facto declarou isso na altura e se ainda mantinha a sua opinião, quase 40 anos depois b) se tem ou não fundamento científico e c) se é ou não reprovável esta afirmação num artigo de uma revista.
– Relativamente ao ponto a), encontrei o artigo na ROA, que podem consultar [aqui](https://portal.oa.pt/upl/%7B09813eef-7b36-459a-b1ff-48a30defb0d3%7D.pdf). Não vou referenciar nenhum ponto em particular, deixo ao critério de todos lerem o artigo e suas notas, para uma melhor compreensão do tema (são só 40 páginas). Importa referir que o artigo é de 1984 e a sociedade que havia na altura e suas diferenças para a sociedade de agora.
– Não encontrei qualquer negação ou contradição do que foi escrito por AAC mas também não encontrei qualquer afirmação ou reforço de todas as afirmações que são feitas no artigo. Assim diria que é legitimo afirmar que a) está correto…mas será que está?
AAC refere por diversas vezes o artigo “The indications for induced abortion”, escrito por Fred E. Mecklenburg, em 1972 e contido no livro “Abortion and social justice”, de Thomas W Hilgers e Dennis J Horan. Este autor nota no seu artigo que “evidências médicas indicam que uma mulher exposta a um trauma emocional (como violação) não irão ovular dentro do período fértil”. Cita experiências desenvolvidas pelos nazis como evidência médica, onde as mulheres eram enviadas para as camaras de gás para serem mortas e depois eram devolvidas à prisão, onde esse trauma era catalisador para a não ovulação. Contudo o autor refere essas experiências através de uma palestra de Andre Hellegers em 1967, onde este estaria provavelmente a citar Hermann Stieve, conhecido médico alemão que durante a 2ª GM estudou a menstruação e ovulaçãodas mulheres na univercidade de Berlim, sendo os seus trabalhos reconhecidos mundialmente (mas manchados pelas condições em que foram realizados e não se sabe exactamente se este era ou não nazi). De notar que o estudo desenvolvido por Hermann não refere nada sobre violação ou camaras de gás nem os efeitos da violação no contexto de originar uma gravidez, mas sim que o facto de as prisioneiras no contexto de prisão e de elevado stress desenvolvem alterações substanciais na ovulação (ver mais [aqui](http://www.slate.com/articles/life/history/2013/11/nazi_anatomy_history_the_origins_of_conservatives_anti_abortion_claims_that.html?via=gdpr-consent) e [aqui](https://en.wikipedia.org/wiki/Hermann_Stieve)).
Assim se percebe a ordem dos eventos: há um autor (Fred E. Mecklenburg) que desenvolve um artigo conhecido e muito usado internacionalmente com base nos artigos mundialmente aceites de um médico alemão (Hermann Stieve), onde extrapola as conclusões para determinar o seu viés antiaborto nos seus artigos.
E AAC refere esse autor, 12 anos mais tarde, num artigo onde menciona, entre outras coisas, “Como decorre do exposto, os casos de gravidez proveniente de violação são muito raros.” (p. 577).
Ele não refere que as mulheres não engravidam como consequência de uma violação e refere a probabilidade de um acto sexual conduzir a uma gravidez é muito baixa (nota 101, que nem é mencionada na carta da APMJ; aliás a carta da APMJ menciona somente as notas onde AAC refere Fred E. Mecklenburg, mas a APMJ não refere todos os outros autores, estudos e dados científicos que comprovam e servem de base para o artigo de AAC nem Pedro Pulido Adragão, que também foi referenciado muitas vezes, o que é bastante curioso).
Assim sendo é fácil perceber que AAC se baseou em dados à data do artigo presumivelmente verdadeiros mas que já em 2003 se comprovava não serem sustentáveis (ver [aqui](https://link.springer.com/article/10.1007/s12110-003-1014-0)). Diria até que pode ter sido enganado pelo viés do autor Fred E. Mecklenburg? Não sei e como quase 40 anos depois já passaram e AAC ainda não se redatou nem reforçou qualquer comentário em relação a essa situação, fica dificil perceber o seu ponto de vista atual.
– Em relação ao b), já está mais do que provado que não tem fundamento científico atual. Contudo o artigo de AAC refere outras situações, não só a violação resultante em gravidez e refere estudos, outro autores e dados.
– Em relação ao c) é reprovável se fosse dito exactamente como a APMJ e a FC referem. Mas não encontrei nada que assim o justifique (e de notar que os dados médicos obtidos durante a 2ª GM pelos médicos alemães, mesmo os nazis – e não eram poucos – são válidos). Ainda assim estou a terminar de estudar todo o artigo do AAC para determinar se as palavras exactas aparecem no mesmo.
**Conclusão**
Há muito viés nestes artigos, o que não ajuda em nada. Também não conheço o senhor em causa para saber qual a sua opinião actual e porque não comentou nada desde que se comprovou que este ponto em particular do seu artigo é falso, à luz dos dados científicos atuais.
E para nós, cidadãos: cuidado com o que dizem e aceitamos como sendo verdades absolutas. Mesmo que seja um artigo cientifico, é sempre necessário pensar que pode ser uma verdade hoje em dia e aceitável nesta sociedade, mas com mais dados epiricos pode ser reprovável e inconclusivo no futuro. Ou pior, pode ser um artigo cheio de meias verdades e dados falsos – já não seria a primeira vez que tal acontecia.
PS: demorei mais tempo a escrever este texto do que encontrar os dados que referi aqui. O que também é curioso perceber se quem anuncia a verdade num jornal se está mesmo interessado em procurá-la ou não.