A imoralidade da raspadinha | Cláudio Costa

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  1. u/Aftaminas toma:

    Estive recentemente em Portugal. Vindo do aeroporto, a paragem de autocarro que me deixa mais próximo de casa fica num café numa aldeia vizinha da minha, pelo que por lá fiquei enquanto aguardava pela minha boleia. Pouco depois de mim, entrou um freguês que, acercando-se do balcão, pediu um café e uma raspadinha.

    Após vigoroso raspar, o resultado foi um triste insucesso. Não satisfeito, pediu outra raspadinha, e outra, e outra, e mais umas quantas. Apesar de dois ou três míseros êxitos, que pouco mais renderam que o custo da própria raspadinha, o desfecho mais frequente foi semelhante ao da primeira tentativa. Perdi a conta a quantas raspadinhas foram compradas, mas vi que o pagamento foi feito com uma nota de 50€ e o troco mais não foi que meras duas ou três moedas. Quase 50€ e tudo quanto aquele homem levou para casa foi uma dose de cafeína no corpo.

    Apesar de presumivelmente quase conterrâneo, não conheço o protagonista desta história. Bem sei que as aparências muitas vezes enganam, mas, se tivesse de arriscar, diria que se tratava de um senhor de poucos recursos, provavelmente um daqueles que entra nas estatísticas como fazendo parte dos 2.3 milhões de pobres em Portugal. Em situação de carência, provavelmente vê nos jogos de azar a possibilidade de dinheiro fácil, milhares de euros que poderão, do nada, mudar a sua vida.

    O caso deste senhor, infelizmente, não é original. E mesmo o raciocínio por detrás de quem aposta não é totalmente inverosímil. De facto, tanto dinheiro pode mesmo proporcionar sonhos tão excêntricos como ter uma vida digna.

    O problema, contudo, é que a probabilidade de isso acontecer é tão remota que qualquer euro gasto em jogos de azar é quase invariavelmente desperdiçado. Pior: isto transforma-se num drama social se se tiver em conta que 1) estamos perante algo com potencial aditivo e 2) que, segundo dados de 2019 fornecidos pela Santa Casa da Misericórdia, 77% dos apostadores são pessoas de classe média-baixa ou baixa. Pobres, portanto.

    Quem como eu se deliciou com a série Pôr do Sol pôde rir-se com o efeito do vício das raspadinhas na personagem Diogo, mas, verdadeiramente, esta foi uma sátira muito bem conseguida, pois, não sendo as raspadinhas quimicamente uma droga, os efeitos sociais nocivos desta adição estão lá todos.

    É claro que, se o status quo há tantos anos se mantém, boas razões há para isso, pelo menos na óptica do Estado. O Orçamento de Estado deste ano contava arrecadar cerca de 437 milhões de euros através de impostos indirectos sobre lotarias e sobre prémios de jogo, às quais se soma a fatia das receitas da Santa Casa da Misericórdia que financia os Ministérios do Governo ou os projectos de natureza social da própria instituição (como são exemplo os lares de idosos), um valor que em 2021 se cifrou em cerca de 816 milhões de euros.

    São, no total, cerca de 1,2 mil milhões de euros ao serviço do Governo. Dá para, por exemplo, cobrir duas vezes todo o orçamento para a Cultura em 2023 (se não for contabilizada a quantia destinada à RTP) e ainda sobram quase 200 milhões. É, simplesmente, demasiado tentador… Contudo, considerando que parte significativa desta receita provém de pessoas pobres, são no fundo os pobres quem está a financiar os serviços sociais para todos.

    É, portanto, uma completa subversão daquilo que deviam ser políticas públicas. É o chamado moral hazard, um caso em que o Estado, que devia zelar pelos mais desfavorecidos, aproveita-se descarada e dissimuladamente da sua desinformação para financiar, entre outros, um sistema de segurança social deficiente que há muito clama por reformas profundas.

    Mas regressando à problemática das raspadinhas e dos jogos de azar em geral, como liberal que sou, não defendo abordagens proibicionistas. Acredito na literacia, na educação. Acredito na eficácia de campanhas que sirvam de abre-olhos, e gostaria por isso que os jogos de azar fossem objecto das mesmas como são o álcool ou o tabaco, que no fundo informem e eduquem mas coloquem o ónus nos indivíduos. Todavia, nada disto seria suficiente.

