A minha ideia é combater um pouco as ‘misconceptions’ (desculpem não encontro o termo que se aplique em português, agradeço se alguém souber) que existem em certas áreas de trabalho. Nem que seja só aqui no Reddit.

As típicas ‘aquele trabalha no banco/empresa x ou y, ganha milhares e sai às 15h, essa malta não faz nada’ mas na realidade as pessoas fora da área não entendem as enormes responsabilidades e pressões que as pessoas que aparentam ter uma vida ‘fácil’ ou ‘folgada’ possam ter. Ou quantos anos queimaram as pestanas no curso ou desenvolveram problemas de ansiedade ou mesmo depressão para chegar onde chegaram, mas muitos só sabem que ‘os universitários só andam na borga e passeiam livros’.

Ou pode ser mesmo ideias erradas (muitas até engraçadas) espalhadas de boca em boca.

Por exemplo sou arqueóloga em Lisboa. Maioria das pessoas não sabe que em grande parte os arqueólogos trabalham em ambiente de obra, a acompanhar escavações feitas por uma empreiteira em projectos de reabilitação de imóveis ou construções de hotéis, ou em escavações de grande profundidade como as do metro. Isto é conhecido como arqueologia de salvaguarda.

Numa obra é comum ter sempre um engenheiro/a, técnico/a de segurança, fiscal de obra, encarregado e um arqueólogo/a.

E aqui desmistifico algumas ideia/opiniões mais comuns que tenho ouvido desde que comecei a trabalhar.

1- ”Epá encontraram uns muros lá do tempo dos reis e aquilo agora já não anda para a frente” – Só porque se encontram vestígios arqueológicos não quer dizer que a obra vai parar ou o projecto ficará sem efeito. Existe uma escavação e registo dos vestígios, muitos são desmontados/levantados após o seu registo. Alguns são até levantados em bloco e depois montados e expostos ao público. Grande parte dos sítios que ”dão bronca” são os sítios onde o dono de obra ou empreiteiro tentou-se safar, começando os trabalhos sem contratar uma empresa de arqueologia que o poderia ter informado previamente que consoante o projecto é muito provável encontrar vestígios naquela área e àquela cota.

2- “Apareceram uma data de mortos e vai ficar tudo parado” – A mesma coisa se aplica quando aparecem ”mortos”. É um trabalho minucioso e demorado, mas após o registo e o seu levantamento a obra pode continuar sem problema. Até digo mais, se área é avaliada com uma elevada sensibilidade arqueológica é muito melhor para um empreiteiro se encontrarmos **só** sepulturas, pois estas são levantadas e não afetam a obra posteriormente, o mesmo não se aplica quando se encontram estruturas, particularmente se forem de contextos romanos.

3- Vestígios preservados in situ – Os vestígios de grande dimensão que não podem ser desmontados/levantados muitas vezes são preservados in situ, ficando expostos, tornando-se arqueosítios, como são os casos do [Hotel do Corpo Santo](https://www.corposantohotel.com/sala-fernandina) ou [Eurostars Hotel](https://www.publico.pt/2017/10/28/local/noticia/no-campo-das-cebolas-vese-a-historia-de-lisboa-num-hotel-de-cinco-estrelas-1790549) e acabam por valorizar o imóvel/hotel. Outros casos são registados e tapados, podendo ficar à vista sob pisos de vidro ou tapado totalmente, mas dependerá caso a caso.

4- “Isso é do terramoto, foram todos soterrados vivos” – Ouço muito esta de velhotes. Muitas das sepulturas que escavamos não são só do terramoto. Aliás, eu não conheço ninguém que escavou sepulturas associadas ao terramoto, excepto em 2004 dentro da academia de ciências. Sabemos que muitos até foram sepultados em mar alto. Muitas sepulturas ou necrópoles estão associadas a igrejas, ermidas, conventos que possam já não existir hoje em dia, estas são de contexto medieval cristão. Depois temos também as de contextos romanos que nem sempre sabemos onde podem aparecer, apesar de habitualmente a norma será sempre fora da cidade, o mesmo acontece com sepulturas islâmicas da ocupação moura em Portugal.

5 – “Isso deve valer muito dinheiro” – Maior parte do que encontramos são fragmentos de cerâmicas, ossos de animais, cachimbos e sim por vezes moedas. Mas ao contrario do que possam pensar, as moedas mesmo que estas sejam romanas não valem grande coisa. Aliás podem comprar moedas romanas online por £30 que foram encontradas no Reino Unido com utilização de detectores de metais (Lá é legal utilizar e vender o que encontram, não é muito ético mas pronto).

