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[Navio Multifunções segundo o Expresso](https://preview.redd.it/f554twmq8vm91.png?width=860&format=png&auto=webp&s=cf1f871af95e74b8398a593db87068f0b3d8e397)
Já devem ter ouvido falar do novo navio multifunções que a Marinha quer desenhar e construir. Além dos [vários comunicados](https://www.marinha.pt/pt/media-center/Noticias/Paginas/O-futuro-prepara-se-hoje.aspx) [de imprensa](https://www.facebook.com/photo/?fbid=451789126978514&set=a.323033749854053) sobre o assunto, este projeto do Almirante Gouveia e Melo já mereceu [uma entrevista do mesmo à TSF](https://www.tsf.pt/portugal/politica/um-navio-que-pode-ser-o-futuro-da-marinha-portuguesa-14874739.html) e também [um artigo do expresso](https://i.postimg.cc/FHMfMTf1/Far8m-7-Xo-AAy-Ty1.jpg).
Ora eu estou a escrever isto porque sinto que este projeto está muito mal explicado aos portugueses, ainda pior acompanhado pela comunicação social, e tudo isto tem potencial para correr muito mal e acabar por ter consequências mais sérias para a Marinha.
**O que é o Navio Multifunções?**
Começando pelos inícios: o que é este navio? Vamos ver a comunicação da Marinha:
* Diz a entrevista de 20 de maio que “*este navio polivalente, é diferente de tudo o que a Marinha tem no presente, ou teve no passado*.” Ok, mas como? “*\[o navio\] terá componentes de resposta a emergências civis e ambientais, vigilância marítima, e investigação científica”.* Mas também *”um navio “porta-drones”. Vai poder lançar esquadras de aparelhos não tripulados, tanto aéreos como submersíveis”*. Finalmente, *”\[…\] uma das características deste projeto, é a possibilidade de ser alterado de uma semana para o outro, em função da missão que é pedida.”*
* Diz o comunicado de imprensa da Marinha de 27 de maio que *”será um navio polivalente, inovador, capaz de atuar no mar à superfície, à subsuperfície e no ar, através do lançamento de drones e assim transformar a Defesa de Portugal no e através do mar”*, e que “*será a plataforma do futuro, da Marinha ao serviço de Portugal.”*
* Diz o artigo do Expresso de dia 21 de agosto que *”este é um navio revolucionário. O próprio desenho e conceito é de um navio revolucionário*”, o que diz pouco, mas também que será um “*navio modelar equipado com drones aéreos, de superfície e subaquáticos, que possam transportar sensores e armamento, de modo a desempenhar tanto missões militares como civis e cientificas*”. É também descrito como “*porta-drones*”. Ficamos a saber alguns dados mais concretos como “*deverá ter as dimensões de uma fragata robusta e pesar cerca de 5 mil toneladas (as fragatas portuguesas têm 3,3 mil toneladas) e garantir um alcance muito superior*”, e que será capaz de “*transportar mais de 50 drones armados, capazes de voar 24h a uma média de 150 km/h*”. Mas não só. “*\[o navio\] tem a capacidade de vigiar grandes zonas, para fiscalizar as pescas, a poluição, e todo o tipo de atividades ilícitas*”, dizendo-se até que “*através da ação dos drones, o navio torna-se invisível para potenciais infratores*” (!!). Como se isto não fosse suficiente, “*terá capacidade para fazer recolha de amostras \[e\] estudos espectrais da superfície do mar*”, “*terá salas para cientistas, supercomputadores, redes estruturadas, e todo o tipo de guinchos para meter e tirar coisas da água*”. Mas ainda “*pode funcionar como navio polivalente logístico e navio hospital e de transporte, em caso de emergência*”, capaz de “*transportar acima de 300 pessoas, além da guarnição, que será na ordem dos 60 militares, muito menos do que uma fragata (\~150)”.* Em termos de preço, nota-se os 94,5 milhões que saíram no concurso, mais 30 milhões “*para desenvolver os primeiros robots*” (sic) e informa-se que “*custa um quarto de uma fragata*”.
* Finalmente, a 4 de setembro a Marinha anuncia que o novo navio, “*tecnologicamente inovador e disruptivo*”, “*não tem requisitos militares e não é armad*o.” e “*todos os seus drones não possuem armamento*”. Isto porque “*As suas principais funções são a monitorização ambiental, \[…\] combate à poluição marítima, a fiscalização da pesca, a preservação dos recursos, o desenvolvimento do conhecimento e da investigação no âmbito hidrográfico e científico*”, mas também “*servirá para o eventual transporte e evacuação de cidadãos, em caso de necessidade*” e ainda “*irá permitir testar soluções tecnológicas na área robotizada, contribuindo para o desenvolvimento de tecnologia nacional*”.
