
Sempre que uma nova tecnologia se torna universal assistimos à mesma dinâmica: Depois de um momento inicial em que parece que vai revolucionar tudo para melhor sem qualquer consequência negativa, vem o momento em que se torna o bode expiatório de todas as coisas más, especialmente no que diz respeito às crianças e à educação.
O Sócrates (grego) [alertava quanto ao perigo da escrita](https://crossings.uwinnipeg.ca/index.php/crossings/article/view/113); Quando o Guttenberg inventou a imprensa, soaram os [alertas contra a confusão gerada pelo excesso de livros](https://www.linkedin.com/pulse/information-overload-17th-century-now-tapto-focus); Mais tarde, a difusão da Rádio foi [acusada de afastar os jovens dos ditos livros e de não os deixar dormir](https://reader.exacteditions.com/issues/32669/page/31). Muitos de nós ainda se lembrarão de ouvir que a Televisão nos ia tornar violentos e anti-sociais, antes de passarem a ser os jogos de vídeo a causar esse problema. E depois veio a internet, onde os nossos pais acreditavam que atrás de cada nickname do IRC ou do Messenger estava alguém que nos queria raptar ou expôr a pornografia.
Agora, previsivelmente, chegou a vez dos telemóveis. Já este mês foi aqui postada uma noticia sobre o Ministério da Educação estar a ponderar proibir smartphones nas escolas, não só nas salas de aula mas em geral, mas há escolas que já avançaram sozinhas. Vi [os 10 pontos de explicação do Agrupamento Gil Vicente](https://aegv.edu.pt/wp-content/uploads/2023/09/Telemoveis-10-Argumentos.pdf) e fiquei chocado com o que li, pelo que queria partilhar convosco as ditas fundamentações, e porque estão (quase todas) erradas.
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> 1. A restrição do uso de telemóveis na escola é um passo fundamental para termos uma escola mais livre, viva e ativa. Livre da dependência e alienação gerada por estes aparelhos; viva ao propiciar um ambiente mais saudável e reforçar a socialização entre as crianças e jovens; e, finalmente, ativa na medida em que fomentará a prática de atividades desportivas e culturais, tão importantes para a saúde;
R1 – Os pontos “livre” e “viva” são totalmente vazios. Só nos dizem que quem escreveu isto não gosta de telemóveis, ok, país livre, mas não são argumentos para banir telemóveis. O ponto “ativo” já seria um argumento, se não fosse totalmente falso. Nenhuma criança ou jovem deixa de fazer atividades desportivas ou culturais por ter telemóvel. O que acontece na realidade das escolas portuguesas é que 99% do tempo não há qualquer atividade desportiva ou cultural para praticar, e não vão surgir por magia só porque tiraram os telefones aos miúdos enquanto os continuam a depositar em recreios que são só um patio de betão. Isto é trocar o sintoma pela doença.
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>2. A utilização de telemóveis tem um forte efeito desestabilizador na escola. Dentro da sala de aula, constitui uma fonte de distração das alunas e dos alunos e perturbação do trabalho de todas/os. Fora da sala de aula, é um obstáculo à socialização das crianças e jovens, desincentiva a atividade física, alimenta práticas ilegais como captação de imagens e cyberbullying e coloca as crianças em contacto com conteúdos impróprios para as suas idades;
R2 – Dento da sala, concordo. Todas as pessoas sentem a tentação de falar com outras durante as aulas ao vivo ou por escrito, e o telefone permite comunicar de forma mais discreta e silenciosa. Ok, proiba-se na aula. Mas fora da aula? O telefone é tão atrativo precisamente porque é uma forma de socializar mais eficaz e abrangente. É uma forma de socializar diferente das que existiam antes, mas isso não é razão nenhuma para proibir. Não desincentiva a atividade física de forma nenhuma, pelo contrário, a possibilidade de filmar “stunts” até a incentiva (se calhar demais, ver pontos seguintes). O uso de telefones e o aumento da sedentariedade são duas consequências das alterações sociais e económicas que nos deixam menos tempo e energia para tudo, não são coisas que se solucionem proibindo um dos sintomas. O cyberbullying existe e tem de ser levado a sério. Proibir os telefones enquanto se deixam os miúdos sem direção só vai reforçar o Bullying analógico. Não é solução.
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> 3. A experiência revela que a proibição do uso de telemóveis exclusivamente dentro da sala de aula, como acontece atualmente na Escola Gil Vicente é pouco eficaz. Muitas crianças, sobretudo as mais novas, não resistem ao apelo dos telemóveis e não se consegue garantir o cumprimento da regra, afetando o ensino e a aprendizagem;
R3 – Se não conseguem impor a proibição dentro das salas, onde é mais fácil controlar, como é que vão impor no recreio? Isto é uma confissão de que a medida nem nas salas funciona, usada como argumento para expandir a medida que não funciona. Completo contrassenso.