    É também necessário acabar com esta promiscuidade entre receita do Estado e jogos de azar. É premente mudar a filosofia de negócio da Santa Casa, que a toda a hora vende sonhos quase predatórios na televisão para custear a sua acção (por muito nobre que esta seja, que o é).

    Que não restem dúvidas: usar uma fragilidade humana para financiar serviços sociais não é uma genialidade, é apenas uma imoralidade. Cabe assim ao Estado humanizar-se e deixar de lucrar com a desgraça alheia, porque amparar os mais desfavorecidos não é dar com uma mão aquilo que se tirou com a outra.

  2. E a tendência não será abrandar. O Gambling nos jovens continua a ser preocupante. São os YouTubers a jogar slots ou os jogos como o FIFA a abrir pacotes de cartas. Acredito que nos próximos 10 anos teremos um grave problema de adição nos jogos. São os velhos com as raspadinhas, são os jovens com FIFA points ou slots virtuais.
    Há muita guita envolvida nisto.

  3. Democracia. Pessoas são livres de fazer o que querem com o seu dinheiro. Não cabe a ninguém julgar.

  4. Lembro-me sempre da notícia de uma funcionária dos serviços postais do Reino Unido, que gamou £20k de raspadinhas e cujo prémio máximo foi £50.

  5. Tenho saldo positivo nisto, só raspo quando alguém me oferece uma e quase que me saiu o mesmo número de vezes que não saiu nada, assim por alto. O máximo foi 20€. De certeza que tive mais sorte do que no euromilhões. De resto, fez me pensar que até estou para comprar quando tenho alguma comichão na mão, mas nem me dei ao trabalho até agora. Estas coisas é entrar com dinheiro que estás disposto a perder, ora um pobre deverá estar disposto a pouco, mas cada um convém que saiba fazer a sua gestão e ter cuidado com os vícios. Não há mais a fazer a não ser armar-me em intrometido, e eu isso não faço.

  6. Tem gente que gosta de ir ao cinema, outros tomam uns goles, outros fumam, por que julgar aos outros,? esse mundo seria bem melhor se cada um se preocupasse com a propria vida, se não é afetado pessoalmente, live and let live

  7. Só joga quem quer. Se calhar não devia era haver á venda em confeitarias e assim. Deviam vender em casas próprias apenas

  8. A Santa casa de “Santa” só tem um nome. São uns autenticos mafiosos.

    Mas o maior escandalo é o Placard. Antigamente havia 1001 casas de apostas, mas em portugal, para meterem o Placard e fazer o monopólio da Santa casa, obrigaram tudo o resto a fechar.

    Eu apostava na Betfair, que é a casa de apostas mais honesta porque trabalhar com comissão simples nas apostas feitas, (logo paga muito mais aos clientes que a santa casa), basicamente fui obrigado a nunca mais apostar. Não só porque as odds do placard são um roubo, mas também porque eu apostava em desporto motorizado que o Placard nunca teve (ou até recentemente não tem, e nem que tivesse não lhes dava 1 centimo)

  9. Se no casino e casas de apostas on-line eu posso solicitar a minha proibição de entrada ou aceder ao site porque não fazem o mesmo nessa merda? Óbvio que não invalida jogar, podias sempre pedir a alguém que comprasse a raspadinha, mas tornava as coisas mais difíceis. Um registo do contribuite, como fazem no placard, por exemplo.

  10. Lembro-me de um AskReddit há uns tempos, acerca de coisas em que os pobres gastam dinheiro, bastante, e os ricos não. Uma das respostas que me pareceu totalmente certa e válida também para Portugal, scratch cards, raspadinhas, lotarias instantaneas.

  11. O mínimo que deviam fazer era proibir tudo o que fosse casa de apostas ou jogos de sorte ainda piores de poderem fazer publicidade em tudo quanto é sítio.

  12. Nas raspadinhas às vezes ainda te dão o custo dela para o voltares a lá meter e ficares sem ele, no euromilhoes nem isso…

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