
Tenho visto os debates políticos e apercebi-me que muito raramente se fala de educação.
O único debate político que vi a ser abordado o tema da educação, foi o debate entre o PSD vs IL e tanto um como outro foram breves e falaram vagamente sobre o assunto. Acho que faz falta ao país falarmos sobre Educação e senti-me na obrigação de fazer este post. Vou tentar ser o mais imparcial possível.
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A educação é o principal factor para melhorar a mobilidade social ([nesta entrevista explica a relação entre educação e a mobilidade social, entre outros temas](https://www.rtp.pt/play/p9467/conversas-sobre-o-futuro)) e um dos fatores principais para um crescimento económico sustentável e duradouro.
Vou abordar o tema do sistema de educação da Estónia, pois acho que é o melhor exemplo a seguirmos, já como o Steve Jobs dizia: “We have always been shameless about stealing great ideas”
A Estónia teve mais de 50 anos de ocupação soviética e ditadura comunista. O legado deixado pela era comunista foi desastroso. No início da década de noventa o GDP/capita da Estónia era $3,500, na mesma altura, Portugal tinha um GDP/capita de $10.000.
Em 1992 a economia da Estónia contraiu em 20%. Nessa altura, decidiram desenvolver um novo modelo para o país. Hoje, a Estónia tem um GDP/capita de aproximadamente $23,400, ultrapassando Portugal ($22.500).
Tem uma das taxas mais altas de empreendedorismo na Europa em relação à sua população: 23.6 empreendedores / 1000 habitantes, em contraste a Europa, que tem 3.8 empreendedores / 1000 habitantes. (eurostats)
Segundo o [World Economic Forum](https://www3.weforum.org/docs/Global_Social_Mobility_Report.pdf), em termos de mobilidade social a Estónia tem vindo a melhorar e está agora em 23º lugar, ultrapassando Portugal, que está em 24º.
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**Qual é o motivo do seu sucesso?**
O principal factor para o sucesso da Estónia, para além de algumas políticas fiscais e sociais, foi a sua política de educação.
A Estónia tem hoje o melhor sistema educativo da Europa e o segundo melhor do mundo, ficando atrás apenas de Singapura, segundo o [relatório PISA](https://www.oecd.org/pisa/Combined_Executive_Summaries_PISA_2018.pdf) feito pela OCDE.
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[Relatório Pisa, OCDE](https://preview.redd.it/u99bvuwup8b81.jpg?width=969&format=pjpg&auto=webp&s=0af18c1c2d4bf87f32aef28bdad7dfbf1188281b)
O sistema educativo da Estónia tem:
* a maior taxa de sucesso de alunos de famílias com baixos rendimentos;
* a menor diferença de sucesso escolar entre alunos de ambientes rurais e urbanos;
* a taxa mais baixa de “chumbos” da ocde;
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O mais curioso disto tudo, é que segundo outro [relatorio da OCDE](https://www.oecd-ilibrary.org/docserver/5e4ecc25-en.pdf?expires=1641917819&id=id&accname=guest&checksum=6C1B7810CB8C15B2CC935850728EF723), eles gastam menos em educação que Portugal.
Melhor ainda, a despesa pública por aluno está abaixo da média do EU23 e da OCDE. Há muitos outros países, incluindo Portugal, que gastam mais em Educação, no entanto, têm piores resultados.
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[Despesa total em educação por aluno em 2017 (em $ ajustado a diferença de preço)](https://preview.redd.it/uvloxy86q8b81.jpg?width=890&format=pjpg&auto=webp&s=7da4652e8e4c9bb58b22558cfee2d3b2ae584496)
Portanto, a solução não é gastar mais em educação, mas sim como gastar.
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# Modelo de educação da Estónia
**1) Independência das escolas e professores:**
Apesar de na Estónia todas as escolas terem de aderir ao programa de conteúdo mínimo deliberado pelo governo, o modo de aplicação do programa é muito aberto. Cada escola, instituto ou até professor, tem bastante independência em decidir o currículo educacional final e o método de ensino. (No ponto 2, explico porque é que ambos a escola e o professor são os principais interessados em que o seu programa seja um sucesso.)
**2) Financiamento das escolas:**
Na Estónia a educação privada é quase inexistente, mas por outro lado, as escolas públicas estão sujeitas a uma intensa competição.