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> 4. A utilização excessiva de telemóveis e outros dispositivos digitais está associada a vários problemas de saúde, como depressão e ansiedade, problemas de visão e físicos. Como tal, a escola deve contribuir para reduzir a exposição das crianças e jovens a estes dispositivos, em vez de aumentála. É obrigação da escola assegurar ambientes saudáveis, que não sejam propícios ao desenvolvimento de vícios nocivos à saúde, independentemente da sua natureza;
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> 5. A utilização de telemóveis não afeta apenas as crianças e jovens que os levam para a escola, mas também todas as que se relacionam com elas/eles, seja pelos conteúdos que podem visualizar, seja pelo risco de serem filmadas, seja finalmente pelo seu impacto no ambiente escolar e nos padrões de socialização;
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>10 . Os telemóveis são também instrumentos muito úteis e as crianças e as/os jovens devem saber trabalhar com eles. No entanto, essa aprendizagem não deve ser uma prioridade da escola. Ao contrário do que acontece com outras áreas do ensino, a atração natural das crianças por estes dispositivos, a facilidade com que os dominam e a sua disponibilização em casa torna desnecessário um incentivo por parte da escola à sua utilização.
R4, 5, 10 – Coloco estes todos juntos porque são relacionados. É verdade que os telefones são imensamente úteis, mas que o excesso de utilização, ou utilizações abusivas, estão ligados a vários problemas. Isto é um belíssimo argumento para colocar educação sobre os telefones, redes sociais, etc, no currículo escolar, ensinando os miúdos a usar bem os telefones e a defenderem-se de quem os use mal. O que não faz sentido nenhum é dizer primeiro que os telefones são a fonte de todo o mal e os jovens não lhes conseguem resistir por isso têm de ser banidos, e depois que eles já aprendem tudo sozinhos fora da escola por isso não é preciso falar disso na escola. Sinceramente, parecem os argumentos dos radicais religiosos contra a educação sexual nas escolas, convencidos de que é com proibições e silencios impostos que os filhos não passam pela puberdade e/ou descobrem se gostam de rapazes ou raparigas. Estas contradições mostram que o que está aqui em questão não é uma abordagem coerente mas uma simples repugnancia pessoal dos dirigentes em relação aos telefones (para os outros, eles certamente que usam).
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>6. Os telemóveis não salvaguardam a segurança das crianças e das/os jovens. Pelo contrário. Além de as/os exporem aos riscos associados às redes sociais, são uma fonte de conflito entre pares. Estes conflitos alastram frequentemente para fora da escola, afetando também as famílias e fomentando comportamentos agressivos entre si ou com a escola;
R6 – Sempre existiram riscos de conflito. Não foram inventados pelos telefones nem se afastam com a sua proibição. A minha escola secundária teve de fechar mais de uma vez porque grupos rivais tinham anunciado que iam fazer batalhas campais à porta, quando o smartphone se chamava pager. Proibir o telefone só tem um efeito de segurança: criança que precise de chamar ajuda no momento não o pode fazer.
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>7. Os problemas de indisciplina e de violência entre crianças e jovens, que resultam do uso generalizado e excessivo de telemóveis, obrigam a escola a desviar recursos que poderiam estar ao serviço de melhores fins;
R7 – Os problemas de indisciplina e de violência não resultam por normal do uso de telefones, é absurdo escrever isto. Todos os problemas que a escolha tenha vai continuar a ter, além dos extra que vai ganhar por ter exatamente os mesmos miúdos com exatamente os mesmos problemas em casa e/ou com os professores/pessoal da escola, mas agora sem poderem exprimir o que sentem escrevendo aos amigos, postando nas redes, gravando videos entre si, etc. Mais uma vez, confundir o sintoma com a doença.
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> 8. A interdição dos telemóveis não impede as/os alunas/os de contactarem com os seus encarregadas/os de educação ou de serem contactados por estes a qualquer altura. A escola tem à disposição formas de contacto que podem ser usados pelas/os alunas/os para falarem com os seus familiares;
R8 – Mentira feia. Um encarregado de educação telefonar para a escolar e pedir que lhe vão chamar os filhos, ou, no outro sentido, uma criança pedir a um auxiliar ou professor que lhes vá telefonar aos pais, são obstáculos físicos e sociais à comunicação muitíssimo superiores a trocarem mensagens no Whatsapp um com o outro no intervalo. O primeiro é para emergências, o segundo é para tudo. Se os diretores do agrupamento acreditam no que escreveram estão perigosamente alheados na realidade, mas provavelmente sabem que é mentira e estão a escolher criar barreiras na comunicação. Isto para não entrar nos cenários em os jovens precisem de chamar os pais por problemas que tenham com o próprio staff da escola, e sem abrir a questão à comunicação com pessoas além dos encarregados de educação (tios, irmãos, primos…) que muitas vezes é essencial para crianças em risco.
