Boas

Já há algum tempo que me parece relevante criar um post a falar sobre o que é viver NO INTERIOR do país.
E por interior refiro-me a tudo o que fica fora dos grandes centros urbanos, mesmo quando não muito longe do litoral.

E aquilo que acho mais importante desmistificar, é a noção de interior que me parece fazer parte do imaginário da maioria. Isto porque não existe UM interior, mas sim muitos. Com diferentes condições, acessos, gentes, tradições, climas, oportunidades e serviços.
E claro, pessoas diferentes têm preferências distintas, e experiências diversas.

No entanto uma boa parte dos comentários sobre o assunto batem na mesma percepção do interior como algo uniforme, e acredito que essa percepção vem de uma visão citadina e pacóvia do país.

Vivi em vários pontos do interior do país e fora dele, e apeteceu-me chatear-vos partilhando a minha experiência do que é viver onde vivo.

Estou numa vila (de nome, que isto é quase aldeia), no norte de Portugal.
Estou rodeado de natureza.

Faço trabalho remoto, e tenho fibra para fazê-lo, bem como boa recepção no telemóvel.

No geral as coisas são mais baratas, sobretudo se tiverem tempo e paciência para ir ao mercado. São comuns ofertas de fruta, legumes ou ovos por parte dos vizinhos. Tenho uma pequena horta, que me vai dando uns mimos ao palato.

A renda é baixa e a casa, grande, com quintal, sem vizinhos demasiado perto.

Bebo água de uma nascente natural, e a água canalizada tratada vem também de uma nascente local.

No sítio onde vivo tenho um pequeno posto de correios, para-farmácia, restaurantes, cafés, padaria, talho e mini mercado. Para compras maiores e serviços vou à Vila.

Não espero horas por nenhum serviço, a não ser que precise dele em Agosto, por entre as hordas de avecs.

Se preciso de uma consulta no centro de saúde, tenho-a em 2 dias máximo, quando não é no próprio dia.

Partes más, ou menos boas da coisa:

– A Vila fica a 20km.

– Alguns dos locais vêem-me ainda com alguma desconfiança ou preconceito, o que por vezes é chato ou inconveniente.
(Ainda assim a maioria são super simpáticos e prestáveis).

– Até encontrar o meu actual emprego fiz muita coisa diferente sempre num ritmo sazonal, completamente dependente do turismo.

– O hospital mais próximo fica a cerca de 30km, e é limitado. Num caso mais grave tenho outro num grande centro urbano a quase 60km.

– Mais longe dos amigos e família. Mais difícil de encontrar gente com quem partilhe gostos e interesses.

– A electricidade por vezes falha com temporal e trovoadas.

Há mais de certeza mas não me lembro agora.

No geral, sinto que tenho mais qualidade de vida, mais tempo, gastando menos dinheiro em detrimento de ter menos serviços por perto, menos oferta cultural e pouca presença de amigos e família. Opções…

Mas o que queria mesmo transmitir é que a mudança é uma escolha entre prioridades, e que pode não correr bem num sítio, mas ser espectacular 30km ao lado.

Neste sentido, para quem tiver vontade de se mudar, diria que o ideal será sempre pensar em dois ou três sítios distintos e experimentar uns meses, ou mesmo um ano num deles. Se não serve, siga para o próximo até se sentirem bem.

Ou não, se perceberem que o interior não é para vocês.

Edit: aparentemente alguns acham que a minha noção de “interior” está errada. Não sendo de todo o objectivo deste OP discutir esse conceito, usei-o desta forma porque, por exemplo, Coimbra está no Interior, mas é um grande centro urbano, que não se enquadra nesta perspectiva de êxodo urbano para uma maior qualidade de vida no mais pequeno.
No entanto, também não se enquadra no “rural”, pois por exemplo, Vila Nova de Cerveira está no litoral, mas não a diria nem rural nem urbana.

Encontrei esta definição [aqui](https://gerador.eu/o-que-define-a-interioridade/) donde transcrevo um excerto com o qual concordo, e que penso ser adequado para o contexto:

>O interior de Portugal, segundo os critérios oficiais, vai de Bragança à serra algarvia, inclui territórios raianos, mas também a quase totalidade da costa vicentina. De Serpa a Paredes de Coura, passando por Lamego e Vila do Bispo, bem no extremo sudoeste do território continental.

