Opinião impopular, acho que o grande sucesso disso é diminuir o consumo na rua e consequentemente menos seringas na rua. Gostaria de saber o rácio de sucesso de fazer com que as pessoas deixem de consumir tais drogas ou equivalentes, mas desse rácio nunca falam nestas noticias. Honestamente acho que há malta que sai de certas drogas e fica nas fornecidas pelo estado para sempre, mas posso estar enganado.
Conheço várias pessoas que tem uma vida activa e são membros produtivos da sociedade e, porém, dependem da metadona dos programas de substituição de opiáceos. Há 20 anos atrás estariam dependentes do crime para sustentar o vicio na heroina..
Como estou a ver algumas reações mistas, gostava apenas de partilhar a minha experiência de médico que trabalha na área:
1. No início da década de 90, estimava-se que cerca de 1% da população portuguesa (quase 100.000 px) sofria de doenças relacionadas com o consumo de drogas injectáveis – dizem colegas mais velhos que entrar em casais ventosos e locais do género parecia um cenario de guerra, com mortos e moribundos pelo chão, entalados em buracos e sarjetas, mas em vez de balas tinham seringas espetadas nos corpos;
2. Desde os anos 70, com a assumida guerra às drogas iniciada por Nixon nos EUA, a maioria dos países seguiu o exemplo e começou a tratar toxicodependentes como criminosos, levando ao encarceramento de milhares que apenas agravaram os consumos na prisão, tornavam-se efetivamente violentos para sobreviver ao meio (os que sobreviviam) e saíam para as ruas ainda pior do que entraram;
3. A dependência é uma doença. E não é só psicológica. Há reações químicas que alteram o funcionamento das vias neuronais e alteram o pensamento do consumidor (dependendo muito do tipo de substância, da variabilidade de cada pessoa, do tempo e modo de consumo etc) – e para quem ache que essas pessoas devem ser culpabilizadas por se terem “submetido” a isso, então por essa lógica não tratávamos obesos com distúrbios alimentares, fraturas no seguimento de desportos radicais, infeções no seguimento de modificações corporais, infeções sexualmente transmissíveis, etc. etc.
4. Se um consumidor está doente, tem de procurar ajuda médica. Mas se essa doença for considerada crime, tem de se submeter às consequências legais que a acarretam, ou seja, ninguém procura ajuda médica e isola-se cada vez mais nos seus problemas.
5. Portugal descriminalizou as drogas no fim da mesma década, na altura para incredulidade e até gozo da comunidade internacional. Esperava-se um aumento descontrolado do consumo que os dados nunca comprovaram. A possibilidade de adquirir tratamento tendencialmente gratuito pelo SNS com acompanhamento médico, psicológico e mais tarde a criação das salas de consumo assistido diminuiram, na realidade, o consumo e praticamente acabaram com as overdoses.
6. 20 anos depois, Portugal é considerado um case study nesta área. Vários outros países enviam emissários e cientistas para aprender sobre a temática cá. Encorajo a consulta do site do SICAD para consulta de dados e documentos produzidos nesta temática.
Os comentários que mais ouvia quando trabalhava na área da toxicodependência: o problema não é a droga, são as cenas que lhe metem para fazer o corte 😐
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Opinião impopular, acho que o grande sucesso disso é diminuir o consumo na rua e consequentemente menos seringas na rua. Gostaria de saber o rácio de sucesso de fazer com que as pessoas deixem de consumir tais drogas ou equivalentes, mas desse rácio nunca falam nestas noticias. Honestamente acho que há malta que sai de certas drogas e fica nas fornecidas pelo estado para sempre, mas posso estar enganado.
Conheço várias pessoas que tem uma vida activa e são membros produtivos da sociedade e, porém, dependem da metadona dos programas de substituição de opiáceos. Há 20 anos atrás estariam dependentes do crime para sustentar o vicio na heroina..
Como estou a ver algumas reações mistas, gostava apenas de partilhar a minha experiência de médico que trabalha na área:
1. No início da década de 90, estimava-se que cerca de 1% da população portuguesa (quase 100.000 px) sofria de doenças relacionadas com o consumo de drogas injectáveis – dizem colegas mais velhos que entrar em casais ventosos e locais do género parecia um cenario de guerra, com mortos e moribundos pelo chão, entalados em buracos e sarjetas, mas em vez de balas tinham seringas espetadas nos corpos;
2. Desde os anos 70, com a assumida guerra às drogas iniciada por Nixon nos EUA, a maioria dos países seguiu o exemplo e começou a tratar toxicodependentes como criminosos, levando ao encarceramento de milhares que apenas agravaram os consumos na prisão, tornavam-se efetivamente violentos para sobreviver ao meio (os que sobreviviam) e saíam para as ruas ainda pior do que entraram;
3. A dependência é uma doença. E não é só psicológica. Há reações químicas que alteram o funcionamento das vias neuronais e alteram o pensamento do consumidor (dependendo muito do tipo de substância, da variabilidade de cada pessoa, do tempo e modo de consumo etc) – e para quem ache que essas pessoas devem ser culpabilizadas por se terem “submetido” a isso, então por essa lógica não tratávamos obesos com distúrbios alimentares, fraturas no seguimento de desportos radicais, infeções no seguimento de modificações corporais, infeções sexualmente transmissíveis, etc. etc.
4. Se um consumidor está doente, tem de procurar ajuda médica. Mas se essa doença for considerada crime, tem de se submeter às consequências legais que a acarretam, ou seja, ninguém procura ajuda médica e isola-se cada vez mais nos seus problemas.
5. Portugal descriminalizou as drogas no fim da mesma década, na altura para incredulidade e até gozo da comunidade internacional. Esperava-se um aumento descontrolado do consumo que os dados nunca comprovaram. A possibilidade de adquirir tratamento tendencialmente gratuito pelo SNS com acompanhamento médico, psicológico e mais tarde a criação das salas de consumo assistido diminuiram, na realidade, o consumo e praticamente acabaram com as overdoses.
6. 20 anos depois, Portugal é considerado um case study nesta área. Vários outros países enviam emissários e cientistas para aprender sobre a temática cá. Encorajo a consulta do site do SICAD para consulta de dados e documentos produzidos nesta temática.
Os comentários que mais ouvia quando trabalhava na área da toxicodependência: o problema não é a droga, são as cenas que lhe metem para fazer o corte 😐