Esta história dos lucros da Galp fez-me pensar em algo que eu acho que merecia uma discussão séria na sociedade e queria ouvir o vosso ponto de vista.

A minha tese é que uma sociedade baseada em capitalismo tal como o conhecemos não é sustentável a longo prazo e passo a explicar mais abaixo (juro que não sou das teorias da conspiração).

Nos mercados atuais existe uma procura de lucros cada vez maior de ano para ano. Como sabemos pelas leis da física, nada pode crescer infinitamente porque a energia é finita, o que penso que levará à ruína da nossa sociedade e um apocalipse económico e humanitário, sendo notável já há algum tempo em alguns países mais pobres. Este domínio da valorização dos lucros tem impacto não só o custo de vida, mas também em outras áreas como os media e o controlo de informação. Como já todos sentimos, temos combustíveis mais caros, casas mais caras, alimentação mais cara e cada vez mais pessoas no planeta a tentar consumir o que resta.

Este planeta é o único que podemos explorar e é um sistema fechado, isto é, nós não importamos riqueza do espaço (só energia, mas vamos desprezar e considerar que não produz riqueza ao mesmo ritmo que consumimos). Tudo o que alguma vez teremos será produzido com o que extraímos de recursos até que haja uma forma de explorar recursos de outros planetas, o que ainda poderá levar imensos anos a acontecer. Por isso temos que gerir-nos com o que temos e ser sustentáveis, sempre com a consciência que os recursos são finitos. Aumentar lucros de ano para ano não é sustentável e até chega a ser artificial, porque muitas vezes geraste virtualmente pouco e a única coisa que aconteceu foi injeção de capital de investidores e extração de riqueza através do aumento do preço do que estás a vender ou a criar. O cidadão comum não está muito mais rico do que eram há 10/15 anos, mas as grandes empresas ficaram muito mais ricas e com lucros absurdos o que levou a que 0.01% da população aumentasse as suas fortunas de forma dantesca (CEOs, CTO, CFOs, etc). Tudo isto num espaço de 20 anos.

Dito isto, é óbvio que dinheiro está a fluir só para um lado. O fluxo não é unilateral porque temos regalias e benefícios que não tínhamos antes, mas o balanço deste fluxo tem apenas um sentido e nunca foi alterado. Uma empresa quando começa a ser bem sucedida, normalmente é engolida por outra maior, e assim continua.

Acredito que estamos a caminhar para uma situação de grande instabilidade e não vejo ninguém a parar este comboio ou a falar sobre isto de forma séria. Aliás, minto, porque há uns dias o António Guterres meteu [isto em cima da mesa](https://observador.pt/2022/05/26/guterres-diz-que-fome-acabara-ate-2030-se-pessoas-forem-prioridade-face-ao-lucro/). Mas no contexto geral, não interessa falar sobre isto, obviamente.

O que acham sobre isto?

32 comments
  1. Acho uma parvoíce.

    Lá por a procura pelo lucro ser “infinita” isso não viola leis da física nem conduz ao apocalipse. Procurar não é encontrar. E é uma tendência natural, dada uma população, haver uma acumulação de riqueza ao longo do tempo: https://www.scientificamerican.com/article/is-inequality-inevitable/
    Podes contrariar isso com mais ou menos tirania, mas estás a batalhar contra a natureza e direitos humanos.
    Claro que o mundo não é finito, e ser habitado por 10 mil milhões é diferente de apenas 1, ser ou não capitalismo não nos vai salvar.

  2. “lucros da Galp”

    Só o governo sabe porque deixa esse monopólio continuar.

    Poderia implementar políticas para atrair mais empresas para o nosso mercado, de modo a haver concorrência, e os preços baixarem.

  3. Concordo, mas pode continuar a existir lucro.
    Mas tem de se mudar os modelos de negócio, não se pode continuar a produzir para vender, ir parar ao lixo e comprar novamente.
    Pode-se produzir com qualidade e vender serviços de reparação, fabricar peças sobressalentes e usar mais material reciclado.
    E hao.de haver mais coisas que se possam fazer.

  4. A galp não é controlada por capitalistas e o mesmo é verdade para todas as grandes empresas.

    A economia moderna é basicamente controlada pela a classe intelectual/ burocrática. Tudo gente que teria passado pelo seminário a uns séculos atrás.

  5. Mentalidade do último fecha a porta, sim o sistema económico está-nos a levar à nossa extinção a passo acelerado e já estamos a sofrer várias consequências. Caberá a alguém resolver e sofrer a herança, se é que é possível retornar ao normal

  6. >Este planeta é o único que podemos explorar e é um sistema fechado, istoé, nós não importamos riqueza do espaço (só energia, mas vamosdesprezar e considerar que não produz riqueza ao mesmo ritmo queconsumimos).