24 comments
  1. Bom post!

    Antes, vivias num grande centro urbano? O que te fez mudar para a aldeia?

    A longo prazo esse é o meu objetivo, ter uma casa na “aldeia” que me permita ter a minha própria horta e árvores de fruto.

  2. essa do beber água não percebi.

    aqui no meu inteiror é água do furo.. segundo as análises é ok mas é recomendável não a beber a médio – logo prazo. lavamos e isso com a água do furo..para beber vamos buscar à fonte (que foi modernizada e mostra as análises)

    nao falas da necessidade de ter carro. a 100% do tempo.

    essa do centro de saúde tbm não percebi…. onde estou só sei no início do mês como irá ser aquele mês.. e esquece lá internet e isso, a melhor maneira para marcar consulta é ir lá pessoalmente (até la qd eu usava Internet e tal, chegava ao dia, cancelavam a consulta)

    e olha atualmente estou à espera nos ctts (que passou de uma loja grandita para um quiosque).. tenho duas pessoas à minha frente e já passou +30min (parecem mais longos com os velhotes a queixarem a cada minuto que é lento e a dar risadas sobre o asunto…. não ajuda. e não ajuda qd consigo perceber q qem está ao balcão não percebe um corno d computadores)

    ah, facilmente andar d carro 10-15min..pode passar de vila 50 pessoas para cidade.

    e estou cansado das velhadas se queixarem que o médico, “jovem parece inexperiente”, no centro de saúde… para castigo não deviam ter ngm e cansa sempre o mesmo discurso (maioria das velhadas são domésticas…)

    não falas de qd tens filhos.. e eles terem que acordar 2h mais cedo da hora d inicio d aulas para apanharem o autocarro (a minha realidade é desde os 10 anos estar logo sozinho às 7h….)e ainda para crianças da zona

  3. > NO INTERIOR do país. E por interior refiro-me a tudo o que fica fora dos grandes centros urbanos, mesmo quando não muito longe do litoral.

    Então não estás a falar do interior. Diz antes regiões rurais ou subdesenvolvidas

  4. Como te entendo, principalmente pelo custo de vida. Cresci em Lisboa e já morei em boa parte dos distritos do país e a única coisa de que tenho saudades é do sistema de som do Lux mas mesmo que ainda lá morasse não metia lá mais os pés pelo ambiente nos dias que correm.

    No entanto o envelhecimento exagerado da população bem como a falta de diversidade na vivência de todos e relutância face à mudança são defeitos universais que me complicam seriamente com os nervos principalmente em dois aspectos: nível de expedição no desempenho de qualquer tarefa básica por parte de toda a gente (se eu estou à espera numa fila e estão a falar da vida com o cliente anterior vou levar isso como falta de respeito, tal como quando alguém conduz a metade da velocidade máxima e não facilita minimamente a ultrapassagem porque saber se está se quer um carro atrás não é preocupação de ninguém); a falta de actividade recreativa e contacto com gente de fora faz com que as pessoas se metam na vida dos outros de uma forma que simplesmente não se coaduna com a aversão que toda a gente tem a críticas e confronto (se me olham de cima a baixo como se fosse uma ave rara mas depois levam muito a mal que eu pergunte se querem um autógrafo fico confuso).

    Racismo e iliteracia são problemas sérios mas, pela experiência que tenho no litoral a norte de Lisboa, não de todo exclusivos do interior ou de zonas rurais. Depois para ter amigos é online e nas cidades grandes (os que ainda não emigraram) mas isso não me aflige.

  5. Sempre gostei do interior; mais calma e, principalmente para Norte, paisagens de cortar a respiração, aliadas a um custo de vida mais em conta e uma interacção social mais facilitada.

    Por exemplo, eu e a minha esposa somos psiconautas, e o interior Norte propícia locais deslumbrantes onde o verde se funde com o azul do céu, ribeiros de águas cristalinas, no geral uma Natureza ainda não totalmente “domada”. Locais perfeitos para usufruir da imensa palete de cores, aromas, sons e meditação que o Lsd nos proporciona.

