
Na Sexta-feira passada, o jornal Expresso andou a promover um artigo do qual não li, pois está por trás de uma *paywall*, mas da mesma forma a maioria das pessoas também não, tendo-se ficado “pelas gordas” como a esmagadora maioria das pessoas neste país, infelizmente.
[Na sua promoção](https://i.imgur.com/NgkIv6y.png), pode-se ler o seguinte:
> Dentro de 30 a 40 anos, as jovens raparigas de hoje tornar-se-ão mulheres com um risco marginal de cancro do colo do útero. A vacinação de adolescentes, com 15 anos, está já completa para mais de 94% e a população ainda mais jovem caminha para lá. Sem percalços, o segundo tumor ginecológico hoje mais frequente, depois do cancro da mama, tenderá a desaparecer.
> Saiba mais aqui: https://expresso.pt/sociedade/2022-10-04-Saude-as-jovens-de-agora-vao-chegar-a-adultas-com-um-risco-minimo-de-cancro-do-colo-do-utero.-Porque–667f00fb
> Saúde
> **Cancro do colo do útero vai desaparecer ou tornar-se residual.** Jovens agora vão tornar-se adultas com um risco mínimo.
Seguido de uma *stock photo* de uma mulher com lenço na cabeça e feliz da vida.
Isto é obviamente uma tentativa de captar leitores pelo *feel good* da notícia. Numa época em que se tentar apelar ao clique pelo pior, até não é mau tentarem o contrário, mas vamos lá ver…
**A nossa política de combate ao HPV é horrível**:
– A comparticipação é limitada a rapazes até aos 12 anos (nascidos depois de 2009) e raparigas até aos 17 (iniciando a primeira dose aos 17, podem tomar as seguintes até aos 26);
– Fora de comparticipação, cada dose de um total de 3 doses custa cerca de €130, dando um total de cerca de €390 para se ser vacinado;
– Ainda é crença comum, mesmo entre médicos de família mais velhos que o HPV seja uma doença que afecte e cause cancro só às mulheres e que assim que se inicia a actividade sexual, é inútil ser-se vacinado, o que é errado.
O HPV é um vírus que pode causar cancro tanto em homens como em mulheres. É um vírus bastante comum e na maioria das suas estirpes e mais comuns é inofensivo. Contudo, as estirpes mais perigosas são extremamente cancerígenas e tendo exposição a uma estirpe não quer dizer mais tarde não se tenha a outra.
A vacina em si neste momento protege contra as 9 estirpes mais perigosas. Mesmo que uma pessoa tenha o azar de ter estado exposta a 1 dessas estirpes, obviamente vai beneficiar de proteção para as restantes, reduzindo a probabilidade de ter cancro.
Durante muitos anos a política de vacinação era apenas vacinar as mulheres pois só se associava ao cancro do colo do útero. As vacinas contudo funcionam se uma certa maioria da população as tomar, criando imunidade de grupo. Vacinar apenas 50% da população (que nem chegava a 50% porque apenas se estava a vacinar a camada mais jovem) não cria essa imunidade e põe em risco pessoas com menor imunidade. Esta política sexista (acredito que não por nada contra as mulheres mas como forma de poupar dinheiro – a curto prazo, porque a longo prazo não me admira que gastos oncológicos na saúde pesem mais), acabou por ser sexista para ambos os lados porque não só não protegia mulheres como deve de ser como deixavam homens completamente expostos.
Não sei se a notoriedade de casos masculinos ou se pressão de oncologistas fez mudar a política de saúde para abranger rapazes no PNV nascidos após 2009. É um passo em frente, sim, mas continua a ser um ano arbitrário estipulado para um problema que pode afectar toda a gente.
Ainda se continua a acreditar que a vacina para adultos é inútil. Parte desta crença vem da ideia errada falada acima de que a exposição a uma estirpe invalida benefícios da vacina. A outra parte é uma ideia naïve que as pessoas chegam a adultos, arranjam um parceiro para a vida e mitigam o risco de transmissão. É absurdo porque cada vez menos pessoas se casam logo aos 20’s ou com a pessoa que iniciam actividade sexual, porque olhando para a nossa taxa de divórcios, mesmo com casamento, parceiros para a vida não são garantidos, e olhando para essa mesma taxa, vou imaginar que infidelidade não é invulgar – como existência de diversos tipos de relações abertas são cada vez mais populares numa sociedade cada vez menos religiosa.
**Portanto estamos no ponto ridículo em que estamos a celebrar que daqui a 30 ou 40 anos cancro do colo do útero seja residual para gerações mais novas quando podíamos estar a prevenir muito mais cancro a jovens ligeiramente mais velhos e adultos neste momento e não estamos.**
Eu diria que estes posts do Expresso são a personificação [deste meme](https://knowyourmeme.com/memes/bronze-medal). A mulher da foto poderia estar feliz de não ter cancro em vez de apenas feliz por gerações futuras.
5 comments
>A nossa política de combate ao HPV é horrível:
>
> • A comparticipação é limitada a rapazes até aos 12 anos (nascidos depois de 2009) e raparigas até aos 17 (iniciando a primeira dose aos 17, podem tomar as seguintes até aos 26);
>
> • Fora de comparticipação, cada dose de um total de 3 doses custa cerca de €130, dando um total de cerca de €390 para se ser vacinado
A saúde custa muito dinheiro ao estado e os gastos têm que ser o mais racionais possíveis. O hpv não é assim tão comum nem é um risco tão grande.
Pelas contas que tenho o custo da vacina é 390 euros (mais gastos administrativos e de pessoal), vezes 10 milhões de habitantes dá 3900 milhões de euros.
Eu sei que parece que a saúde é grátis mas não é.
A razão pela qual os homens têm maior incidência de cancros orais e na garganta do que as mulheres é que o HPV, que causa cancro como disse o OP, pode ser facilmente transmitido através do minete mas não tanto através do bobó. Para evitarem tal transmissão façam o minete apenas no clítoris. Não enfiem a língua na vagina da(s) vossa(s) querida(s).
Não sabia que o HPV também causa cancro no homem.
Portanto os adultos tem de pagar a vacina, do bolso deles?
No caso do HPV só se ouve falar em cancro no colo do utero – é porque deve ser o cerne da questão e o cancros do HPV nos homens uma coisa residual . Querem vacinar os rapazes para proteger as raparigas pela mesma razão que vacinaram as crianças para proteger os velhotes (São uns reservatórios de virus – disse a Graça Freitas) ?
. É que é um bocado a ideia que passa.
Nada contra, mas o meu fetiche não é por gordas.