Críticos queixam-se de que a democracia interna está a diminuir na IL

by Jaktheslaier

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  1. Ainda não há uma facção interna organizada, mas a Iniciativa Liberal (IL), partido liderado por Rui Rocha, dá sinais de desmobilização e de um grande descontentamento que tem levado à saída de militantes, por considerarem que a IL não se assume como um partido liberal, e há mesmo quem afirme que “é um partido antiliberal”.

    Os críticos da actual direcção reclamam mudança no sentido de trazer uma “maior democraticidade, uma maior transparência e uma maior participação” dos membros e defendem uma clarificação. “A IL tem de ser um partido liberal a sério”, afirma Diogo Prates, que encabeçou a lista de deputados da IL pelo distrito de Setúbal, nas legislativas de 2019.

    É num ambiente de crispação e de descrença que vai decorrer este domingo, em Coimbra, o conselho nacional, que acontece três semanas depois das eleições regionais da Madeira. Nestas eleições, Rui Rocha falhou os objectivos eleitorais para o mandato 2023-2024 que previam a IL “crescer e eleger dois deputados”. A eleição de um único deputado também ajuda a desmobilizar o partido, que evidencia claros sinais de divisão que, contudo, não são suficientes para dar corpo a uma facção interna.

    Diogo Prates não esconde que tem uma profunda divergência em relação à estratégia da direcção e é categórico ao afirmar que a “IL não corrobora a visão dos autores liberais” com os quais se identifica. E aponta alguns exemplos que considera essenciais, num partido de matriz liberal, como a “separação de poderes, governos limitados e um sistema de pesos e contrapesos”. “Qualquer literatura sobre o liberalismo diz isso. E isso não está plasmado nos estatutos da IL”, sublinhou. E acrescentou: “A IL não é um partido liberal, é um partido muito pouco liberal e direi até mesmo antiliberal.”

    O liberal considera que não é aceitável que os membros da comissão executiva tenham direito a voto no conselho nacional, porque isso – frisa – “deturpa qualquer democracia interna no conselho nacional”. Lamenta que o partido não permita a realização de uma segunda volta, como acontece “em todos os partidos à direita do PS”, e defende que o líder dos jovens liberais tem de ser escolhido pelos próprios jovens e não pela comissão executiva.

    Afirmando que “há uma grande falta de rumo à direita”, o ex-conselheiro nacional lança um apelo aos militantes para que participem na convenção estatutária, marcada para o início de Dezembro, porque, do seu ponto de vista, promete ser “clarificadora para o futuro do partido”. “A IL vai dizer o que é que quer ser, se um partido liberal a sério ou se quer ser um partido liberal só a brincar”, declara. Numa crítica dirigida a Rui Rocha, afirma: “Não me interessa ter um partido como o Rui Rocha prometeu de 15%, que não pratica o liberalismo dentro de casa. Eu preciso que o partido seja liberal por dentro e depois, sim, podemos pensar nos 15%.”

    No mesmo registo, José Cardoso, que liderou uma lista à comissão executiva na disputa interna para a liderança, acusa Rui Rocha de não ter um “projecto político mais próximo das pessoas” e de “não procurar novos públicos”, uma crítica que a direcção do partido rejeita. O liberal diz que o partido precisa de uma “maior democraticidade interna” e pede “uma maior participação dos membros”, defendendo também que “um partido liberal tem de fazer política baseada no indivíduo do partido e não centrada nos órgãos”.

    Militante de base, José Cardoso vai apresentar na convenção do partido uma proposta de alteração aos estatutos, alternativa à proposta da direcção e que é subscrita por várias figuras da IL, como Tiago Mayan, Hugo Condesa, Diogo Prates, entre outros nomes. A separação de poderes, o fim das inerências da comissão executiva, que lhe permite ter direito a voto no conselho nacional, o direito à segunda volta e também impedir a acumulação de cargos de dirigentes com cargos nacionais são algumas das medidas que constam da proposta.

    Ao PÚBLICO José Cardoso admite que possa haver uma debandada de membros do partido, caso as questões que considera cruciais para haver uma mudança na IL não sejam aprovadas. Na opinião de um ex-dirigente da IL, a possibilidade de a direcção acolher estas propostas é diminuta, porque, acrescenta, a direcção vai querer controlar ainda mais o partido.

    Já Vicente Ferreira da Silva, co-fundador da IL, assinala, numa curta declaração ao PÚBLICO, que o “nível de democraticidade interna tem vindo a diminuir e não é expectável que esta tendência se inverta”. Por outro lado, realça que “num partido liberal é expectável haver respeito pela pluralidade de ideias, na IL parece ser um sacrilégio”.

    A direcção do partido desvaloriza as críticas e diz que os conselheiros nacionais poderão dar a sua opinião e contribuir para o debate na reunião do conselho nacional. Quanto ao rumo da IL, afasta uma modificação do ADN do partido e garante que Rui Rocha cumprirá a promessa de “expandir a mensagem a IL nos temas e no território, tornando a mensagem politica liberal mais próxima das pessoas”.

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