A filosofia de financiamento das escolas funciona de forma semelhante à competição de mercado. Os fundos que as escolas recebem é determinado pelo número de alunos que atraem. Quanto mais alunos a escola tiver mais fundos ganha.
Por outro lado, os resultados académicos e as características de cada escola estão constantemente a ser avaliados e os resultados são públicos. Isto gera uma competição entre pais à procura de inscrever os seus filhos nas melhores escolas, que por sua vez leva a que essas escolas atraiam mais estudantes e recebam mais fundos.
Este processo também aumenta a pressão nos reitores e professores das escolas com os piores resultados, obrigando-os a melhorar.
Não é apenas uma questão das melhores escolas terem mais fundos. Os bons resultados, garantem a sobrevivência das escolas porque a Estónia, tal como Portugal, está em declínio demográfico. Nos últimos 15 anos o número de estudantes diminuiu 40%, e forçou o governo a fechar várias escolas. No entanto, só as escolas com piores resultados é que fecham.
**3) Autonomia de gestão de fundos**
Os reitores e administradores de cada escola têm um elevado nível de autonomia, no que toca a decidir, por exemplo: quais os professores que contratam, quais os salários dos professores e como distribuem os fundos que recebem do governo.
Portanto, é lógico assumir que quanto mais fundos as escolas recebem melhor salários podem pagar aos professores, o que incentiva os professores a melhorar o seu desempenho.
Outra vantagem da elevada autonomia das escolas é que permite a cada escola especializar-se em diferentes áreas, como: arte, economia, ciências, etc.
**4) Nível de competências e responsabilidades exigidas aos professores:**
Se os estudantes tiverem um mau resultado durante um longo período de tempo o professor, pode mesmo ser despedido. Mas para não ir tão longe os professores recebem uma formação constante e intensiva. Que os ajuda a melhorar o seu conhecimento,
conteúdo a lecionar, métodos de ensino e adaptação a novas tecnologias.
Em contrapartida os professores têm mais autonomia no ensino e influência na tomada de decisões.
**5) Integração das empresas nas escolas profissionais:**
O modelo de educação da Estónia está principalmente orientado para os negócios e a preparação para o mundo do trabalho. As empresas em conjunto com as escolas profissionais participam no desenvolvimento do currículo escolar para os estudantes que decidem seguir pelo ensino profissional. Os estudantes têm extensos programas de colaboração com as empresas, que permitem que entrem no mercado de trabalho com alguma experiência.
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Se concordam que o sistema de educação em Portugal está fragilizado e que a solução apresentada pela Estónia para educação é um modelo interessante para ser aplicado em Portugal, falem/tweetem/partilhem com os vossos representantes políticos, para que o tema possa ser abordado nos restantes debates. Todos queremos o mesmo, ter um país próspero e bem sucedido, e visto que outros países já passaram pelo mesmo e arranjaram soluções interessantes, porque não adaptar à realidade Portuguesa.
21 comments
Como é que é decidido que alunos entram em que escola?
Do género, a escola A tem os melhores indicadores, eu como pai quero por lá os meus filhos, mas na minha situação estão muitos outros pais, no entanto a escola A já só tem meia dúzia de vagas.
Na minha opinião, isso é muito semelhante ao que o il propõe. Porque pelo que disseste as escolas da Estónia funcionam como se fossem privadas (autonomia na contratação, salários, programa, …). Acho que a maior diferença é que o il propõe financiar os alunos com as propinas que a escola privada tem, em vez de um valor mais fixo e regulado pelo estado que deve ser o caso da Estónia.
>O modelo de educação da Estónia está principalmente orientado para os negócios e a preparação para o mundo do trabalho.
isto é mau.
>Os reitores e administradores de cada escola têm um elevado nível de autonomia, no que toca a decidir, por exemplo: quais os professores que contratam, quais os salários dos professores e como distribuem os fundos que recebem do governo.
isto é bom.
>Cada escola, instituto ou até professor, tem bastante independência em decidir o currículo educacional final e o método de ensino. (No ponto 2, explico porque é que ambos a escola e o professor são os principais interessados em que o seu programa seja um sucesso.)
isto pode ser bom ou mau.
algumas medidas podem ser aplicadas cá no burgo. mas acho que o objectivo da educação não deve ser a formação de trabalhadores. se a educação for suficientemente boa o aluno será sempre bom trabalhador.
