Tempo de leitura: 5min | O TLDR está no fim.

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**Já pensaram porque é que as prateleiras dos brinquedos para raparigas são maioritariamente preenchidas com brinquedos cor-de-rosa e estão separadas das prateleiras dos brinquedos para rapazes?**

Provavelmente não, nós raramente pensamos porque é que as coisas são como são. À primeira vista parece ser algo que é apenas uma questão de organização e prontos, nem pensamos duas vezes sobre isso. No entanto, assim como esta história, a resposta a uma pergunta simples é mais complexa do que parece e na indústria do retalho nada, mesmo NADA é deixado ao acaso.

# Contexto:

Eu queria jogar bioshock com a minha namorada, mas ela nunca pegou num jogo. Para terem uma noção do que estou a falar, ela genuinamente achava que se jogavam os jogos com as setas e ficou pasmada quando lhe disse que era no WASD.

Mas a pergunta na minha cabeça é:

>**”Porque é que a minha namorada nunca jogou um jogo?”**

As respostas que podem surgir à partida são fáceis:

>**”Porque nunca teve interesse”** ou **“Porque se calhar nunca lhe deram um jogo”**

O problema é que pela minha experiência **não existem respostas fáceis para perguntas simples** e a minha maldita vontade de querer sempre questionar tudo fez-me passar dias a cismar com esta pergunta. A minha primeira linha de pensamento foi:

>**Eu sei que nós somos produto do meio em que somos criados, então teoricamente ela nunca teve exposição aos jogos e talvez por causa disso nunca pegou num jogo.**

Mas quando lhe perguntei, ela disse-me que até teve bastante exposição aos jogos através dos primos. Foi então que comecei a olhar em retrospectiva e um padrão que encontrei é que grande parte das raparigas que conheci também nunca tinham jogado um jogo para além de um jogo de telemóvel ou um wii party.

Fui à procura de estatísticas para ver se a minha perceção tinha algum valor. Para minha surpresa as mulheres contam com 45% do market share. O problema é que como já dizia Mark Twain:

>*Há três espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas.*

**Descobri então que existe um grave problema nas estatísticas sobre os videojogos, o diabo está sempre nos detalhes.**

E prontos foi neste buraco que me fui afundando. Quanto mais eu procurava mais fundo o buraco ia e honestamente a conclusão a que cheguei **é um pouco perturbadora.**

Durante esta busca incessante deparei-me com um artigo que falava sobre o estereótipo: **Videojogos não são para raparigas. E aqui os pontos começaram a** [**ligar**](https://youtu.be/K-QwY9ldlbM)**…**

# O estereótipo:

Este estereótipo deve-se em grande parte ao marketing por parte das grandes empresas da indústria dos videojogos. Este estereótipo, associado ao fenómeno do [In and Out-Group psychology](https://en.wikipedia.org/wiki/In-group_and_out-group), fez com que a minha namorada e muitas raparigas como ela nunca tivessem a oportunidade de pegar num jogo (e quem diz raparigas diz também qualquer pessoa com mais de 25 anos nos anos 90, não é à toa que as pessoas mais velhas achem que os jogos causam violência e deixam as pessoas autistas e anti sociais).

As raparigas não jogarem jogos acho que é uma realidade que todos já experienciámos e também acredito que já tenham experienciado o bullying que as poucas raparigas que de facto jogam videojogos recebem.

>**Se tu oferecesses um jogo à tua avó, mãe ou namorada qual ia ser a reação delas?**

Provavelmente de espanto, não é?

As mulheres (e pessoas mais velhas) não costumam jogar videojogos **e aqui está um problema**. Quer percebamos ou não existe um grande estereótipo associado aos videojogos. E embora as coisas estejam a mudar, este estereótipo continua a afastar pessoas do mundo dos videojogos e mantém afastadas aquelas que não cresceram com exposição aos jogos.

# Os Novos Hábitos:

Pensem em quem vos apresentou ao mundo dos videojogos. Como foi o progresso? Difícil ao início não foi? Não tiveram que que por mais de uma vez perguntar como é que se fazia isto ou aquilo e não tiveram de pedir ajuda a um gamer mais experiente para vos passar aquele nível mais difícil?