    Eu não sei quanto a ti, mas no planeta onde moro tenho um reactor a fusão gigante a bombardear o planeta com energia a tempo inteiro (vá, só vai durar mais uns 4-5 mil milhões de anos) e [deita no planeta **por hora** mais energia do que toda a que a humanidade consome num ano.](https://news.mit.edu/2011/energy-scale-part3-1026)

  7. > Como sabemos pelas leis da física, nada pode crescer infinitamente porque a energia é finita

    Economia não é física. Não é soma nula.

    Parei de ler aqui. Vai estudar OP.

  8. Capitalismo =/= Monopólios

    Porque raio é que alguém abre uma empresa se não for para obter o maior lucro possível?

    Mais do que se andar a discutir o que cada um tem no meio nas pernas, se calhar era mais importante falar de conceitos básicos de economia na disciplina de cidadania.

  9. Fazes assim, cada empresa caracteriza-se aquando da sua formação se é de cariz socialmente responsável ou não. As que forem, terão de apresentar um orçamento anual onde indicam o lucro esperado para esse ano. Se for até X, tem uma taxa de IRC reduzida. Aquando do apuramento dos resultados anuais, se estes forem superiores a X, terão de distribuir a diferença por acções sociais, aumentos salariais (não bônus) ou devolução no valor da fatura aos clientes (serviços). Caso não respeitem, levam multa e perdem o estatuto.

    As que não se enquadrarem e quiserem procurar o lucro infinito, tem mais impostos.

  10. A razão pela qual os salários dos trabalhadores não acompanham o aumento da produtividade não é pelo aumento dos lucros do capital mas sim pelo aumento das rendas dos monopolistas/rentistas.

  11. 1. Define “Lucros absurdos”. E vê ponto 5.
    2. Comprova-me que aumento de lucro é função simples de recursos consumidos, i.e., demonstra que eficiência é nula. Está subjacente supra.
    3. “Nas leis da física nada pode crescer exponencialmente”…. ora bem, nas leis da física, diz-se que “na Natureza, nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma”. Também recursos.
    4. “Extração de riqueza pelo aumento do preço” – erm… não sei de curso és mas não parece ser de Economia. Aconselho-te a estudares inflação e lei da utilidade.
    5. As empresas estão mais ricas… ora, não digo que sim nem que não. Mas não sei em que te baseias para dizer que sim. Se é puramente baseado em preços de venda, nota que tiveste inflação negativa nos últimos anos. Nota que a última década foi de taxas de juro negativas (abnormalidade).

    A única coisa que li que faz sentido é existirem disparidades na distribuição de rendimento.

    Terias a meu ver uma melhor tese se falasses das implicações disso. Existem bom material do Ray Dalio sobre tal.

  12. Olha, não sei se é útil mas gostei imenso de ouvir falar sobre “doughnut economics” que pretende responder essa questão tb de uma tipa chamada Kate Raworth
    (Your undivided attention tb é um podcast interessante, imo)

    Check out this Podcast: A Renegade Solution to Extractive Economics — with Kate Raworth https://player.fm/1BFgNuU

  13. Ok. Define longo prazo.

    100 anos? Então estás errado, já se aguentou mais que isso. O capitalismo não surgiu nos anos 80.

    1000 anos? 10.000 anos? Quantos impérios pré-capitalismo cairam em espaços de tempo dessa magnitude.

    Amigo – NADA é sustentável a “longo prazo”, dependendo de como o definas. A espécie humana não é “sustentável a longo prazo”. O universo não é “sustentável a longo prazo”.

  14. >Nos mercados atuais existe uma procura de lucros cada vez maior de ano para ano. Como sabemos pelas leis da física, nada pode crescer infinitamente porque a energia é finita, o que penso que levará à ruína da nossa sociedade e um apocalipse económico e humanitário

    ​

    1) Crescimento económico não depende da energia ser ou não finita, já que crescimento económico pode significar muita coisa e expressar-se em muitas frentes. No futuro estaremos a crescer de forma diferente da de agora, tal como o que conduz o crescimento actual é diferente do que conduzia há 100 anos.

    2) Não há qualquer evidência de que energia seja finita. Certas formas de energia são finitas, mas há muitas possíveis fontes que nem por isso.

    3) Deixar de crescer não implica ficar arruinado.

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    Logo para começar a tua tesa peca por múltiplas falácias.

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    >Este domínio da valorização dos lucros tem impacto não só o custo de vida, mas também em outras áreas como os media e o controlo de informação. Como já todos sentimos, temos combustíveis mais caros, casas mais caras, alimentação mais cara e cada vez mais pessoas no planeta a tentar consumir o que resta.