Concordo totalmente que o sistema de educação português está fragilizado, no sentido em que está desatualizado perante a atualidade do séc. XXI. E sim, precisa de uma reforma muito importante, no entanto, bem estruturada e sustentável a longo prazo.
Relativamente à aplicação do sistema educacional da Estónia em Portugal, na minha opinião, não seria a melhor forma de fazermos essa reforma. Concordo com a integração das empresas nas escolas profissionais e com a liberdade de escolha de cada escola e instituto no que consiste a forma de ensino (tendo em conta conteúdo mínimo deliberado pelo governo). Temos que ter em conta que o interior de Portugal está cada vez mais envelhecido e pobre em recursos humanos e financeiros, essa competição existente entre cada escola poderia levar mais a esse empobrecimento.
O que está errado no nosso ensino, é a exigência em decorar e despejar a matéria nos exames e/ou testes. Desta forma não há espirito critico e empreendedor, por parte dos alunos. Falta também determinadas matérias importantes para o mercado de trabalho e para o quotidiano, como: Educação financeira, Política Social, Ciência Política, Inteligência Emocional, Comunicação, entre outras.
Corrige-me se estiver errado.
Mas o ponto 5 não é idêntico ao que a Alemanha também tem?
Ou seja, temos o tradicional ensino secundário e depois aqui há essencialmente 2 ramos, um que é mais universitário e outro mais de especialização, mais ligado diretamente a uma industria em concreto.
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A educação sofre de um problema que é a forma de lecionar (aqui falo mais em ensino até ao 12º).
É ainda ensinado de uma forma muito tradicional, numa ótica de professor fala e aluno ouve, pouca interatividade. Pode ser um problema geracional na carreira docente, ou mesmo dos próprios currículos.
Coisas do dia a dia, gestão de dinheiro, alguns básicos de literacia financeira preparam melhor as pessoas para a sua vida adulta.
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Agora, eu não andei em nenhuma escola no top 50 do país nem lá de perto, mas gostaria de saber de alunos que lá andaram como era o ensino lá? se havia alguma coisa diferente que se pudesse importar para as restantes escolas.
Acho que seria um debate interessante.
Qual é a culpa dos directores de escolas que estão perto de locais contextos desfavorecidos? Se essas escolas fecharem isso não vai forçar os alunos a deslocações maiores fomentando o insucesso?
Como se avalia a qualidade das escolas quando os contextos sociais dos alunos são diferentes e quando certas famílias têm dinheiro suficiente para gastar em actividades extra curriculares e explicações que são coisas que uma escola não tem qualquer controlo?
Ex-professora aqui (já trabalhei em AECs, passei recibos, tive contrato, já fui explicadora, professora numa faculdade privada 1 semestre e já dei formação profissional também)
Há pontos porreiros aí mas outros que não iam funcionar – essa dos professores serem despedidos se os alunos tiverem más notas é uma delas. Já dei aulas em escolas boas e escolas em que meu deus não havia um dia sem uma janela partida ou onde os miudos andavam à porrada constantemente. Acreditem que a culpa do aproveitamento ali não era do professor, mas infelizmente muitos alunos tinham falta de apoio enorme. Os professores faziam o que podiam mas quando em casa não tens apoio e na escola faz-se o que pode despedir o professor só ia fazer com que os professores inflacionassem as notas para não serem despedidos.
Acho que o maior problema da escola hoje em dia é mesmo que está focada para rankings – para estatísticas e muito pouco para o aluno ser feliz lá dentro ou ter objectivos. O objectivo é passar não aprender. Como professora adoro o modelo da Escola da Ponte e já tive oportunidade de visitar a escola e é um sossego maravilhoso. Os alunos estão focados, têm autonomia e são apoiados. Isso também tira um pouco o peso do professor que tem de estar sempre a planear aulas + materiais para “entreter” o aluno durante os 90 minutos e esmagar programas gigantescos dentro daquela janela.
