O armazém da Flor da Selva está num rebuliço. Há caixas empilhadas no meio do caminho e sacos arrumados a um canto. Na área que já conseguiu esvaziar, um funcionário vai dando umas vassouradas. Uma parte das instalações desta torrefacção de café tem de ficar livre nas próximas duas semanas.
Na Travessa do Pasteleiro, os afectados por esta ocupação temporária não se opõem à intenção do metro, mas criticam a forma como foram tratados. “Antes de fazerem a carta deviam ter constituído um gabinete de apoio. Iam falar com as pessoas, iam ver qual é a sua realidade”, diz Jorge Monteiro, responsável pela Flor da Selva.
A carta a que se refere foi a que chegou no princípio de Novembro e dava um prazo de mês e meio para a desocupação total das instalações. “Deitei as mãos à cabeça: ‘Estamos desgraçados’. A atitude deles foi: ‘Desenrasquem-se’”, critica o empresário. Com nove empregados a cargo e contratos com cafés e restaurantes que mantêm a torrefacção em permanente azáfama, Jorge Monteiro pediu apoio ao advogado e, entretanto, conseguiu que a ocupação do armazém fosse parcial, permitindo manter-se em funcionamento nas outras salas.
É essa zona que está agora a ser esvaziada. “Pedi a uma imobiliária para ver se havia armazéns aqui na zona, e nada… Só arranjámos em Palmela. Estamos até a negociar uma viatura nova só para ir para Palmela”, relata Jorge. “Vou ter que andar a pôr a mercadoria dentro dos carros porque não cabe aqui dentro. Devia ter havido um comportamento digno, humano”, critica.
Apesar de já estar a arrumar, Jorge Monteiro ainda não assinou o acordo. “Só assino quando o advogado me disser para assinar”, garante. Patrícia, que prefere ser identificada apenas pelo primeiro nome, é uma das moradoras do bloco que ainda está renitente. “Eu percebo a necessidade de fazer o diagnóstico, mas têm de nos dar explicações”, afirma.
Foi-lhe proposta uma indemnização de três mil euros que se destina, entre outras coisas, para alojamento durante as cinco semanas. “E as minhas coisas todas aqui dentro?”, questiona-se. Como a carta do Metro informa que as paredes devem estar livres de objectos e que poderão ser abertos roços nas paredes, chão e tectos, Patrícia quer tirar tudo de casa. “Tenho a minha vida toda ali dentro. Estão-se a esquecer de que é preciso assegurar embalagem, mudança e armazenamento. Estas coisas não se tratam em cima do Natal.”
No comunicado, o metro diz que os valores propostos englobam “o alojamento em hotel ou alojamento local pelo período da ocupação, a diferença de custo para as refeições fora do domicílio, o tratamento da roupa fora do domicílio, as deslocações e a mudança e limpeza da habitação”. E assegura ainda que “caso os interessados incorram, comprovadamente, noutras despesas derivadas da ocupação temporária, o Metropolitano assumirá tais responsabilidades”.
O presidente da Junta da Estrela e autor da moção do PSD, Luís Newton, diz que “as pessoas se sentem muito pressionadas” e que “o sentimento geral é de alguma angústia”. Afirma mesmo que sabe de uma pessoa que assinou o acordo “porque pensou que era aquilo ou não era nada” e “já se arrependeu”.
“O metro agiu com total falta de transparência”, acusa Newton. “As pessoas são confrontadas com uma quantidade de documentação jurídica e muitas não têm condições para a interpretar. O Metro devia ter contactado a junta, devia ter proposto um acompanhamento e não era isso que ia causar qualquer dificuldade. Há tanta derrapagem de prazos perfeitamente inútil”, comenta.
As duas moções aprovadas na assembleia pedem a intervenção do Governo para suspender o processo, que o metro diz ser urgente. O ministro do Ambiente visita esta quinta-feira as obras da linha circular.
Mais um calote feito pelo Estado Central a favor do município de Lisboa, pelo qual vão pagar todos os portugueses, de Bragança a Faro, passando pelos Açores e Madeira. Estas obras do metro vão derrapar como se não houvesse amanhã. Que venha a Regionalização para que cada região fique com a responsabilidade destas aventuras e não um país inteiro refém deste centralismo.
Isso ia bem no r/latestagecapitalism
Todo o processo é feito para que umas 2/3 zonas aumentem ainda mais o seu valor…
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O armazém da Flor da Selva está num rebuliço. Há caixas empilhadas no meio do caminho e sacos arrumados a um canto. Na área que já conseguiu esvaziar, um funcionário vai dando umas vassouradas. Uma parte das instalações desta torrefacção de café tem de ficar livre nas próximas duas semanas.
A 3 de Janeiro, esta é uma das [33 fracções de um quarteirão da Madragoa que o Metro de Lisboa vai ocupar](https://www.publico.pt/2021/12/14/local/noticia/metro-ocupa-casas-temporariamente-gera-indignacao-assembleia-municipal-lisboa-1988617), por um período de cinco semanas, para “uma análise aprofundada” das suas condições estruturais. É por ali que vai passar o túnel da futura linha entre o Rato e o Cais do Sodré e a empresa pública quer perceber se é preciso fazer reforço de estruturas.