Portanto, e para recapitular, estamos perante um Navio Porta-Drones Hidrográfico Hospital Polivalente Logístico com drones civis e militares mas desarmados que o tornam invisível, com menos do dobro do tamanho de uma fragata mas um quarto do preço, tudo isto desenvolvido, desenhado e construído in-house pela Marinha e/ou por empresas portuguesas.
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[Navio Multifunções, segundo o site da Marinha](https://preview.redd.it/fvj0a7eu8vm91.jpg?width=1379&format=pjpg&auto=webp&s=654dad20e99e66db495687825730590023458ecb)
**Então e qual é o problema?**
Boa pergunta. Vou tentar resumir a três:
O primeiro está na dispersão de funções que estão a ser anunciadas, nenhuma das quais particularmente preponderante. Que problema concreto é que se pretende colmatar com este projeto? A antiguidade dos navios hidrográficos da marinha? Ok, mas isso não precisa de um porta-drones e tudo o mais. É a fiscalização da pesca? Combate ao tráfico de droga? Completamente desproporcional. É o transporte de homens e material? As plataformas para isso são tipicamente dedicadas, e bem mais caras. Testar drones que ainda não existem na Marinha? Isso faz-se em terra, e aliás até dá jeito saber que drones se tem, e ter experiência com eles, antes de começar a construir plataformas para os mesmos. Combate de superfície, luta anti-submarina, defesa anti-aérea, isso claramente não é. Então qual é mesmo a missão primária? No dia em que entrar ao serviço, vai fazer o quê exatamente?
O segundo está na escala e custos. Não por serem muito elevados, por não baterem certo com todas as capacidades anunciadas. O projeto de um Navio Polivalente Logístico, “só” para transportar tropas, equipamentos, e helicópteros, estava orçamentado há largos anos em [230 milhões](https://pt.wikipedia.org/wiki/Navio_Polivalente_Log%C3%ADstico), para um navio com \~10.500 toneladas. Espanha construiu uma classe destes NPLs com 13.000 toneladas por 130 milhões, mas foi literalmente no século passado. Navios hidrográficos dedicados também existem, obviamente. A Noruega lançou o ano passado um que custou [500 milhões](https://www.science.org/content/article/norwegian-billionaire-funds-deluxe-deep-ocean-research-ship), mas também existem mais modestos e bons como o francês “Pourquoi Pas?” que só custou [66 milhões](https://en.wikipedia.org/wiki/French_ship_Pourquoi_Pas%3F_(2005))(em 2004) ou mesmo os [14 milhões do “Mário Ruivo” do IPMA](https://www.publico.pt/2020/12/06/ciencia/noticia/navio-mario-ruivo-ir-atras-finalmente-carapau-pescada-1941664) que começou a operar em 2020. Porta-Drones é mais difícil comparar, mas os Turcos estão a terminar o [Anadolu](https://en.wikipedia.org/wiki/TCG_Anadolu), precisamente para operar os seus Bayraktar, e foi bicho para 27.000 toneladas e 500 milhões. A pergunta fica, se os navios dedicados para apenas uma das muitas capacidades do novo Navio Multifunções são maiores e mais caros, como é que a Marinha vai desenvolver, desenhar e construir um hibrido mais compacto por um fração do custo? Especialmente quando não tem experiência de desenho, construção ou sequer operação desses navios?
O terceiro, são os antecedentes. Os existentes e os que faltam. Os que faltam referi anteriormente: a Marinha está a propor-se fazer algo extremamente ambicioso, em tempo record, em áreas onde não tem experiência. Os existentes são os projectos +/- recentes da Marinha, especialmente os NPO 2000. O post já vai longo e não quero esticar muito, mas em resumo os NPO 2000 foram um projeto de patrulhas oceânicos que era suposto ser simples, para ser barato, e grande, para aguentar as condições do Atlântico Norte. São navios de \~1.900 toneladas e 50 milhões. Na altura em que foi lançada a sua construção, em 2002, também havia um programa de financiamento europeu para meios de controlo da pesca, e portanto o custo era suposto ser em grande parte suportado pela UE. O que aconteceu foi que a Marinha e os Estaleiros de Viana do Castelo se desentenderam de tal forma sobre o desenho e as valências do mesmo, já com os dois primeiros em construção, que acabaram por demorar quase 10 anos a ser entregues. Entretanto a UE percebeu que a conversa do controlo da pesca era só para conseguir o financiamento, e que na verdade a Marinha queria navios de guerra, pelo que fechou a torneira. Resultado, dois oito NPOs planeados inicialmente só se construíram os dois primeiros. Numa segunda iniciativa, lá se construíram mais dois, e em 2021 lá se anunciaram mais seis, se bem que aparentemente não vai passar do anuncio. Ou seja, não é a primeira vez que a Marinha anuncia um projeto financiado pela UE, com comunicação externa pouco clara, e uma ambição que se calhar não é capaz de atingir, só que desta vez não é um projeto simples e barato, é um projeto revolucionário e disruptivo e transformador e barato.
