
Boas malta. Ontem estive a ver o [podcast da bumba na fofinha com o Valter Hugo Mãe](https://www.youtube.com/watch?v=fRykIO5CNws) e ele tocou brevemente [na discriminação que foi vítima por ser retornado](https://youtu.be/fRykIO5CNws?t=2600) sendo que tenho 36 toda essa realidade passou-me um bocado ao lado. Sei que houve esse problema e houve muita tensão mas, sinceramente não sei bem o que se passou nem porquê.
Alguém me pode explicar e/ou indicar alguns recursos fixes (artigos ou documentários) sobre os retornados, toda a problemática que se gerou e o porquê de serem alvo de tanta discriminação?
PS: o episódio foi muito fixe por isso se gostarem do autor recomendo. Por muita merda que haja de youtubers Portugueses acho que temos vários podcasts muito bons para compensar…
**EDIT:** Acrescentei os links relevantes porque fiz o post original no telemóvel e acho que merece a publicidade.
8 comments
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/retornados/
https://www.rtp.pt/programa/tv/p2918
https://ensina.rtp.pt/artigo/quem-eram-os-retornados/
tb tens “retornado da troika” – tb é interessante
https://www.rtp.pt/programa/tv/p33849/e37
Admira-me teres 36 anos e ter-te “passado ao lado”
Vou ali fazer pipocas, alguém quer?
Um tio avô meu era polícia em Moçambique, ele a mulher e os filhos vieram praticamente sem nada para Portugal (esse meu tio avô chegou a combater na Índia), ele ainda trouxe dinheiro escondido nos canos das armas que tinha, mas não lhe valeu de nada, porque não faziam o cambio dessas notas, teve de recomeçar do zero, felizmente conseguiu, mas muita gente não teve essa sorte. De vez em quando aparecem reportagens na tv e nos jornais sobre esse tema, aliás, foi assim que descobri que ainda há pessoas a viver na mesma pensão desde que vieram para Portugal, ou de como muitos hoteis de luxo serviram durante 2-3 anos de refúgio para muitos retornados.
Também vi o episódio de ontem, adorei simplesmente. Ele é super bem humorado, tenho pena é de ele não ter contado a história dos cravos nas mãos.
Foi complicado para muita gente, a mãe da minha esposa veio de lá, eram na altura pessoas com posses ( donos de grande terrenos com milhares de cabeça de gado) chegaram cá com uma mão a frente da outra, sem absolutamente nada.
Tentaram ficar lá até ao fim e quando decidiram fugir, foi literalmente entrar no carro com a roupa no corpo e fugir, um tio da minha esposa (na altura ainda um rapaz) ainda foi alvejado antes de entrar no carro! E estamos a falar de pessoas mulatas, nem sequer eram o típico branco/colono lá do sítio!!
O carro andou até ficarem sem combustível e depois foram a pé até a fronteira com a África do Sul!
Chegaram cá foram para uma pensão mas eram sempre olhados de lado (eram retornados e mulatos na sociedade portuguesa da década 70 não havia muito pior).
Decidiram sair dos locais onde estavam os retornados para ver se perdiam essa “fama” e lá conseguiram sobreviver, mesmo para a terra por onde acabaram por acentar eram os únicos mulatos/negros por isso foram olhados de lado ainda durante muito tempo (+ 10 anos)!
Agora o avô já faleceu, mas quando era vivo nas celebrações normais ( Natal, páscoa, etc) a conversa acabava sempre em Angola, na vida que tinham e no que lá deixaram…
A minha mãe é retornada e passou mal quando voltou. Ela tinha 15 ou 16 anos quando voltou, e perdeu um ano de escolaridade presencial (foi a chamada tele escola), teve que crescer relativamente ràpido; a minha avó andava feita barata tonta à procura de casa (como tantos outros) e só se safou com a ajuda de outros retornados; chegaram até a ficar hospedados numa pensão que servia de ponto de prostituição; contavam os tostões até a comer e passaram frio inicialmente (voltaram em Novembro de Maputo, não tinham casacos próprios). Levou com bocas, como branca de segunda algumas vezes.
Dito isto, a minha mãe não ressente os países africanos por quererem a independência mas ressente como a independência foi às 3 pancadas (e cheia de sinais contraditórios, diziam para as pessoas ficarem enquanto os porta-vozes faziam as malas) e entregue à Frelimo (com medidas como obrigar todos os adoslencentes a fazer serviço cívico mas na prática eram só os brancos, fazendo tarefas como limpar casas de banho ou no caso dela ajudar num hospital, incluindo nas autopsias).
O meu avô por outro lado, ficou meio saudosista, dizia que Moçambique ia ser um segundo Brasil e odiava o Mário Soares com Paixão (e considerava a queda do Apartheid a maior tragédia do Sec.XX). Nao o posso censurar tanto quanto isso, ele nasceu lá, bem como o pai dele, coitado queria viver na sua terra (não que concordasse com o racismo mas percebo como formou a sua opiniao).
Vieram uns 600000 retornados há muitas historias semelhantes à da minha familia.
A minha mãe fazia parte dos retornados e não teve de todo uma vida nada fácil, tanto ela como os meus avós e os meus tios. Para além de passarem a ter tudo (os meus avós eram donos de uma pequena mercearia e uma espécie de residencial e viviam bastante bem) acabaram com nada..
Quando a guerra civil começou, foram obrigados a saírem de Angola o mais depressa possível e ainda chegaram a esconder o meu tio para que ele não fosse raptado e obrigado a tornar-se numa criança soldado.
O meu avô ficou por Angola para tratar de assuntos pendentes e chegou a ser preso, mas devido à influência que na altura ainda tinha conseguiu ser libertado.
Vieram enfiados num barco de grande porte sem grandes condições e quando cá chegaram tinham-lhes roubado os poucos pertences que conseguiram trazer, pois pelo que a minha avó me explicou não havia qualquer tipo de controlo, enfiavam as coisas todas misturadas umas com as outras e era só chegar e levar.
Depois disso a minha avó e os meus tios foram viver com uma irmã da minha avó que não tinha de todo condições para os receber. Foi muito complicado para ela arranjar emprego, e pouco dinheiro que conseguia era através da costura. Os meus tios e a minha mãe sofriam imenso bullying por serem considerados retornados.
Se bem me lembro e pelo que entendi da minha mãe acho que na altura não tiverem qualquer tipo de ajuda do governo português, penso que só muito mais tarde essa ajuda surgiu. Mas em relação a isso posso estar enganado pois isto já são histórias contadas há muitos anos.
Muitos chegaram a Portugal com pouco ou nada e tiveram que refazer a vida, sendo muitas vezes tratados como portugueses de segunda. Sinceramente custa-me a perceber o ódio que se tinha pelos retornados.