Antigamente o muro era tão pequeno e os jogos tão simples e com poucas mecânicas que basicamente saltávamos por cima dele sozinhos. A barreira de entrada para o mundo dos videojogos foi crescendo ao longo dos anos e agora em 2023 é um muro de 10 metros. Está na altura de abrir portas nesse muro, **e nós precisamos de ser essas portas de entrada.**

Os jogos atualmente são muito mais complexos e os desenvolvedores já nem perdem tempo com tutoriais muito detalhados porque assumem que maior parte já é conhecimento geral. O problema é que não é, e **é da responsabilidade de quem detém a** ***”literacia dos videojogos”*** **passar o conhecimento para os outros assim como o passaram para nós.** Só que hoje em dia não chega passar uma folha A4 com os cheats do San Andreas, principalmente quando é tão difícil sequer perceber por onde começar.

**E é aqui que nasce a ideia dos Novos Hábitos, como uma maneira de documentar o progresso da minha namorada e servir de motivação para quem quer dar uma oportunidade aos videojogos.**

O objetivo é criar uma comunidade em que o principal objetivo é tornar os jogos mais acessíveis para as pessoas à nossa volta e com isto fazer crescer a comunidade gaming em Portugal, e assim já podem ver os torneios de esports com a vossa pessoa especial ou com a vossa família.

Podem acompanhar-nos no nosso canal do [youtube](https://www.youtube.com/@osNovosHabitos). Já têm lá o primeiro jogo que ela jogou que foi o Portal (2007), **o jogo ideal para primeiro jogo.**

Também criei este sub r/novoshabitos com a ideia de existir um lugar onde qualquer um possa **partilhar connosco as suas experiências a por o seu parceiro, pais, avós, primos ou o gato a jogar um videojogo pela primeira vez** (até pode ser a nova forma de namorico: *”Não queres vir para minha casa que eu ensino-te a jogar portal?”*)**.** E também para que possa ser um lugar onde consigam colocar perguntas sobre videojogos a pessoas mais experientes (Como por exemplo o cheat de dinheiro infinito no Sims4), partilhar memes, noticias e tudo o que achem relevante.

# Observação importante:

Sei que isto é um problema que tem pouca relevância comparado às pessoas que têm de se preocupar com o que vão pôr na mesa para comer, mas esta ideia passa mais por ser uma forma de entretenimento e de **dar aquele empurrão a quem talvez de outra forma nunca desse uma oportunidade aos videojogos.**

Os jogos no fundo conseguem ser uma forma de escape à triste realidade em que vivemos e ao bombardear de informação e tragédia que recebemos todos os dias pelos media convencionais.

Não há nenhuma boa altura para começar a jogar, e quem não tem os meios para isso ainda pior, mas vivemos na época menos pior, com a quantidade de jogos gratuitos de grande qualidade, hardware a um preço mais baixo e consolas realmente em stock, se não for agora não é nunca.

Para alguns pode requerer algum investimento que não é possível mas podem simplesmente acompanhar os nossos vídeos ou lives no YouTube e na twitch, **a vossa companhia é muito bem-vinda.**

# TLDR:

A minha namorada nunca jogou um jogo. Fui à procura de saber porquê. A razão era muito mais complexa do que o que eu pensava. Tive a ideia de fazer um documentário sobre isso e tentar oferecer uma solução para combater esse problema. Daí o início dos Novos Hábitos, um canal do youtube onde vou documentando todo o progresso dela a aprender a jogar jogos e a comunidade no reddit para ajudar todos os que queiram dar uma oportunidade aos jogos.

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https://reddit.com/link/127k5v7/video/t4re6npxi2ra1/player

*Obrigado por nos darem um bocadinho do vosso tempo. Vemo-nos por aí ✌️*

***Ass.: Ângelo & Francisca***

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14 comments
  1. Não consegui ler tudo… foi a minha esposa que comprou a Switch que temos lá em casa.

  2. Deixa lá, tudo tem resolução; só o “bater as botas” (por enquanto) é que ainda não.

    Por exemplo; a minha segunda (e actual) esposa nunca tinha fumado um cigarro, quanto mais tomado um Lsd.