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    Não há qualquer evidência se não houvesse busca pelos lucros as casas ou o que quer que seja seriam mais baratos. Aliás, se não existe a expectativa do lucro, quem é que vai trabalhar, particularmente a um ritmo aceitável, para produzir o que quer que seja? Tu sabes que já vimos como sociedades funcionam sem capitalismo, certo? Não é mistério nenhum.

  15. O problema disto é que podes dizer que nada é sustentável a longo prazo. Achas que a democracia é sustentável a longo prazo? Mas existe alguma solução melhor? O capitalismo também é o pior sistema económico, tirando todos os outros

  16. Acho que é uma dissertação muito linda e tal, mas a realidade não condiz com o teu raciocínio. Os países que poupam mais recursos são altamente ricos e capitalistas. E não, não venhas com a treta de os países nórdicos não serem capitalistas.

    https://worldpopulationreview.com/country-rankings/most-environmentally-friendly-countries

    Inevitavelmente, o próprio consumo de produtos baseados no petróleo irá ceder à destruição criativa, e quem vai fazer isso acontecer vai ser o próprio capitalismo.

  17. Aconselho o podcast “Our foundations”, tem alguns episodios sobre isto e sobre os “ciclos” da sociedade.

  18. Acho que tens várias falácias no raciocínio, mas compreendo-o perfeitamente, também já pensei assim.

    Efectivamente, um sistema baseado no crescimento é impossível manter para sempre, como bem dizes é incompatível com as leis da física. A questão é que ainda estamos muito longe do limite. Roças no tema, ao falar da energia que vem do espaço fazendo com que o nosso planeta não seja um sistema fechado, mas desconsideras esse facto inexplicavelmente. A economia é na sua essência uma função da energia que usamos e do trabalho (labour) coletivo que fazemos.

    A energia do nosso “sistema fechado” vem do sol (e estamos muito muito longe de utilizar toda a que nos chega), e os recursos físicos (reduzidos na sua essência aos elementos) são maioritariamente reutilizáveis/recicláveis (acho que só se perdem mesmo quando decaem – radioactividade). Um problema da reciclagem prende-se com a falta de vantagem económica ao fazê-la; podiam entrar incentivos económicos/políticos mais fortes aqui, e poderemos entrar num steady-state de uso de recursos que não implique necessidade de mais. Mas estamos tão tão longe disso…como exemplo já se falava que o petróleo ia acabar prai desde os anos 80 ou antes mas afinal não…e esse é um recurso particularmente difícil de produzir de novo (imagina usar energia fotovoltaica para sintetizar petróleo a partir de CO2 e H2O, não é impossível, só energeticamente absurdo…)

    Ainda na energia, estamos próximo de uma revolução impressionante: com o aumento das renováveis e os avanços tecnológicos, o preço da energia vai baixar brutalmente, de forma que se pode tornar tão abundante que não saberemos o que lhe fazer – claro que nunca chega a esse ponto, havendo energia vai haver coisas para fazer com ela (dessalinizacao para resolver o problema da água é uma delas, mas surgirão muitas outras ideias). Aconselho: relatórios do think tank RethinkX, e há uns vídeos no YouTube de apresentações do Tony Seba.

    A capacidade de trabalho depende da quantidade de pessoas (quantas mais melhor, com uma importante condição: em média ao longo da vida cada um tem que contribuir mais para a sociedade do que aquilo que consome) e da ingenuidade humana, que tal como a energia podemos considerar praticamente inesgotável, o que com os incentivos certos (o tão malfadado lucro) faz com que se atinjam níveis cada vez melhores de eficiência do uso de energia e recursos – sim, em teoria também esta eficiência tem limites físicos, mas também estamos longe de os atingir – os países mais desenvolvidos têm diminuído bastante o uso de recursos e energia per capita ao longo dos anos.

    E como bem disseste também, existem outros planetas que podemos (e devemos!) explorar e fazer uso dos seus recursos – o Jeff Bezos fala sobre isto numa apresentação da Blue Origin – sim, estamos a tempo de o fazer antes de atingir os limites de capacidade da Terra e mesmo mantendo crescimento populacional.

    Aconselho o livro Factfulness, em que percebemos que podemos estar “mal, mas a melhorar” em relação ao que estávamos antes e o sistema económico que temos (mesmo apesar de todas as falhas que tem e todo o potencial de melhoria que pode (e deve!) ser feito) ser o melhor de que dispomos (pode ser que apareça algo melhor, mas é como a democracia, é o melhor que temos) para continuamente melhorar a qualidade de vida de todos.

    Desculpa o texto enorme mas apeteceu-me escrever. O tema é muito interessante.

    Tentei fazer um TL;DR mas não consegui, se alguém tiver coragem, força!