Também sou a favor de disciplinas mais práticas e os alunos poderem escolher as mesmas tal como na faculdade – faz mais sentido um aluno poder escolher uma disciplina estilo Finanças da casa no 12º ano do que por ex. Sociologia quando nunca mais vai ver aquilo na vida (sim tenho trauma com sociologia no 12º ano… e psicologia) ou poder escolher no 1º semestre algo como Pesquisa e escrita de essays para quem vai para a faculdade. E isto pode ser ensinado pelo mesmo professor. Eu não tenho um curso de economia e tenho de controlar as minhas finanças + passei muito recibo verde e usei o google 😀 Mas acho que para os alunos ter algo que quebrasse com a rotina de sentar + ver materia + estudar para teste/exame era uma boa forma de motivar os alunos. Pelo que vi das aulas que dei, enfiar competitividade nos putos só faz com que estejam mais stressados. E já têm uma vida toda para isso 🙂
Por ultimo e não foi mencionado aqui mas nestas legislativas não vi nada sobre como resolver a falta de professores. Numa classe que está farta de ser maltratada, meter o peso dos resultados e de competitividade nos profs não sei se ia resultar. Mas não vejo nenhum partido com uma solução concreta anda tudo muito a evitar essa questão da: não-falta mas sim ausência-de-candidatura de professores. Porque professores há, eu sou professora mas estou noutro ramo há anos. E não quero voltar. Nem tanto pelo modelo que é injusto para os profs jovens que nem chegam às listas, mas porque não me apetece voltar a ser chateada pelos pais. E então se tivessemos esse modelo da Estónia estou mesmo a ver os pais a chatearem os professores com: mas esta escola é tão boa porque é que o meu filho tem notas más…. Ai nem me quero lembrar disso. São os meus 5 cents, não há respostas certas nem erradas 🙂
Escola da Ponte (Santo Tirso), escola portuguesa onde os alunos não têm turmas, e cada um avança ao seu ritmo, não há trabalhos de casa e quem decide quando é avaliado é o.proprio aluno.
Basicamente as aulas são sessões de estudo acompanhado por professores, os alunos decidem o que vão fazer propondo e comprometendo se com um planeamento semanal.
O feedback é que o aproveitamento está acima da média e os alunos gostam realmente de ir para a escola.
Isto sim era o que devia ser a generalidade do ensino em Portugal, antes de falar de investimento devíamos rever o método que é utilizado e os programas escolares, por exemplo o programa de educação fisica (a minha área) é de 2001, não é alterado e não é revisto há 21 anos, está completamente desfasado da realidade dos alunos hoje em dia.
Recomendo a leitura do projeto educativo da escola da Ponte. Na minha opinião o ensino devia ser assim.
Quanto ao ponto 1, concordo totalmente e sempre me incomodou em Portugal. Os maus professores que vão só ler o que está no livro e “próxima página” vão sempre o ser, mas os bons professores que querem ensinar de forma diferente são limitados e impedidos. Dito isso, ter cuidado que notas mais baixas não é indicador de um mau professor.
Quanto ao ponto 2,
>A filosofia de financiamento das escolas funciona de forma semelhante à competição de mercado. Os fundos que as escolas recebem é determinado pelo número de alunos que atraem. Quanto mais alunos a escola tiver mais fundos ganha.
A IL também propõe cheque-ensino, mas com integração de privados, e acho que escolas públicas ir-se-iam manter, mas ainda não li o programa. Uma das críticas que vi em discussões sobre isso por aqui é que assim as escolas privadas vão ser sítios para inflacionar notas. Eu digo que já acontece hoje com escolas públicas, que há escolas que presam pela qualidade onde as notas dos testes são mais baixas que as de exame, há escolas medianas e há escolas para alunos que só lá estão porque são obrigados e a única coisa que lhes interessa é passar os anos e exames com o mínimo de esforço, e ao inverso das escolas que mais se focam nas notas e deflacionam as notas, inflacionam-nas. Pondo isso de parte, pode ser então uma opção para quem acredita e concorda com a tal crítica, cheque-ensino mas continua a ser só escolas públicas. Já agora, alguém sabe se mais algum partido propõe um sistema cheque-ensino, seja público, privado ou ambos?