6 – “Encontrei isto enterrado no meu quintal logo é meu” – Qualquer vestígio ou artefacto pertence ao Estado pois são considerados património nacional. Portanto não pertencem ao dono do terreno ou imóvel onde foram encontrados.

7 – “Epá nao ligues/contrates ninguém senão isto ainda atrasa” – Quando há um pedido de licenciamento de obra a Câmara é que é a entidade que exige um acompanhamento arqueológico ou sondagens (e um relatório arqueológico), quando este é necessário (dependerá das áreas e cotas de afectação). Hoje em dia, ao contrário do que era antigamente, se o dono de obra não tem acompanhamento arqueológico quando o é exigido pela Câmara e não entrega o relatório arqueológico a Câmara não irá passar a licença de habitação/utilização do imóvel até não o receber.

8 – “ Ah está a estudar arqueologia? Isso é para ir parar ao desemprego certo?” – ouvi esta duma mulher que mal conhecia, devia estar ressabiada com a vida. A verdade é que trabalho em arqueologia não falta, e não é só em Lisboa. As empresas de arqueologia estão sem mãos a medir para a quantidade de projectos (e alguns bem grandes tipo as obras do metropolitano) que têm. Enquanto estava tudo em confinamento/teletrabalho o ano passado, nós continuamos sempre a trabalhar em campo porque as obras não pararam.
Mas também é verdade que grande parte dos arqueólogos estão a recibos verdes. Eu percebi que se não tiveres uma especialização, tipo bioarqueologia/bioantropologia (os que escavam sepulturas e estudam o esqueleto e o contexto funerário, que é o meu caso) ou arqueologia subaquática vais ser mal pago, nem que seja pelo estado te limpar quase 50% do teu ordenado com IVA e IRS.

Acho que já me alarguei bastante. Mas é só alguns exemplos das ideias erradas da arqueologia.

Quais são as das vossas áreas? Acho que podemos todos aprender um pouco.

EDIT: não sei de onde apareceu aquela fotografia

44 comments
  1. Os médicos são todos ricos e corporativistas. É isso.

    PS: embora eu soubesse que uma das áreas de actuação da arqueologia era a preservação, não fazia ideia que era tão comum encontrar vestígios nas obras a ponto de ser uma das principais áreas de actuação.

  2. É uma pergunta um pouco ao lado.

    Mas devo confessar que desde criança sempre tive um fascínio pela arqueologia.

    Pelo lado do descoberta e restituição do passado.

    Qual foi o artefacto mais interessante com que já lidaste?

  3. Trabalho no McDonald’s
    1- só vai para o McDonald’s quem é burro e tira mas notas. Mentira. Existe alguns com cursos superiores a lá estar e existem pessoal que não foi para a universidade e são muito inteligentes e outros muito burros. Há de tudo.

    2 no McDonald’s ganha se mal. Ganhasse (no meu restaurante) mais do que o ordenado mínimo mesmo sendo funcionário ( rank mais baixo) recebes todas as horas extras e feriados. E picas cartão portanto saindo sempre a tua hora. Se ficares mais 10 min. Recebes os no fim do mês.

    3- qualquer pessoa consegue trabalhar lá. Mentira. Só alguém com uma grande capacidade de encaixe, de engolir sapos e de aguentar pressão fica lá.

    Este foram aqueles que me vieram à cabeça

  4. Na minha área há uma ideia exagerada de que somos muito cobiçados por mulheres.

    É certo que a reputação tem um fundo de verdade, existe um certo charme associado à ocupação que nos torna mais atrativos, e com ela um certo status que permite fazer inveja às amigas. Mas se fica mais fácil quebrar o gelo e que as mulheres se sentem mais inclinadas a tomar o primeiro passo e flirtar mais, continua a ser um processo, e certamente não ando sempre rodeado de muitas mulheres como alguns pensam quando descobrem a minha profissão.

    Sou engenheiro de dados

  5. Sou PT por formação e a ideia é que PTs são sempre gajos bombados e gajas com cu grande que só pensam em levantar ferro. A verdade é que existe muita ciência por trás do trabalho de PT que os clientes nunca têm acesso. Existe uma diferença enorme em termos de conhecimento entre os vários PTs e normalmente os que parecem mais seguros e confiantes para o público são os que menos sabem.