  19. Vou tentar explicar o meu ponto de vista sem parecer um schizo. Aqui vai.

    A natureza do ser humano é nunca estar satisfeito. Ele vai sempre tentar arranjar soluções para problemas existentes que o incomodem e querer ter uma fatia maior do que o outro.

    Agora imagina que a civilização é um objeto que possa estar em 2 estados (como em física) para lidar com essa natureza: Inércia ou Movimento.

    Quando está em inércia, as tentações do ser-humano são reprimidas e amaldiçoadas pelo bem coletivo. Evolução tecnológica é mantida a um mínimo. Qualidade de vida é um bocadinho pior. Como é que uma civilização consegue alcançar este estado? Religião. É a única maneira. Instalar um medo irracional na mente das pessoas como “sofrer depois da morte”, de tal modo a que se convençam a castrar-se a si mesmas.

    Quando está em movimento, significa que a civilização cedeu à tentação. Existe avanço tecnológico considerável. Com esse avanço são encontradas soluções para problemas de menor escala, no entanto continuam sempre a aparecer outros de maior escala. A pizza continua a crescer e a crescer enquanto ainda existe massa. As pessoas querem mais e mais. O que é que acontece quando a pizza não consegue acompanhar a gula? É impossível travar o desejo imparável das pessoas, afinal de contas esse foi o rumo que escolheram desde o ínicio e que toda a máquina social depende. Não dá para dar scale down, nem ninguém se sujeitaria a isso voluntariamente. Só há um destino final. Colapso total com guerras.

    Tldr: A civilização em movimento não é sustentável a longo termo e está destinada ao colapso total devido à parte da natureza humana que decidiram aceitar e dar embrace. A civilização estagnante é um bocadinho pior para todos, mas é sustentável e dura milhões de anos se for preciso. E acho que já estou a perceber um bocadinho mais a bíblia embora nunca vá à missa

  20. Texto repleto de falácias.

    O que é finito são os recursos naturais, não o dinheiro. O crescimento económico mede-se em dinheiro. Um software pode valer muito mais que uma tonelada de carvão.

    Mesmo se considerares a distinção entre dinheiro e valor (o valor do dinheiro pode descer, embora o crescimento económico real tenha isso em conta), tal não implica que haja extração de recurso natural. Podes ter valor em ativos intangíveis, como patentes, por exemplo. Ou obras de arte, ou software, que têm imenso valor com poucos recursos, visto que o recurso em causa mais usado foi o intelecto!

    O ponto é que o valor das coisas não correlaciona obrigatoriamente com extração de recursos naturais, porque há várias formas de gerar valor, sendo aliás o recurso natural o que menos gera.

    Como dizia Sowell, se percebes de física, não comentes sobre economia sem antes estudá-la.

  21. >Como sabemos pelas leis da física, nada pode crescer infinitamente porque a energia é finita, o que penso que levará à ruína da nossasociedade e um apocalipse económico e humanitário, sendo notável já háalgum tempo em alguns países mais pobres.

    Isto é possivelmente a pior analogia que podes usar, economia é uma ciência social e não é zero sum, não sei se um comentador da CMTV se safava com essa. Podes tentar argumentar que estamos a crescer demasiado rápido comparativamente com a tecnologia necessária suportar esse crescimento de maneira sustentável (ainda usamos meios de extração e utilização de recursos muito rudimentares), mas esse é um argumento com maior nuance.

    > O cidadão comum não está muito mais rico do que eram há 10/15 anos

    Não? Com a exceção do médio oriente e áfica do norte as taxas de pobreza no mundo estão muito menores, sim a classe média em paises ricos tem estado estagnada nos ultimos anos, mas nós não somos os unicos intervenientes neste mundo.
    Se olharmos a longo termo, há pouco mais de um século atrás quase toda a população mundial vivia com menos de metade do que hoje é o limiar de pobreza (ajustado á inflação) por isso não. O dinheiro não está a fluir só para um lado, podes argumentar que outros sistemas económicos teriam feito ainda melhor trabalho, secalhar, mas de novo isso seria um argumento completamente diferente.

  22. OP, saúdo-te por fazeres frente aos liberais daqui do sub que nunca passaram fome na vida e que se acham todos futuros bilionários. Tens as ideias no sítio, que já é de louvar.

    Sinceramente, eu acho que o sistema atual não só continuará a aumentar a desigualdade, como o fará e faz de maneira exponencial. Atualmente, metade da riqueza do mundo está nas mãos de 1%. Daqui a 20 anos, será 0,01% e só acabará quando chegarmos ao 0,000001%.

    Nessa altura, milhões terão morrido com as alterações climáticas e biliões terão morrido à fome ou sem água e ainda teremos pessoas aqui (e pior, 2 partidos na assembleia) a proteger essas mesmas empresas (que no futuro serão ainda mais consolidadas) e os seus lucros exponenciais.

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