Quanto ao 3, também totalmente de acordo, as escolas já não servem para serem moldes pré-definidos para preparar dezenas de miúdos a trabalharem numa fábrica, se a escola acredita que há melhor maneira de gerir esses fundos, que seja, e com um sistema de cheque-ensino os pais e alunos podam mudar de escola se não quiserem, sendo essas pessoas também responsabilizados por ambos boas e más decisões e gestão.
Quanto ao ponto 4,
>Se os estudantes tiverem um mau resultado durante um longo período de tempo o professor, pode mesmo ser despedido.
É triste ter de dizer que estou de acordo, mas sim, os professores não são responsabilizados por mau desempenho e têm de ser para melhorar o ensino em Portugal, podem meter matéria que não foi lecionada num teste e mesmo abanar crianças na pré violentamente que nada lhes acontece. Em parte isto também é um problema com as leis laborais em Portugal, especialmente no que toca a incentivarem falcatruas como recibos verdes e contratos sem termo serem tão penalizadores para o empregador, novamente incentivando a fazer falcatruas e dificultando muito responsabilizar quem só coça os colhões.
>Mas para não ir tão longe os professores recebem uma formação constante e intensiva.
Viu-se bem com o início da pandemia, pessoas completamente desajustadas a usarem novas ferramentas e atualizarem o ensino. Na altura até disse e repeti: é bem feita as dificuldades que tiveram nesse aspeto.
Quanto ao ponto 5, acredito que continuar a explorar mais os cursos profissionais são sem dúvida um bom passo, Ciências e Tecnologias é útil para muito poucas e específicas situações e ambos CT e Línguas e Humanidades são demasiado abrangentes e gerais, acabando por não ter utilidade para além de entrar no ensino superior, que depois se não entrarem, não têm nada.
Com isso menciono, uma das razões pelo qual tantas pessoas vão para CT é porque não sabem o que fazer da vida, pelo que proponho ainda uma outra coisa, workshops em dias abertos às escolas, digamos uma semana dedicada a isso, tal como em algumas escolas existe a semana cultural, onde em vez de aulas têm atividades e workshops. Estes workshops e atividades são organizados e apresentados pelos alunos atualmente no curso (obviamente com os seus professores), os alunos mais novos tendo assim contacto direto com o que lhes pode ser interessante e divertido e os alunos dos cursos tendo experiência valiosa de organização, diálogo, apresentação e afins, e seria feito com cooperação entre as escolas locais para os alunos saberem todas as suas escolhas disponíveis. Estive num curso profissional e é exatamente por causa disso que digo isto, nós a apresentar aprendíamos e ganhávamos experiência valiosa, os alunos visitantes aprendiam melhor o que estariam a fazer e, como os meus professores quiseram muito saber de mostrar-nos possibilidades para prosseguir estudos no ensino superior, nós próprios passámos por isso ao visitar muitas universidades e politécnicos nos seus dias abertos, e não tenho dúvidas que o interesse muito mais elevado nas nossas turmas em comparação com o normal em seguir para ensino superior deveu-se em grande parte a ter-mos feito isso, e é também por causa dessas visitas que quase todos quiseram ir para o mesmo instituto como primeira opção, e não tenho dúvidas que também ajudou quem foi para lá e escolheu um curso relacionado com a área mas que fugia um bocado à escolha normal, pelo que viram as diferenças e conseguiram fazer uma escolha mais adequada aos seus interesses. Com isso, o mesmo dos workshops, atividades e dias abertos seria feito no secundário (ao longo do curso? só 12º? 11º e 12º?) para ensino superior.
Adicionalmente, diminuição da carga horária, a ideia que mais horas quer dizer mais trabalho e produtividade é antiquada, e aplica-se tanto ao ensino como ao trabalho. Para juntar ao tema, no japão as aulas acabam tipo às 15h, a diferença é que ficam na escola porque é normal terem clubes, ambos coisas que apoio. Dito isso, não é para importar tudo do ensino japonês, eles matam-se a estudar devido à cultura.
Por último, acredito que o sistema de ensino em geral é antiquado e não se adequa a uma melhor maneira de ensinar, de planos rígidos iguais para todos, mas também não acredito que há uma resposta concreta, certa e sabida ainda sobre o que é melhor, portanto acho sim que se deve explorar e investigar alternativas. [Isto](https://www.reddit.com/r/portugal/comments/s24f5k/como_melhorar_a_educa%C3%A7%C3%A3o_em_portugal/hsccy0f/), por exemplo. Até lá, mudanças como estas são passos no bom caminho.