    Conheci vários PTs (alguns deles com décadas de experiência) que eram arrogantes nas suas posições e recusavam admitir que sequer existia a possibilidade de estarem a fazer algo errado. Uma boa forma de os identificar é meterem dois PTs a discutir algo e se algum não souber argumentar porque é que faz da forma de faz é uma enorme red flag. Digo argumentar no sentido de ter um fundamento por trás e não argumentar no sentido de “porque assim funciona melhor” ou “a mim deu mais resultados desta forma”.

    Outra coisa que acredito que muita gente sabe mas fecha os olhos é que a maioria das modas e das coisas populares no mundo do fitness são puro cocó. Body bumps, body combat, yoga e por aí fora devem ser vistos sobretudo como entretenimento e não como um método eficaz de atingir objetivos. Têm resultados? Sim, mas é como comparar andar de carro com andar de triciclo. Os dois são formas de transporte mas um é muito mais eficaz que o outro e permite ir bem mais além.

    Ainda sobre estas dinâmicas de grupo, elas têm efeitos específicos. Se queres aumentar massa muscular e vais fazer body pump podes passar o resto da tua vida nisso que não vais passar de um físico medíocre. És obeso e queres ficar magro com yoga? Boa sorte… Se querem saber se uma certa aula é adequada para o vosso objetivo perguntem aos PTs de sala que não dão essas aulas (porque os outros querem ter mais gente nas aulas quer ajude as pessoas ou não). E como sei que algumas pessoas dizem “mas o professor faz e tem um corpo X e Y” só vos relembro que eles não conseguiram esse corpo a fazer essas aulas.

    Como última nota lembrar que a esmagadora maioria dos suplementos é só desperdício de dinheiro. Uns porque não servem para nada, outros porque a pessoa não precisa de suplementação. Há muita falsa informação no mundo do exercício e qualquer bananas com uma página do instagram é capaz de mandar informação errada que é papada como se fosse mel. Até hoje ainda se ouve pessoas a dizer que querem tonificar o corpo. Tonificar não existe, o querem é reduzir massa gorda e aumentar massa muscular.

    Desculpas pelo rant

    Edit: ortografia

  6. Eu nem consigo explicar às pessoas qual é o meu trabalho, normalmente a misconception é não entenderem o que eu faço

  7. Misconception é ideia errada, não encontro melhor tradução. Poderias usar preconceito mas não é bem o mesmo.
    O trabalho que fazes é importantíssimo. E deve ser muito interessante.

  8. Ser engenheiro informático não significa que seja um expert em Facebook, Excel, ou que conheça todos os modelos de computadores e saiba como os arranjar.

    Parem de me fazer perguntas com: “Comprei o ASUS ZX123, é bom?” “Parti o ecrã o meu telemóvel, sabes arranjar?”

  9. Estou acabar engenharia mecânica e a minha familia ainda pensa que eu sei arranjar o carro quando tem um problema

  10. Quando digo que sou designer gráfico e multimédia as pessoas automaticamente assumem que sou um gajo todo alternativo que faz os desenhos para os flyers e anúncios e/ou associado ao marketing do género “foste tu que fizeste aquele post da rede social X e Y?”

    Odeio quando a família e amigos assumem que so porque sei fotografar e editar imagens que vou ser automaticamente seleccionado para tirar as fotos das suas festas / eventos a custo 0. Sou quase sempre convidado com essa intenção por detrás a muitas coisas e depois ficam muito chateados quando vou para la para ser convidado e não trabalhar.

    Também quero desejar um pinheiro no cu a quem pensa que a minha profissão é muito fácil e que não passa de fazer desenhos e logótipos e que por essa razão assume que tenho de receber pouco, aceitar exposição como pagamento e/ou dizer que conseguia fazer o que eu faço na boa mas apenas não se quer chatear a aprender portanto eu nao me importo de lhes fazer o favor.

  11. Sou professor, e persiste aquele mito que a componente lectiva é a única função do nosso trabalho, esquecendo tudo o resto que está subjacente, como preparar aulas, criar recursos, desenvolver projetos, etc.

    Como igualmente persiste a ideia de que é algo que basta saber da disciplina científica para ensinar, e que dominando os conteúdos é algo relativamente fácil. Não é, é profundamente complexo, quem procura simplificar ou não compreende este fenómeno, ou quer reduzir o ensino à algo que ele não é.