    Agora adora o Lsd heheheheh

    Moral da história; vamos sempre a tempo..

  3. Há bué de gente que nunca leu um livro, de ambos os sexos. Nunca ter jogado um jogo nem me choca tanto como isso.

  4. eh pah o pessoal costuma ter epifanias aleatórias por aqui, mas nunca deste tamanho.

    edit: ah w8 é promoção.

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    estás a fazer um filme para algo que é mais frequente do que pensas. São frutos da época.

    Tal com até à pouco tempo não se considerava os livros de banda desenhada como algo interessante para fazer adaptações para filmes até que começaram a aparecer pessoas no mundo do cinema que cresceram a ler BDs e a perceber o teu potencial. E os jogos é a mesma coisa. A maioria das coisas normais agora foram de nicho durante muito tempo. Olha na música.

    ​

    Tal como até há uns 4 ou 5 ano ver anime era coisa de crianças ou super de nicho e agora é muito espalhado e os jovens de agora já é muito mais mainstream. Apesar de que muitos desenhos animados icónicos em portugal durante várias décadas eram japoneses: Heidi, Marco, Tom Saywer, Abelha Maia. Até estou a dar estes exemplos porque há muitos que já são largamente conhecidos.

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    mais e recentemente descobri que há pessoas portuguesas que vêm dramas koreanos e nunca vi um à frente.

  5. Engraçado.
    A minha mãe era tão viciada no jogo da Mrs Pacman para a Mega Drive como eu (sou rapariga btw). Comecei a jogar jogos no Windows 95 com o meu pai.

    Agora em adulta não quero saber dos jogos para nada, perdi o interesse todo. Não gosto da cultura nem da mentalidade subjacente aos vídeojogos nem tenho paciência para isso

  6. A memória pode falhar mas penso que comecei a jogar com 9/10 anos The Sims 2 por causa da minha prima. Mais tarde já com 14/15 vim a conhecer os RPG’s por causa dela também. Desde então jogo sempre que posso e faz parte da minha rotina, como ver uma série, cozinhar ou ir ao ginásio.

    No entanto, de vez em quando ouvia coisas como “isso é coisa de rapaz”, “isso é infantil”, as minhas amigas franziam o sobrolho. Agora com 27 anos a minha mãe ainda acha estranho eu jogar “ainda brincas?”. Acho que socialmente ainda é uma coisa mais aceite no sexo masculino (não que seja nenhuma desgraça.)

    A maneira como educamos as crianças infelizmente ainda depende muito do sexo com que nascem. Generalizando mas não deixa de ser verdade, aos rapazes damos bolas, puzzles, carros. Às meninas damos bonecas, cozinhas de brincar, etc. É a mesma lógica dos videojogos, acontece um pouco inconscientemente mas quando olhamos com mais atenção percebemos a influência que isso pode ter.

    Boa iniciativa! 🙂

  7. Ela não quer jogar, quer é pin********r!
    Claramente gastas o teu tempo no Reddit e jogos em vez de lhe dares o que ela quer.

  8. >Antigamente o muro era tão pequeno e **os jogos tão simples** e com poucas mecânicas que basicamente saltávamos por cima dele sozinhos. A barreira de entrada para o mundo dos videojogos foi crescendo ao longo dos anos e agora em 2023 é um muro de 10 metros. Está na altura de abrir portas nesse muro, e nós precisamos de ser essas portas de entrada.

    Deixei de ler nesta mentira. Antigamente todos os jogos eram *dark souls like*

  9. Ao ler o texto só consegui pensar numa coisa: mansplaining.

    Mas posso estar enganado!

    Força com o projeto!

  10. Tenho 38 anos e estou neste momento a aproveitar a minha baixa de gravidez para jogar God of War Ragnarok.

    Desde miúda que sempre joguei jogos, a exposição que tive foi a mesma que tinham os rapazes, nunca vi diferença nenhuma.

    Tinha amigas que gostavam de jogar e outras não, porque simplesmente não se interessavam.
    Não acho que haja muito mais a dizer sobre isto.

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