> Tem uma das taxas mais altas de empreendedorismo na Europa em relação à sua população: 23.6 empreendedores / 1000 habitantes, em contraste a Europa, que tem 3.8 empreendedores / 1000 habitantes. (eurostats)
E o programa de e-residency afecta esse número como?
Optimo post.
Acho que o sistema da Estónia não precisava de ser seguido à risca, mas como em tudo há que saber adaptar.
Acho que o grande problema da educação é exatamente esse: a educação é vista como um problema e não como um veículo ou um serviço (tal como a saúde). Não existe interesse em que os jovens aprendam as disciplinas mas que aprendam a fazer exames.
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Focando principalmente no ensino secundário que considero ter um problema primariamente estrutural e cultural:
Criou-se quase um estigma e uma norma da progressão dos alunos e todos os casos que fogem desse standard são negligenciados:
Ter boas notas -> ir para o secundário “normal” -> fazer exames -> ir para o superior.
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disciplinas que não são foco de exames: negligenciadas
percursos de ensino profissional: negligenciadas (como costumo dizer, em muitos casos são tratados quase como os cursos dos “burros” que não querem seguir para o superior)
conteúdo das disciplinas que foge do programa? negligenciado.
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Esta lógica fez sentido forçar até ao fim dos anos 90 pois na altura qualquer pessoa com curso superior “tinha a vida feita”. Agora já estamos a caminhar para 2 décadas em que não é assim tão linear mas o sistema de ensino não se adaptou.
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Indo do fim para o início: existe demasiado foco no ensino superior que leva a negligenciar a qualidade das alternativas (daqui a pouco passa a ser obrigatório o que tornando gratuito o indiretamente tornará), existe demasiado foco no acesso ao ensino superior (tornam os alunos máquinas de fazer exames nacionais sem dominar intrinsecamente a matéria) e não existe valorização igualitária das disciplinas (ed. fisica, filosofia, etc.. são disciplinas “menores” que passam a ter menos horário, a deixar de contar para a média, etc…).
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Assim de uma forma imediata a melhor forma que vejo de tirar a dependência do superior com o objetivo de aliviar os alunos, professores e programas será através da separação quase completa do ensino obrigatório do superior. Em que o acesso ao ensino superior deixa de depender da média e apenas de exames que ou são definidos e requeridos pelas instituições em particular ou então através de uma entidade intermediária que gere o equivalente aos atuais exames nacionais que nivelam todos os alunos por igual. Estes só têm que fazer os exames necessários para se candidatar às vagas pretendidas usando o conhecimento que deveriam ter adquirido ao longo do ano. Assim as escolas teriam mais liberdade para se focar na qualidade do ensino obrigatório e não na necessidade de ter boas notas para não estragar o futuro de alguns alunos. Pois o acesso à formação superior ficaria totalmente dependente dos mesmos.
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Estou a focar neste assunto apenas porque acho que é uma das principais âncoras que inibe todo o sistema de evoluir. edit: em conjunto com todo o triste circo associado aos professores.
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tldr: considero um grande problema na evolução a educação o facto de se ter criado o ideal de que só as pessoas com canudo são bem sucedidas o que leva todo o sistema de ensino a circular esse ideal. Ideal esse que já está mais que ultrapassado.
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Sobre alguns falarem da proposta da IL para a educação ser semelhante, acho que o grande problema é que o que a IL resumidamente quer fazer é delegar o problema da educação nos privados na esperança que este melhore, o que em teoria pode funcionar, mas acho que olhando à nossa cultura o bicho que nasceria seria apenas uma mutação mais feia do que já temos agora.
A Estónia parece ser um bom exemplo e seria bom pegar se no seu modelo e estudar como poderia ser aplicado em Portugal. O problema é que isso e uma visão pragmática do assunto e no tugão tem que se ver como e que isto se insere na visão de cada partido. Por isso no fim ou fica tudo igual ou tens dois partidos a tentarem fazer leilão para ver a que amigos vão oferecer o ensino.