  12. Bom post.

    Na minha área já é difícil de explicar exatamente o que faço (nem a minha família sabe exatamente o que faço…) por isso já desisti. Digo somente que trabalho em IT, que é o mesmo que um neurocirurgião dizer que é somente médico. Assim evita-se explicações fúteis, perguntas com respostas complicadas e a malta percebe a área de trabalho.

    Relativamente ao IT: agora por ser a área hot do momento, eu sou do tempo onde não era bem assim e era sempre acompanhada com imensos chavões (somos os nerds, geeks, gente esquisita, o gajo informático, etc). E a esmagadora maioria do pessoal que eu conheci só fazia o seu trabalho e após isso ia à sua vida que não tinha nada de tecnológico ou geek, evitando até dizerem abertamente que trabalhavam em IT; poucos são os que têm um homelab ou fazem firmware nas horas vagas ou ainda andam nos usegroups a discutir com outros voluntários o porquê de terem introduzido a funcionalidade X no módulo Z de uma distro de Linux.

    Outra ideia errada é que por ser de IT todos sabem programar, todos sabem arranjar uma impressora e todos sabem trabalhar no sistema X, Y ou até Z. Tive colegas que eram brilhantes na sua área mas nem sabiam fazer tarefas mundanas e eu pessoalmente detesto impressoras e faxes, não me peçam para as arranjar porque a vontade é de as concertar com um martelo.

    Não, nem toda a gente ganha bem trabalhando nesta área, eu sou bem consciente disso. Já tive de ter 2 empregos para conseguir pagar contas, já tive de emigrar para conseguir melhorar o nível de vida e já tive suportar muitos sapos, muita estupidez e ignorância, sempre com um sorriso na cara. Trabalhar em IT hoje em dia, dependendo da área claro está, pode ser incrivelmente bem pago mas é preciso imenso esforço, trabalho e formação constante. E ninguém vê as longas horas de trabalho que muitas vezes são feitas (perdi o número de vezes que fiz 16h, 24h ou mais continuamente por causa de projetos mal paridos ou incidentes graves), só se apercebem quando algo não funciona.

    Por fim: paguem um copo ou um café ao vosso IT, pois sem eles o vosso departamento ou empresa estaria na merda profunda.

  13. Isso não acontece na minha área. É fácil de explicar à família e amigos o que faço.
    Até posso partilhar convosco.

    Tipicamente o meu trabalho consiste em escrever no computador, atender o telefone, imprimir papéis e ter reuniões. Além disso, uma vez por mês tenho de preencher um mapa de presenças.

  14. Boas, vou fazer copy-paste de um comentário que deixei no r/askengineers, mas não vou traduzir. A pergunta era semelhante à tua, mas apenas relativa a esta profissão.

    > How low the engineers are on the totem pole. I thought engineering was a prestigious, high importance career.

    > Turns out, most of the people I knew that were engineers and were doing very well (nice house, nice company car, very well paid job, in-demand skills), *were* engineers.

    > They *were* engineers, and then turned management 10 or more years ago, such that they are now mid/high level managers.

    > The engineers I know today that are still technical engineers are basically worker bees, easily replaceable when they get too expensive or times are difficult, and are barely above technicians (and often below). Myself included.

  15. Trabalho no estado, nem preciso dizer o que as pessoas dizem.

    Factos:
    Entrei por mérito e experiência em concurso, nunca tive cunhas.

    Tecnico superior e salário bruto abaixo dos mil euros e só hei de subir de categoria (+200€) daqui a 8 anos.

    Trabalho bem mais de 35 horas por semana.

    Os técnicos superiores nao recebem horas extra, porque é preciso fazer sempre uma requisição às finanças primeiro, portanto somos carne para canhão a fazer horas.

    A ADSE é paga por mim como qualquer seguro de saúde.

  16. Bom post! A minha amiga arqueóloga bem me disse que vocês eram conhecidos como “empata-obras”. Sempre admirei a vossa profissão, se puderes partilha alguma “descoberta” que te tenha marcado particularmente.

  17. Arqueologia é fascinante mas eu como sou do norte nunca fiz ideia da situação em Lisboa.

    Na medicina veterinária tens muitos, alguns dos mais comuns é:
    Se é veterinário tem que adorar os animais e salvalos sempre.