    No entanto, para nós, há um “grande senão”; o viver longe do Mar, Mar esse que sempre acompanhámos de perto desde a nossa tenra infância.

    Para alguns pode não ter importância, mas para nós é um factor fundamental.

  6. Nem toda a gente tem possibilidade de trabalhar remotamente. O que torna inviável ter de fazer 90 (número a sorte) ou mais KM por dia só para ir e vir do trabalho para os benefícios que descreveste.

  7. Também mudei o meu estilo de vida recentemente. Sempre vivi em grandes centros urbanos mas agora vim para uma zona muito mais calma e não podia estar melhor. Estou no alto minho (portanto continuo no litoral) e tenho todas as vantagens que enumeraste e ainda mais. Também estou remoto e de outra forma era impossível abandonar o Porto.

    Das desvantagens que enumeras-te, não sinto nenhuma pois tenho uma Vila a 8min de carro e uma cidade (pequena mas é cidade) a 10min. Depois tenho Vigo a aproximadamente 25min, AE gratuita, onde tenho todos os serviços que necessito e as melhores praias que se pode pedir.

  8. Vivi no interior do país (Viseu, mais concretamente) até há cerca de um ano, altura em que me mudei para Lisboa. O principal motivo para fugir foi a falta de crescimento profissional, que nem eu, nem o meu namorado lá encontrávamos.

    Um ano depois, temos andado a pensar em ir embora de Lisboa, não porque não gostamos da cidade, mas porque o equilíbrio financeiro é totalmente diferente numa cidade mais pequena. Queríamos comprar casa, e aqui é impossível por menos de 250 ou 300 mil. Pagamos 750€ de renda, por isso juntar este valor de entrada demoraria mais do que pretendemos esperar. Nos arredores do Porto, compraríamos algo porreiro por 130/140.

    Para nós, em termos puramente racionais, acaba por não fazer sentido viver numa grande cidade. O meu namorado trabalha remotamente e eu também conseguiria fazê-lo, ou, no limite, trabalhar em regime híbrido no Porto. Não temos um círculo social gigante, não somos de sair muitas vezes e não temos família cá em baixo. Gostávamos de chegar a um patamar de estabilidade financeira que Lisboa não nos consegue dar.

    Pessoalmente, não voltaria para Viseu, porque lhe faltam algumas coisas importantes para nós:

    * Bons transportes e acessos (não tem comboio, não te safas sem um carro no dia-a-dia e não consegues andar a pé a não ser que vivas no centro);
    * É das cidades mais mortas que já vi. Parece que as pessoas só saem de casa para ir ao shopping e à Feira que acontece no verão, quando vêm os emigrantes;
    * A cultura é vista como parente pobre da política local. Qualquer esforço no sentido de dinamizar a cidade é censurada pela maioria das pessoas;
    * Acima de tudo, mentalidade. Aquela coisa de irmos na rua e as pessoas olharem para nós de alto a baixo? Nunca senti isso em Lisboa. As pessoas são super fechadas e acham que Viseu é o paraíso na Terra porque nunca conheceram mais nada (e condenam quem diz o contrário). Quando disse que me ia mudar para Lisboa, quer família, quer conhecidos falaram como se fosse para a Austrália: que não me ia adaptar e que Lisboa é uma confusão, que não trocavam Viseu por nada. Para mim, é um bocado este tipo de ignorância típica de sítios mais pequenos que me faz confusão.

    Se eu pudesse viver em Lisboa, não saía. Acho que não irei para um sítio mais bonito, em que consiga andar tanto a pé e ver e fazer tanta coisa fixe num raio de poucos quilómetros. E isso para mim é importante.

    Mas a verdade é que, numa base diária, a minha rotina é sempre a mesma. Não preciso de tudo o que Lisboa tem para oferecer de segunda a sexta-feira, porque passo o dia a trabalhar e isso posso fazer em Lisboa ou em Marco de Canaveses lol Se viveres nos arredores de uma cidade, facilmente podes ir passear ao fim de semana, por exemplo, ou ver um concerto qualquer.