A educação é a base de praticamente todos os problemas que temos mundialmente, incluindo as alterações climáticas, parece estúpido mas é verdade. Se actualmente não se começa a praticar a educação correctamente então estamos condenados como raça humana.
Aconselho ouvirem a palestra do Jordan Peterson na Cambridge Union e vão perceber o porquê de eu dizer isto.
BTW óptimo post OP! Aumentar o awareness no que toca a educação em Portugal é urgente!! Este país precisa de mais brain power…
Também sou professor e vou deixar o meu contributo.
Circulou, há dias, a taxa de escolarização secundária de Portugal em relação aos restantes países da europa. A Estónia tinham em 1997 o dobro do que nós temos atualmente, por isso não é muito fácil proceder-se a uma apropriação do modelo, quando há uma discrepância enorme.
Por isso vou avançar com algumas ideias assim muito básicas (sem uma organização particular):
[1] Terminar com os rankings dos exames nacionais – estas publicações servem para reduzir a escola às notas dos exames nacionais, o que não tem grande cabimento, Se é para valorizar outro tipo de lógicas e opções pedagógicas, então é fundamental que a opinião pública não enalteça essencialmente os exames;
[2] valorizar os professores como efetivos profissionais, que têm um conhecimento próprio, em constante alteração – à semelhança de qualquer outra profissão, a docência resulta de conhecimentos de múltiplos domínios (há várias áreas científicas que lhe estão subjacentes), é fundamental que os professores tenham conhecimentos nessas áreas e que, por causa disso, possam tomar decisões informadas. Isto pressupõe que se deixe de dizer aos professores o que se tem que fazer e como se tem que fazer e que se dê tempo para eles fazerem isso, para não estarmos a correr de sala em sala, de documento em documento, sem tempo para nos sentarmos, pensarmos e planificarmos as coisas (individualmente e com outros colegas);
[3] valorizar as escolas com autonomia efetiva – Portugal anda há anos a discutir a autonomia escolar, desde o currículo às opções didáticas, à gestão dos recursos humanos (e financeiros). Porém ela não existe, parecendo, agora, estar-se nesse caminho, na realidade é que fora a década de 1980, o trajeto foi sempre diminuir a autonomia das escolas, estabelecendo mais e mais formas de controlo;
[4] valorizar o conhecimento específico da docência, promovendo um diálogo mais sistemático neste domínio – na realidade há décadas que se sabe que, em Portugal, há pouco hábito de os professores se envolverem, formalmente, na construção de conhecimento profissional na sua divulgação. Para termos um grupo profissional forte é necessário que os professores, nas escolas, investiguem e partilhem as suas investigações;
[5] promover uma relação mais sistemáticas das IES com as escolas básicas e secundárias – esta relação existe, mas não raras vezes está reduzida aos estágios, mas isso não é um efetivo diálogo. Noutros contextos há escolas básicas e secundárias que são quase uma parte da IES, em que os futuros professores podem explorar e envolver-se;
[6] aumentar a democracia interna nas escolas – se queremos educar democraticamente, os estudantes têm que vivenciar essa democracia, em contexto escolar;
[7] diversificar as opções e domínio curriculares – há uma hipervalorização de determinadas áreas – Português e Matemática -, uma desvalorização de outras e outras que nem representação têm, é preciso que as escolas valorizem a totalidade do conhecimento;
[8] diversificar as opções pedagógicas, didáticas e avaliativas – há muitas formas de pensar uma aula, há muitas formas de pensar a avaliação, há muitas formas de pensar as escolas como um lugar de aprendizagem, ainda assim, aquela que faz parte do imaginário comum é uma só. Deixaram já o exemplo da escola da Ponte e parece-me importante valorizá-lo, para reconhecer que as escolas devem ser lugares diferentes entre si, que não caem numa sequência monótona de opções repetidas de forma sistemática;
[9] implicar mais a comunidade nas organizações escolares – as escolas deverão viver com e na comunidade, sendo um lugar de diálogos e de valorização do conhecimento dessa mesma comunidade;
[10] reduzir a reflexão da educação em termos burocráticos e económicos e valorizar a reflexão pedagógica, também no espaço público – muitas vezes quando se olha para as questões da educação foca-se, essencialmente, em números, mas na realidade é preciso valorizar outro discurso, decorrende de um olhar sobre os processos em si, sobre os alicerces éticos associados, uma reflexão que seja emergente de um olhar pedagógico: deixo este trabalho https://www.rtp.pt/programa/tv/p39832/e29
A Estónia é bastante diferente de Portugal. Há uns anos participei num congresso lá e deu para ver que eles valorizam bastante a educação, é um assunto sério. Aí está logo a primeira diferença. Por cá, a escola é, em primeiro lugar, um depósito de crianças para os pais poderem ir trabalhar e, em segundo lugar, algo que se tem de penar por outro motivo qualquer (chegar à universidade, receber um subsídio, etc…). Neste momento, há cerca de 5 mil alunos em Portugal sem professor a todas as disciplinas desde o início do ano. Isso seria impensável nos países com melhor educação e demonstra bem como o próprio governo é o primeiro a desvalorizar a educação. Daqui até à indisciplina é um pulinho.