    Porque gastam algum dinheiro na saúde dos animais pensam que os veterinarios recebem bem e são ricos quando a maioria é mal paga.

    Aquela treta do Alfa e beta na hierarquia dos lobos para cães como tem que se ser dominante e que bater em animais é aceitável quando se portam mal (aqui é exactamente como a discussão se se deve bater a crianças para as educar)

    Carnivores significa que só comem carne e herbívoros que só comem ervas

    Et cetera

  18. Já tive várias carreiras.

    Repórter de imagem: esperar 12 horas para gravar um carro a sair de um Tribunal qualquer. Muito longe da minha ideia romântica de filmar em Beirute, debaixo de tiroteio.

    Copy writer: receber ideias desconexas por email ou whatsapp de um assunto chato, tentar criar uma narrativa, discutir com o cliente, mandar recibos, discutir mais, receber tarde, repetir. Pensei que ia trabalhar com prazos, receber a horas, sad lol.

    Argumentista: olhar desagradado enquanto um produtor nos pede para “aligeirar” um texto e mudar cenas nocturnas no exterior para interiores. Esperar que um Instituto se digne a olhar para um projeto com olhos de ver. Ficar sem trabalho meses sem fim. Repetir.

  19. Trabalho na S I B S e as pessoas acham que sei tudo sobre multibancos, cartões de crédito e que domino o mbway.

    Nenhum é verdade, de facto não trabalho com nenhuma dessas áreas e não conheço sequer quem o faça, não somos propriamente meia dúzia de gajos 🙃🤷

  20. “Eh pá que bela vida, fartas-te de passear!”

    ​

    Pois é, mas as pessoas não sabem o que é aturar as madurezas dos outros durante +/- 10 dias seguidos, quase 24H por dia. Eheheh…

  21. Sou tradutora.

    1. Não, não é por saberes falar uma língua que podes ser tradutor. Não me venhas dizer que te candidataste a tradutor no Netflix ou na HBO ou que a tua prima “também faz isso de vez em quando” porque sabe falar inglês.

    2. Nós não somos dicionários ambulantes que sabem o significado e a tradução de tudo (o contexto importa e recorremos a glossários, dicionários e a uma variedade de documentos durante o processo de tradução).

    3. Não, traduzir não se resume a passar de um texto na língua A para um texto na língua B (contexto, estilo do discuro, finalidade do texto, público-alvo do texto, implicações culturais, etc.).

    4. Traduzir não é algo fácil que qualquer um pode fazer. Enquanto tradutora formada na área da saúde e ciências e que trabalha (maioritariamente) com conteúdos dessas áreas, acreditem, não é fácil. Nós (ou pelo menos tradutores que se prezem) fazemos imensa pesquisa, não só para encontrar as traduções apropriadas mas também para entender o que estamos a traduzir, acabando por absorver conhecimentos de imensas áreas diferentes. É um trabalho exaustivo que requer muita concentração e capacidade de análise.

  22. Sou estudante de doutoramento em biologia celular/microbiologia.

    1. O primeiro é o típico “ah és engenheiro informático, o que se passa com o meu PC?”, mas neste caso é a família toda a enviar-me resultados de análises. Eu tenho que Google tudo porque realmente aprendi um pouco o que significava cada coisa, mas isso foi uma única cadeira na licenciatura da qual não tenho grande memória.

    2. As pessoas acham que somos todos super inteligentes, principalmente pessoas mais velhas. Não é preciso ser um génio, desde que saibas trabalhar, escrever, interpretar e discutir resultados, é suficiente. Quanto mais te focas numa área, mais “burro” ficas noutras. Eu posso saber muito sobre a minha tese, mas se me vierem perguntar sobre doença X, sei praticamente tanto quanto tu.

    Eu até ia falar na estabilidade, mas por esta altura já toda a gente sabe que fazer investigação em Portugal é andar a bolsas e a procurar trabalho/escrever aplicações para bolsas, no mínimo de 2 em 2 anos.

  23. Montador/Editor (ou o que quiserem chamar) aqui. “É só cortar e colar”, “ah isto é rápido, faz-se em um horinha” o equivalente a levar no mínimo 5h. “Epa pois, estás a pedir muito por isso, eu tenho um amigo que faz por menos em meio dia”.. entre outros como também pedirem-me para fazer grafismos e efeitos, o pior é quando é pessoal da própria área que diz estás bacoradas

  24. Sou médico dentista. E a maior parte das pessoas acha que tudo o que faço e caro e que sou rico.

    Tenho clínica na qual tem bastante afluência, felizmente, num mercado saturado.