    Há cidades no Minho e no Norte de Portugal em que consegues um equilíbrio porreiro para as tuas necessidades (não falo do sul, porque não conheço), se o emprego não for uma questão – porque é uma grande questão em cidades pequenas que não têm oferta qualificada e bem paga.

    O meu sonho continua a ser comprar uma casinha isolada com espaço para ter uns cães, tratar das minhas plantas, ter uma horta e ler cá fora sem ninguém me chatear. Se me dessem isso em Lisboa, era uma pessoa feliz. Mas só é mesmo atingível no interior do país.

  9. Olá OP, antes de mais deixa-me dar-te os parabéns pelo teu post. Muito bom. Espero que as coisas continuem a correr-te pelo melhor.

    Esta temática de viver no interior não é nova, o que já me levou a pensar criar um sub reddit sobre isto, mas como sou meio noob aqui e em IT no geral prefiro deixar isso para malta mais inteligente. Seria uma cena como o sub reddit Portugal Lá Fora para aconselhar os nossos emigrantes, mas neste caso chamar-se-ia Portugal Cá Dentro de modo a aconselhar, incentivar e inspirar os portugueses cá na tuga que se deixarem para trás esses grandes centros urbanos, que são cada vez menos para as nossas bolsas e mais para expats e vistos gold, poderiam atingir uma melhor qualidade de vida.

    O texto do teu post é um bom exemplo, mas já li comentários de outros users noutros posts em que eles relatam a sua experiência e são bastante inspiradores.

    O interior precisa de pessoas para se renovar, não creio que vá haver um êxodo urbano mas se fizermos as coisas em “baby steps” acredito a mudança surgiria. Mas lá está, não é para toda a gente, todos nós temos perfis diferentes.

  10. Olha-me este brolho do caralho, só porque comprou uma palhota em ponte de lima já manda uma de pacóvio à malta. O trabalho remoto deve ser lifestyle coach nos tiktoks desta vida.

    Segundo o teu post, viver aonde vives só é viável para ti porque trabalhas remotamente. Isso há-de ser sempre a excepção e nao a regra. O desenvolvimento de uma terra não funciona se a fonte de riqueza for trabalho remoto. Se te despedires amanhã e fores trabalhar para a caixa do intermarché ainda recomendas?

    Hospital a 30 km, ca puta de privilégio. Experimenta ter alguém em casa que passe a vida a precisar de ir às urgências que logo vês se isso é só “menos bom”. Sair às tantas da manhã por estradas municipais sem luz sempre a ver quando matas o bêbado da vila.

    Mas pronto, podes beber da água do furo como um beduìno logo ja é bué da sustentàvel.

    Posts como o teu só pôem em evidencia a necessidade de investimento a sério no interior para ontem. Mas hey, os pacóvios somos nós.

  11. Que coragem! Com que então , até se vive bem no interior abandonado pela Lisboa usurpadora de toda a riqueza nacional. E o interior pode ser até no litoral, eu a pensar que o interior era longe do mar, afinal não preciso mais de ter pena do castelhanos e em especial os madrilenos que vivem isolados no interior da península.

  12. Como alguém que cresceu numa aldeia no interior e agora está perto de uma cidade é raro ver algumas coisas a serem abordadas aqui.

    Para começar, a própria vila em si era pequena e em grande parte das aldeias não há muito para além de casas ou um pequeno café, sendo impossível uma pessoa sobreviver sem carro pois fora do período escolar nem um autocarro há na maior parte dos sítios.

    A grande vantagem é definitivamente o espaço, tanto as casas são grandes como quase todos têm espaço para cultivar algumas coisas, mas não é assim tão incomum ver melhores preços nas cidades quanto a supermercados.

    Centros de saúde costumam ter grande rotatividade de médicos e serviços em geral são muito lentos, tanto que acaba por ser mais rápido ir a outras vilas ou à cidade mais próxima. O carteiro passava poucas vezes por semana e várias vezes as encomendas e cartas iam parar à casa de vizinhos.