Na Travessa do Pasteleiro, os afectados por esta ocupação temporária não se opõem à intenção do metro, mas criticam a forma como foram tratados. “Antes de fazerem a carta deviam ter constituído um gabinete de apoio. Iam falar com as pessoas, iam ver qual é a sua realidade”, diz Jorge Monteiro, responsável pela Flor da Selva.
A carta a que se refere foi a que chegou no princípio de Novembro e dava um prazo de mês e meio para a desocupação total das instalações. “Deitei as mãos à cabeça: ‘Estamos desgraçados’. A atitude deles foi: ‘Desenrasquem-se’”, critica o empresário. Com nove empregados a cargo e contratos com cafés e restaurantes que mantêm a torrefacção em permanente azáfama, Jorge Monteiro pediu apoio ao advogado e, entretanto, conseguiu que a ocupação do armazém fosse parcial, permitindo manter-se em funcionamento nas outras salas.
É essa zona que está agora a ser esvaziada. “Pedi a uma imobiliária para ver se havia armazéns aqui na zona, e nada… Só arranjámos em Palmela. Estamos até a negociar uma viatura nova só para ir para Palmela”, relata Jorge. “Vou ter que andar a pôr a mercadoria dentro dos carros porque não cabe aqui dentro. Devia ter havido um comportamento digno, humano”, critica.
Na terça-feira, depois de uma reportagem da revista [Sábado](https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/metro-expropria-temporariamente-moradores-da-madragoa-em-janeiro-2) e de uma visita dos deputados da Iniciativa Liberal, a assembleia municipal aprovou moções da IL e do PSD de repúdio ao processo. Na véspera, a empresa veio dizer em [comunicado](https://projetos.metrolisboa.pt/esclarecimento-do-metropolitano-de-lisboa-sobre-ocupacao-temporaria-de-edificios/) que três proprietários das fracções afectadas já tinham assinado um acordo e que outros “20 já o aceitaram, aguardando-se a respectiva assinatura”. “As informações sobre as indemnizações a pagar foram já definidas e comunicadas aos proprietários. Até este momento o montante total é de cerca de 125 mil euros e este valor foi apurado por um perito avaliador independente”, informou ainda o Metro.
Apesar de já estar a arrumar, Jorge Monteiro ainda não assinou o acordo. “Só assino quando o advogado me disser para assinar”, garante. Patrícia, que prefere ser identificada apenas pelo primeiro nome, é uma das moradoras do bloco que ainda está renitente. “Eu percebo a necessidade de fazer o diagnóstico, mas têm de nos dar explicações”, afirma.
Foi-lhe proposta uma indemnização de três mil euros que se destina, entre outras coisas, para alojamento durante as cinco semanas. “E as minhas coisas todas aqui dentro?”, questiona-se. Como a carta do Metro informa que as paredes devem estar livres de objectos e que poderão ser abertos roços nas paredes, chão e tectos, Patrícia quer tirar tudo de casa. “Tenho a minha vida toda ali dentro. Estão-se a esquecer de que é preciso assegurar embalagem, mudança e armazenamento. Estas coisas não se tratam em cima do Natal.”
No comunicado, o metro diz que os valores propostos englobam “o alojamento em hotel ou alojamento local pelo período da ocupação, a diferença de custo para as refeições fora do domicílio, o tratamento da roupa fora do domicílio, as deslocações e a mudança e limpeza da habitação”. E assegura ainda que “caso os interessados incorram, comprovadamente, noutras despesas derivadas da ocupação temporária, o Metropolitano assumirá tais responsabilidades”.
O presidente da Junta da Estrela e autor da moção do PSD, Luís Newton, diz que “as pessoas se sentem muito pressionadas” e que “o sentimento geral é de alguma angústia”. Afirma mesmo que sabe de uma pessoa que assinou o acordo “porque pensou que era aquilo ou não era nada” e “já se arrependeu”.
“O metro agiu com total falta de transparência”, acusa Newton. “As pessoas são confrontadas com uma quantidade de documentação jurídica e muitas não têm condições para a interpretar. O Metro devia ter contactado a junta, devia ter proposto um acompanhamento e não era isso que ia causar qualquer dificuldade. Há tanta derrapagem de prazos perfeitamente inútil”, comenta.
As duas moções aprovadas na assembleia pedem a intervenção do Governo para suspender o processo, que o metro diz ser urgente. O ministro do Ambiente visita esta quinta-feira as obras da linha circular.
Mais um calote feito pelo Estado Central a favor do município de Lisboa, pelo qual vão pagar todos os portugueses, de Bragança a Faro, passando pelos Açores e Madeira. Estas obras do metro vão derrapar como se não houvesse amanhã. Que venha a Regionalização para que cada região fique com a responsabilidade destas aventuras e não um país inteiro refém deste centralismo.
Isso ia bem no r/latestagecapitalism
Todo o processo é feito para que umas 2/3 zonas aumentem ainda mais o seu valor…