    Levo 35€ por consulta e desses 35 só recebo 15€ o resto é para material. Podem achar que 15 por consulta e uma fortuna em 200 consultas por mês. Mas pago 45% ao estado (na totalidade) e muitas consultas não posso cobrar porque, ou são casos na qual se da “um jeitinho” (que me fodam por ser honesto e boa pessoa), ou casos de medicaçao que me tiram tempo de consulta e que não cobro (mas devia).

    Os médicos dentistas neste país estão abaixo de cão e não tem o respeito que tinham, há muitos charlatões, seguradoras que se aproveitam, e simplesmente mais médicos por população que vacas nos Açores.

    A minha área não é chapar massa e engloba uma componente médica agressiva que requer cuidados e análise risco/benefício. Portanto quando digo que tem de fazer um tratamento e não quer porque é caro, o risco, e com o passar dos anos ter de tirar o dente e reclamar que para por um novo que e mais caro. No entanto vão a worten na Black Friday, e gastam o que não podem numa tv oled que custava 499 e que agora custa 459€. Para essas pessoas isso não é caro. Mas por um dente que perdeu por desleixo e porque era caro desvitalizar, isso já é um abuso.

    E nem falo dos Chico-espertos que acham que são clientes e que tem razão. Não. Aqui és paciente e se te quiser mandar a merda porque as tuas cenas não são um risco, eu posso.

    Rant over

  25. Ser engenheiro mecânico não significa que sei arranjar o teu carro. Tambem não ando no roubo.

  26. Sou tradutor.

    Ideia errada generalizada: “qualquer pessoa consegue fazer o que vocês, tradutores, fazem; aliás, agora até há tradutores automáticos que fazem um trabalho ótimo”.

  27. Bioquímico aqui. Primeiro perguntam o que faz um bioquímico. Depois perguntam quando é que descubro a cura para o cancro, apesar de não trabalhar na área.

  28. Estou a estudar engenharia aeroespacial (ainda não acabei o curso). O pessoal pensa que aeroespacial é espaço, estão muito enganados. Há mestrado em espaço, mas também há mestrado em aeronaves e aviónica, e no caso concreto do IST, o mestrado em espaço é o menos desenvolvido. Relativamente pouca gente faz mestrado em espaço, pelo menos cá. Não, eu não vou trabalhar para a NASA só porque estou a estudar engenharia aeroespacial.

    EDIT: Acrescentar que só porque somos estudantes de engenharia aeroespacial (ou engenharia em geral) não quer dizer que não temos vida e passamos os dias a estudar. Somos pessoas normais, fazemos o que pessoas normais fazem.

  29. Estudo psicologia e o que não falta são pessoas a pensar que: – consigo adivinhar o que estão a pensar; – saber sempre que mentem; – que sou maluco, pq só um maluco “cura malucos”; – que como somos amigos eu vou dar consultas grátis (que é altamente irresponsável de nossa parte).

    Na minha área há mesmo imensas ideias erradas da realidade…

  30. Misconceptions – preconceitos (?)

    Trabalho na área da saúde na academia (não em indústria) e todos pensam que sei tudo de todas as áreas, familiares e amigos fazem todo o tipo de questões médicas que eu não tenho habilitação para responder. Pensam também que estou sempre próxima para descobrir a próxima cura para o cancro… Porque estas coisas não demoram quase décadas a serem postas no mercado.

    Também como emigrei desde cedo pensam que a vida “lá fora” é que é boa – uma das grandes vantagens é ter um contrato de trabalho permanente a uma idade relativamente jovem vs uma bolsa de investigação precária de 6 meses. De resto, a mesma luta continua – horas extras não pagas, só és reconhecido se publicas e, falando de ser emigrante, não tens o colo dos pais (renda e contas, apoio, etc)

  31. Uma coisa que leio muito, principalmente aqui pelo reddit sempre que o tópico está relacionado com casamentos, é que tudo é automaticamente mais caro só porque sim.

  32. Trabalhei como investigador, era visto de 3 formas:
    – Ou não fazia nada;
    – Ou estava a fazer estudos e simulações de tecnologia emergente nunca antes falada;
    – ou era um mega especialista em tudo sobre a área de ciência em que me inseria.