    Há cada vez mais escolas a fecharem e os alunos mais velhos também acabam por ficar limitados. Na minha altura (que não foi assim há tanto tempo) grande parte das pessoas acabava por se deslocar para a cidade mais próxima para conseguir ter certas disciplinas, mas parece que esse “problema” se tem agravado.

    Quanto a internet nunca tive problemas mas conheço várias zonas onde ainda nao é assim e inclusive há vários problemas de rede, sendo quase impossível fazer chamadas.

    Estar perto de natureza é um bónus, mas a maioria dos espaços não estão cuidados então até a nível de desportos ao ar livre acaba por ser mais complicado. Noto que sou uma pessoa muito mais ativa agora e até uma simples caminhada é mais fácil agora pois não tenho de dividir a estrada com carros e tenho parques perto de mim.

    Viver numa aldeia para mim obrigava a um planeamento muito maior para fazer qualquer coisa por causa da necessidade de carro mas também era raro conseguir fazer certas atividades com facilidade, o que sinto que “prejudicou” a minha adolescência pois só tínhamos a escolha entre ir para um café ou casa de alguém. Algo que também sempre me incomodou muito foi várias vezes sentir que era observado por vizinhos ou familiares onde quer que estivesse.

    Apesar de ainda ser muito diferente em relação aos preços de meios maiores, também nas casas nota-se uma grande subida de preços, e na minha perspectiva não compensa muito em relação à falta de serviços, acessos e qualidade de vida.

    Acho que se uma pessoa trabalhar remotamente e gostar de ter muito espaço só para si pode encontrar várias vantagens numa aldeia, mas como alguém que lá cresceu não me imagino a voltar para ficar.

    Para terminar, acho que uma pessoa pode ter uma excelente qualidade de vida no interior do país, a questão para mim prende-se mais com o tamanho do meio, s serviços e acessos que tem, pois conheço várias zonas perto de onde cresci que mesmo sendo no interior apresentavam mais vantagens.

  13. Trabalho remoto, e já vivi no interior. Não numa aldeia, numa cidade pequena. E mesmo assim, não deu. Não tens um monte de serviços. Para quem quer viver um estilo de vida de campo, tudo bem. Há quem goste disso e até o prefira. Eu prefiro ter uber e compras entregues em casa.

  14. >Isto porque não existe UM interior, mas sim muitos.

    Extremamente importante. E sendo que eu me vou mudar, eventualmente, de volta ao interior de onde sou originário, vou comparar com o que eu conheço.

    ​

    >Faço trabalho remoto, e tenho fibra para fazê-lo, bem como boa recepção no telemóvel.

    De onde sou não existe sequer rasto de fibra. A ADSL chegou em 2010. Já se conseguem velocidade de 8Mb num dia bom, no entanto falha muito. Rede de telemóvel é pior. Existe um local alto lá, e já cheguei a ver pessoas a correrem para lá porque precisavam de chamar uma ambulância ou assim. Quase toda a gente tem telefone fixo em caso de emergência.

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    >No geral as coisas são mais baratas, sobretudo se tiverem tempo e paciência para ir ao mercado. São comuns ofertas de fruta, legumes ou ovos por parte dos vizinhos. Tenho uma pequena horta, que me vai dando uns mimos ao palato.

    Exactamente a mesma coisa lá. É comum vizinhos até oferecerem coisas que recusamos e mesmo assim eles dizerem para aceitarmos que já têm demais a estragar-se em casa e assim estragam-se na nossa. Certas coisas, como ovos, é raro ser oferecido, no entanto são vendidos a preços simbólicos. Ainda no verão comprei uma dúzia de ovos de galinha a uma vizinha, pediu-me 1€, e ainda me deu outra dúzia de ovos de codorniz.

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    >No sítio onde vivo tenho um pequeno posto de correios, para-farmácia, restaurantes, cafés, padaria, talho e mini mercado. Para compras maiores e serviços vou à Vila.

    Tenho uma farmácia a 1km. Abre 4h todos os dias, e uma pequena loja de conveniência também a 1km. Não tem muita coisa, mas serve para desenrascar.

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    >Se preciso de uma consulta no centro de saúde, tenho-a em 2 dias máximo, quando não é no próprio dia.