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>9. Restringir o uso de telemóveis não afasta as/os alunas/os da tecnologia. Esta faz e continuará a fazer parte das nossas escolas e as crianças e as/os jovens têm ao seu dispor computadores, com acesso à internet, e outros equipamentos para ouvir música e ver filmes na Biblioteca, com horário mais alargado neste ano. O uso excessivo de telemóveis tal como acontece hoje na maioria das escolas afasta as crianças da utilização de outros instrumentos tecnológicos fundamentais, designadamente os computadores;
R9 – Fechando mais um circulo dos pânicos de tecnologia nova, aqui temos o telemóvel como elemento que afasta os jovens das tecnologias que antigamente eram alvo do mesmo pânico. “Os jovens não podem usar a tecnologia do tempo deles, mas podem usar a do meu tempo” é total hipocrisia. É bom que existam bibliotecas com livros e filmes e música e computadores. Se forem atrativos, os jovens vão aproveitar, porque o telemóvel está lá sempre mas a biblioteca tem horas de funcionamento. Se têm um desktop com windows 3.11, umas k7 dos D’zrt, e umas VHS da pequena sereia, se calhar não vão usar, por muito que se proíba o telemóvel.
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**Conclusão**: Se já estava cético em relação a esta nova ronda de “new tech bad”, agora fiquei mesmo alarmado. O que temos aqui é uma série de considerações puramente de gosto pessoal, combinadas com uma responsabilização dos telefones por problemas que existiam, existiam, e existirão com ou sem telefones nas escolas. O único argumento sólido, que é o da distração dentro da sala de aulas, é apontado como um caso onde a proibição falhou! Nada aqui aponta para a criação de alternativas melhores para aplicar o tempo e energia dos jovens, apenas proibição na esperança de que eles passem mais tempo na biblioteca (que aposto que tem recursos para todos, mesmo que quisessem, não é?). Isto numa escola que, apesar de ter sido beneficiária de obras recentes do Parque Escolar, manteve o modelo de ocupação de tempos livres “[pátio de betão ao sol](https://pt.habcdn.com/photos/project/medium/exterior-3809.jpg)”.
Pior, tudo isto surge dentro de uma tendência para um maior isolamento real e concreto das crianças e jovens, que já vem de antes da pandemia e só se agudizou desde então. Os pais proibidos de acompanhar as crianças mais pequenas sequer nos primeiros dias de jardim infantil, proibidos de visitar a escola, sujeitos a marcações para falar seja com que for, e agora sujeitos à boa vontade e disponibilidade dos auxiliaries e professores (já sobrecarregados) para sequer saberem como estão os filhos. Estamos a criar um barril de pólvora com instalações em decadência acentuada, equipamentos defeituosos ou em falta, rácios cada vez piores de número de alunos por adulto, adultos cada vez mais sobrecarregados de tarefas burocráticas, e abordagem quase prisional em relação aos pais e alunos. Tudo isto justificado com o papão de que entram estranhos nas escolas para raptar crianças, ou os pais batem nos professores, ou os jovens são violentos e indisciplinados (ou não fazem desportos inexistentes) por causa dos telefones.
Dir-me-ão, pela experiência anterior desta discussão, que as crianças só precisam do pátio de betão ao sol e tudo o resto é luxo injustificado ou, pior, repressão dos instintos delas. Sinceramente, é uma atitude retrograda de “*no meu tempo é que era bom*”, ignorando tudo o que não foi bom mas preferimos esquecer. Se isso fosse verdade os pais deste mundo fora não gastavam fortunas com atividades extracurriculares. Com o sem telefones, se existirem atividades mais estimulantes, física ou mentalmente, a esmagadora maioria das crianças vai optar por elas. O problema é que em Portugal não existem, e cada vez menos há dinheiro e gente para as fazer. Já ouvi até o argumento de que o telefone tira imaginação ás crianças, como no meu tempo diziam que a Televisão ou os livros do Tio Patinhas tiravam. Completa treta. Para o bom e para o cringe, basta abrir o YouTube ou TikTok para ver que os miúdos de hoje têm muito mais imaginação e capacidade para realizar as suas ideias do que nós velhadas tínhamos na idade deles. Filmam no telefone em vez de 8mm? Fixe, é mais barato. Podem dizer-me também que não diferença porque os miúdos vão arranjar forma de contrabandear telefones de qualquer forma e… sim, têm razão. Como se vê pelo caso da sala de aula, não podes dizer às novas gerações para fingir que a escrita/imprensa/rádio/internet não existe. Mas faz diferença porque vais estar a ensinar (mais) uma geração que as regras não são para cumprir, só para fazer de conta, e que se têm problemas com aquele aspecto da vida deles, é melhor esconder da escola, porque em vez de os ajudar só lhes vai levantar mais problemas.
Anyway, obrigado por virem à minha TED talk, ensinem os vossos filhos a usar bem os telemóveis, não sejam velhos tecnofóbicos com a cabeça enfiada na areia que isso não resolve nada e só os ensina a esconderem as dúvidas e problemas.
by VicenteOlisipo
1 comment
Ca puta de muro de texto. Espero que tenhas tido 20 a Filosofia.
Tendo lido a situação muito na diagonal, esta restrição primeiro foi pensada por motivos ideológicos e depois é que inventaram umas justificações para parecerem razoáveis.
É óbvio que o ponto de equilíbrio é proibir os telemóveis na sala de aula e permiti-los fora. No primeiro ciclo, é responsabilidade e interesse dos pais não fornecer telemóveis aos filhos. A escola não se deve meter nisso.