    Realidade: lia cenas, escrevia cenas, fazia estudos, simulações e tratava dados.

  33. Ser engenheiro mecânico e acharem que o curso tem alguma coisa a ver com carros ou perceber de carros.

    A malta é muito ignorante.

  34. 1- Que Medicina Geral e Familiar e Clínica Geral são a mesma coisa. Não. Nope. Nein. Non. Medicina Geral e Familiar é uma especialidade de 4 anos; Clínica Geral é um médico que não possui especialidade…

    2- Que a função de um médico de família é encaminhar para a especialidade hospitalar – tem problemas de ouvido o MF manda para ORL, de pulmão vai para pneumologia, etc etc. São bastantes as pessoas que vão ao médico de família e começam a consulta com “quero uma consulta da especialidade X” (sem dizerem sequer do que se queixam). Não é assim que funciona… A grande maioria dos problemas de saúde que chegam aos cuidados de saúde primários são resolvidos lá. Passam para cuidados de saúde secundários quando tal é decidido pelo médico de família (pelo melhor interesse do doente).

    3- Que os médicos ganham rios de dinheiro. Longe da verdade. Alguns ganham muito bem, sim (e matam-se a trabalhar para isso)… a maior parte não (por mais que se matem a trabalhar).

    4- Que os médicos causam prejuízo ao estado durante a sua formação, tanto que deveriam ser obrigados a dar X anos ao estado depois de terminarem a especialidade como compensação. É precisamente o contrário: estudantes de medicina pagam propinas e pagam-nas bem pagas, com professores que normalmente não são pagos para lhes ensinar; médicos internos servem de motor do sistema de saúde (1/3 dos médicos no SNS são médicos internos), fazendo turnos de urgência, vendo doentes, apresentando casos clínicos, estudos científicos, trabalhos, congressos… O médico interno não fica passivamente a aprender, muito pelo contrário, é um trabalhador do SNS a preço de saldo.

    5- O que constitui uma urgência (principalmente passível de observação em SU). Dava para escrever livros sobre isto… e [não é como se a culpa fosse só dos utentes](https://observador.pt/2021/12/29/sns24-entope-urgencias-com-doentes-com-sintomas-ligeiros-ha-casos-encaminhados-para-confirmar-auto-teste-com-novo-pcr/)…

    6- Que, agora que a diabetes / tensão / colesterol estão controlados, posso deixar de tomar a medicação para isso. A sério, muitas pessoas pensam assim.

    7- Que fumam enquanto quiserem e quando quiserem deixam de fumar. Todos começam assim…

    8- Que é “obrigatório” / boa prática fazer análises pelo menos de 6 em 6 meses, mesmo que se seja saudável como um bebé. Existem alguns programas de saúde / prevenção primária com análises / exames específicos periódicos, sim – mas para esses foi determinado que o custo-benefício era vantajoso. Fazer uma bateria de testes a tudo e mais alguma coisa, sem sinais / sintomas que a justifiquem, a cada semestre é só atirar o dinheiro à rua na esmagadoríssima maioria dos casos…

  35. Em relação ao curso profissional – Que era um curso para palhaços e que quem tira cursos profissionais são pessoas burras.

    Em relação ao trabalho – A maior parte da minha vida profissional foi na restauração e era comum acharem que comia bem no restaurante onde trabalhava…o que é mentira, nunca tinha comido tão mal na minha vida, era comum no intervalo da tarde fazer um lanche reforçado para não ter de jantar no restaurante (normalmente quando chegava em casa à noite, fazia outro lanche), às vezes fritava salgados (que eram feitos fora dali) para o meu sector e punha mais meia dúzia para eu comer (foi muitas vezes o meu almoço), a comida de lá era “comestível” a maioria das vezes, mas não era boa, já chegaram a servir comida estragada ao pessoal, sendo que numa das vezes, deu uma bela diarreia para vários funcionários.

  36. Que por ser de Direito tenho de conhecer e saber de cor todas as leis.

    Que a ADSE é um benefício espetacular. A ADSE é paga pelo trabalhador e não vale aquilo que custa. Ficam mais bem servidos com seguros feitos no privado.

  37. Sou engenheiro informático há cerca de 5 anos, considero me um programador acima de razoável e gosto bastante do que faço mas o meu conhecimento por tecnologia/computadores/gadgets/geek stuff é muito elementar e tenho muito pouco interesse em o explorar mais.

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