    Temos um centro de saúde. Que me lembre está fechado há 15 anos. Ocasionalmente abre 1 ou 2 meses, depois volta a fechar por falta de médico. Mesmo nessas raras alturas quando abre, abre 2 manhãs por semana. Ninguém tem médico de família porque, por alguma razão, como há aquele centro de saúde, não nos podemos inscrever no da cidade que fica a 30km.

    ​

    >A electricidade por vezes falha com temporal e trovoadas.

    Bem vindo ao interior. Por norma quando se ouve um trovão já se sabe que a electricidade vai falhar, é quase inevitável. Por norma na manhã seguinte está de volta.

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    Acho que se romantiza demasiado “o interior”. A aldeia de que falo, com 250 pessoas, não tem quase jovens. Éramos 15-20 num intervalo de 2 anos a mais ou a menos que eu, acho que apenas lá estão 3, os outros fugiram para outros lados para sair da “parvalheira”.

    ​

    Dito isso tudo, eu gosto, e a mulher quer experimentar sendo ela menina de cidade. Estamos lá a tentar construir casa. Espero bem que ela se adapte.

  15. Eu cresci nesse Norte, mais especificamente em Viana do Castelo, e vivi numa grande capital europeia 3 anos.

    Recentemente voltei para Portugal, e estou a ponderar fazer o oposto de ti: mudar-me para o Porto.

    Razões ?

    * Vida social. Pós-pandemia a vida noturna acabou em Viana. Já não há bares e discotecas como antigamente, é dificilimo agora conhecer pessoas novas, e como trabalhador remoto ainda mais.
    * Poucas atividades/desportos/eventos. Para contrabalançar o trabalho remoto quero ter uma vida ativa nos tempos livres. Fiz todos os trilhos da zona e caminhadas durante uns meses, mas eventualmente aborrece, e sozinho ainda mais.
    * Conhecer a minha parceira. Tal como na parte social, encontrares alguém compatível contigo é muito mais provável se tiveres num sitio com maior densidade populacional. Eu pessoalmente gostava de encontrar alguém que trabalhasse remotamente também, e em Viana/Ponte de Lima é muito difícil chegar a essas pessoas, especialmente da minha faixa etária (<30 anos), enquanto que no Porto tens desde coworks, a meetups, a cafés com malta jovem a trabalhar lá. Nacionais e Estrangeiros, o que também é uma vantagem porque trazem outras perspetivas e mentalidades
    * Entretenimento
    * Mentalidades. Aquilo que outro user disse de te olharem de baixo a cima também acontece aqui. Além disso as mentalidades são mais fechadas, não encontras pessoas facilmente com os mesmos interesses que tu, e sempre que sais à noite já toda a gente se conhece e não há aquele à vontade que encontras nas cidades grandes.
    * Espontaneidade. Uma coisa que gostava na capital onde vivi é que podias simplesmente sair à rua e vias sempre coisas novas e pessoas novas. Aqui a monotonia mata.

  16. Viver longe de um hospital para mim invalida localização. Prefiro saber que 99% do tempo estou perto de um local que me pode salvar a vida com condições.

  17. Eu também tenho experiência do interior. O verdadeiro interior, em aldeias do distrito de Bragança e vilas no Alentejo.

    Digo isto: depende.

    Vilas e aldeias situadas mais a litoral possuem geralmente infraestruturas mais desenvolvidas, com mais comércio, mais serviços e mais perto de grandes cidades. Em certas aldeias, lá por Macedo de Cavaleiros ou mesmo perto de Mirandela, **nem rede móvel** tens dentro de casa.

    Agora, aldeias na região do alto minho estão rodeadas por centros urbanos e possuem elas próprias cafés e uma ou outra mercearia.

    Existe “interior” e interior. Uma aldeia no litoral “interior” é vastamente diferente de uma aldeia no interior. Tens fibra? O teu interior é um bocado mais exterior que os outros.

  18. Para mim é simples. Não quero conduzir automóveis. Ir viver para esse tipo de regiões é impossível sem um veículo, é do tipo de sítios que ter transportes públicos uma vez por dia é uma sorte.

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