
A eleição para a liderança da IL quase tornou a escolha de sistema eleitoral relevante, o que acontece normalmente quando há 3 ou mais candidatos e nenhum consegue mais de 50% dos votos.
Não foi o caso, mas isso levou-me a pensar em outros exemplos em que o sistema pode ter sido relevante, nomeadamente a eleição presidencial de 1986, onde ganhou Mário Soares apesar de ter sido 2º na primeira volta.
Na 1ª volta os resultados foram:
Freitas do Amaral: 46%
Mário Soares: 25%
Salgado Zenha: 21%
Maria Pintasilgo: 7%
(abstenção: 25%)
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Na 2ª volta foram:
Mário Soares: 51%
Freitas do Amaral: 49%
(abstenção: 22%)
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A 2ª volta permite “confirmar” se o 2º lugar não terá sido prejudicado pela diluição dos votos nos candidatos que ficaram fora do top2.
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Mas há sistemas que vão mais longe, p.ex. o método de Condorcet que pergunta: “**Há algum candidato que vence a todos os outros em confronto directo?**”
E aqui, é impossível saber, **matematicamente**, se Zenha ou Pintasilgo não seriam esses candidatos, apenas sabemos que Amaral não seria pois já tinha perdido com Soares.
É possível ver um modelo de como isso poderia funcionar no link abaixo:
Este [modelo simplificado](http://ncase.me/ballot/sandbox?m=%7B%22s%22%3A%22FPTP%22%2C%22v%22%3A%5B%5B150%2C150%5D%5D%2C%22c%22%3A%5B%5B208%2C149%5D%2C%5B116%2C145%5D%2C%5B139%2C150%5D%5D%2C%22d%22%3A%22Poss%C3%ADvel%20%5C%22equil%C3%ADbrio%5C%22%20da%20elei%C3%A7%C3%A3o%20presidencial%20de%2086%5CnFreitas%20do%20Amaral%20%3D%20Quadrado%2C%20ganha%20em%20volta%20%C3%BAnica%5CnM%C3%A1rio%20Soares%20%3D%20Tri%C3%A2ngulo%2C%20ganha%20em%202%C2%BA%20volta%20(aka%20IRV)%2C%20contra%20Amaral%5CnMaria%20Pintassilgo%20%3D%20Hex%C3%A1gono%2C%20ganha%20nos%20restantes%20(incluindo%20Condorcet%2C%20que%20significa%20ganhar%20a%20todos%20os%20outros%20num%20confronto%20directo)%22%7D) mostra como pode variar uma eleição em função do método escolhido, mantendo os candidatos e a “vontade dos eleitores”:
**FPTP**, ou seja, eleição a 1 volta, onde ganha Amaral
**IRV**, ou 2º volta, onde ganha Soares
**Condorcet**, onde podia ganhar um dos outros candidatos.
Agora focando nas 2 voltas, há mais umas situações curiosas, p.ex., se Zenha fosse mais popular e recebesse mais votos, vindos das abstenção, isso seria bom para os seus apoiantes?
Pelos resultados da 2ª volta parece claro que os apoiantes de Zenha preferiam Soares a Amaral, mas se Zenha tivesse mais votos que Soares na primeira volta, será que na 2ª volta não ganharia Amaral vs Zenha?
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Às vezes em sistemas a duas voltas **ir votar pode significar ficar com um pior resultado do que ter ficado em casa**..
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Outro exemplo estranho das 2 voltas é que um candidato ganhador pode passar a perdedor ao aproximar eleitores do seu ponto de vista!
Vejam [neste exemplo](http://ncase.me/ballot/sandbox?m=%7B%22s%22%3A%22IRV%22%2C%22v%22%3A%5B%5B150%2C115%5D%2C%5B114%2C186%5D%2C%5B185%2C180%5D%5D%2C%22c%22%3A%5B%5B84%2C114%5D%2C%5B223%2C149%5D%2C%5B155%2C232%5D%5D%2C%22d%22%3A%22o%20hexagono%20e%20o%20quadrado%20v%C3%A3o%20%C3%A0%202%C2%AA%20volta%2C%20e%20o%20hexagono%20ganha%5Cn%5Cnmas%20v%C3%AA%20o%20que%20acontece%20se%20o%20hexagono%20%5C%22convencer%5C%22%20os%20eleitores%20do%20canto%20inferior%20esquerdo%20a%20votar%20nele%2C%20arrasta%20esse%20circulo%20para%20cima%20do%20hexagono%5Cn%5Cnnesse%20caso%20o%20quadrado%20%C3%A9%20eliminado%20na%201%C2%AA%20volta%2C%20e%20o%20tri%C3%A2ngulo%20ganha%20a%20segunda!%5Cn%5Cno%20hexagono%20ao%20ficar%20mais%20popular%20passa%20a%20perder%20a%20elei%C3%A7%C3%A3o%2C%20ouch%20%5E%5E%22%7D), o Hexágono ganha na 2ª volta, **mas**, se conseguir aproximar alguns eleitores do seu ponto de vista (arrasta os eleitores do canto inferior esquerdo para cima do Hexágono) **passa a perder a eleição na 2ª volta!**
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Se acham o tema interessante recomendo que espreitem o site que usei para os exemplos: [https://ncase.me/ballot/](https://ncase.me/ballot/)Onde se dão mais exemplos de forma muito interactiva. Está mesmo muito giro.Outro link interessante é o da entrevista do Kenneth Arrow, que ganhou o prémio nobel da economia pelo seu teorema sobre sistemas de escolha com base em preferências, que provou terem sempre pelo menos 1 “defeito”, incluindo os 3 métodos que falei acima.
[https://electionscience.org/commentary-analysis/voting-theory-podcast-2012-10-06-interview-with-nobel-laureate-dr-kenneth-arrow/](https://electionscience.org/commentary-analysis/voting-theory-podcast-2012-10-06-interview-with-nobel-laureate-dr-kenneth-arrow/)
2 comments
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Voto preferencial. O sistema atual não descreve as mudanças e variações na opinião publica da maneira que devia, ou seja, no momento do voto apenas o partido que o individuo prefere é tido em conta. Num sistema preferencial, o individuo pode expressar a sua opinião acerca dos outros partidos de forma a que, após uma averiguação dos resultados, as preferências possam ser comparadas umas com as outras e desta forma ter uma melhor ideia do quem os que votaram querem que governe.
Se houvessem eleições hoje, com este sistema preferencial, uma das coisas que se iria observar seria o facto de que partidos nos extremos não serem tão populares assim. Partidos como o chega ou pcp apenas seriam postos no topo da lista de preferências por pessoas que, no sistema atual, iriam votar nesses partidos. A maioria da população iria colocar esses partidos mais perto do fundo da lista. Apesar de um partido receber mais votos que outro não significa que essa seja a verdade completa.