Se fosse para continuar também podíamos perguntar como é que se compatibiliza o uso de fundos de recuperação económica para adquirir equipamento militar ou civil para as Forças Armadas, ou como é que se convence Bruxelas que aquele concurso público não foi feito à medida do estaleiro preferido, especialmente quando se anda a apregoar que só vão beneficiar empresas portuguesas/em Portugal, o que vai contra as regras dos fundos europeus, mas nem vou entrar por aí.
**Então não se devia fazer?**
Não estou a dizer isso. 95 milhões pagos por Bruxelas para um navio hidrográfico novo de raiz mais 30 milhões para desenvolver drones? Fixe, buga nisso. Mas não é isso que a Marinha tem estado a anunciar, e a comunicação do projeto, com rampa à porta-aviões e desenhos com drones predator americanos, dá uma ideia completamente diferente. Seja o que for que a Marinha vai fazer, tem é de ser comunicado claramente ao público (que em última análise vai pagar se a UE entender que está a ser aldrabada). Normalmente poderíamos contar com o jornalismo para fazer perguntas, mas infelizmente, com se vê no artigo do expresso, há demasiado deslumbramento com drones que fazem navios invisíveis e pouca curiosidade ou capacidade de perguntar “mas isto é para que fim, mesmo? Mas como é que cabe tanta coisa em tão pouco espaço e tão barata?”.
**Mesmo que dê barraca, qual é o problema?**
Além do risco de derrapagem de custos e da UE vir exigir o dinheiro de volta, há o desvio de atenção e prioridade para as funções básicas essenciais da Marinha que atualmente estão em falta. Temos a maior ZEE Europeia (sem contar com ilhas distantes) mas apenas cinco fragatas com 30 anos em diferentes pontos de obsolescência. Andamos há 20 anos a tentar construir uns patrulhas oceânicos básicos, só conseguimos fazer quatro, [dois deles desarmados](https://www.dn.pt/poder/marinha-recebe-navio-novo-ainda-sem-canhoes-9614051.html). Um programa para adquirir três submarinos acabou por só resultar em dois. Andamos há 20 anos à procura de um Navio Polivalente Logístico a sério, e parece que simplesmente desistimos. Desativámos o nosso único navio reabastecedor [em 2020](https://en.wikipedia.org/wiki/NRP_B%C3%A9rrio_(A5210)), sem sequer existirem planos para adquirir ou construir outro. A Marinha só tem [cinco helicópteros](https://www.marinha.pt/pt/os_meios/helicopteros/Paginas/default.aspx), com 30 anos. E drones [são uma piada internacional](https://youtu.be/mlNeEvXO1Xk). São os 130 milhões financiados pela UE que impedem o investimento preciso para começar a resolver isto? Não, não são (enquanto forem mesmo pagos pela UE). Mas se a Marinha convence os portugueses de que tem um Porta-Drones revolucionário, é certo e sabido que qualquer conversa sobre investimentos de centenas de milhões vão ser imediatamente condenados, tornando ainda mais difícil a resolução dos problemas concretos e reais, mas por isso mesmo ainda mais disruptivos.
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[Navio Multifunções, primeiros modelos 3D, pelo site da Marinha](https://preview.redd.it/hxk3rvcy8vm91.jpg?width=1067&format=pjpg&auto=webp&s=5eb1f9b315e0b8171521cca4bee11fa583a025b9)
**Então o que queres que a gente faça?**
Estejam atentos, não se deixem levar por buzzwords que pertencem mais ao reino das star-ups do que à defesa nacional, exijam mais qualidade do jornalismo, e se tudo der para o torto, ou mesmo que corra tudo pelo melhor, não se esqueçam que continua a fazer falta investimento na Marinha (e não só). E, claro, se todas as promessas do projeto acabarem por se concretizar e isto for mesmo o nascimento de uma nova forma de projetar poder no mar, mais capaz e mais barata, lembrem-se que eu nunca duvidei do Senhor Almirante e fui sempre grande fã do Multifunções.
4 comments
Uma coisa sem pés nem cabeça para o Almirante se entreter e deixar de pensar concorrer a Presidente, não fosse fazer concorrência ao candidato do PS.
Uma coisa que ninguém explica é que se não construírem os navios contratualizados, que passaram dos ENVC para a WestSea (go figure), o estado terá de indemnizar a agora WestSea…
Espera, mas isto era mesmo para avançar? Sempre pensei que isto fosse apenas ideias futuristas atiradas para a mesa, projecto de investigação digamos assim. Eles querem mesmo, mesmo fazer isto?
Acho que este post tem o potencial de se tornar o guião para o próximo vídeo de um canal no Tube chamado Portugal Militar.
ja temos uma empresa a fazer bons drones de vigilancia a evertek, deviam era fazer uma parceria e armar esses drones, servem para vigilancia mas tambem podem atacar, principalmente quando os espanhois forem fazer picnics para as selvagens outra vez