Depois, a população da Estónia é a coisa mais homogénea que eu já vi, não há imigração. Em Portugal, espera-se que o mesmo professor, na mesma sala e ao mesmo tempo, ensine 20 alunos portugueses, 1 indiano que não fala uma palavra de português e 5 ou 6 alunos que falam mais crioulo que português (e isto multiplicado por 5 a 10 turmas, consoante a disciplina lecionada). Todos estes alunos têm direito a aprender e há formas de os ensinar, mas, com este sistema, alguns ficam inevitavelmente para trás. Aqui é de salientar a ideia das escolas TEIP, que, se bem concretizada, pode ter resultados muito interessantes a responder a esta realidade (turmas mais reduzidas, horas extra para apoio aos alunos que mais necessitam e até mesmo currículos alternativos).
Passando agora à especificidade do ensino em Portugal, vejo vários problemas. Em primeiro lugar, a excessiva burocracia. Tem de haver um papel ou uma grelha excel para tudo, então o professor passa horas a preencher grelhas que vão apenas servir para encher um dossier: o RTP (Relatório Técnico-Pedagógico); o PEA (Projecto Educativo do Agrupamento); o PM (Pano de Melhoria); o PAE (Plano de Acção Estratégica); o PT (Plano de Turma); o PCT (Plano Curricular de Turma); o PEI (Plano Educativo Individual); as AC´s (Acomodações Curriculares); o PRA (Plano de Recuperação de Aprendizagens); a S/I (Supervisão/Intervisão). Isto é só uma amostra, todos documentos a preencher e a rever regularmente.
E para ontem, porque é ordem do diretor! Depois de fazer isto para 100 a 300 alunos, já não há cabeça para mais e as próximas aulas, onde até queríamos fazer umas actividades mais interessantes, lá vão ser dadas a seguir o manual…
Outra questão é a excessiva valorização do ensino teórico, em detrimento do mais prático. Os cursos de acesso ao ensino superior valem mais que os cursos profissionais; o Português vale mais que a Educação Física e o teste sumativo vale mais que uma apresentação oral. Quando os alunos passam tantas horas na escola, a oferta devia ser mais variada e desenvolver o máximo de competências possíveis. Hoje em dia, o conhecimento está acessível em qualquer telefone, o que interessa é o que se faz com ele. Desenvolver as várias literacias, aprender a comunicar, a ouvir e fazer-se ouvir são essenciais e bem podiam passar por momentos de educação informal, em que os alunos aprendem sem estar a “marrar” e podem estar mais à vontade: clubes dentro da escola, actividades em articulação com associações locais, etc.
Finalmente, avaliação. A dos professores neste momento resume-se a: és amigo da direção, então tens grande nota; és um contratado que está de passagem, aqui tens o mínimo e adeus. Injusto e desmotivador para quem não faz parte do quadro. Mas, enquanto não se mudar o funcionamento das direções da escola, duvido que se consiga mexer aqui. A dos alunos varia tanto de escola para escola que também é injusta. Se estás na escola A, então, se respirares, tens positiva, mas, na escola X, tens de fazer isto, aquilo e aqueloutro e ainda agradecer. De um lado, os alunos vão passando de ano sem ganhar competências e depois vemos alunos chegar ao secundário sem saber juntar letras (como poderão eles vir a ser empreendedores? Ou trazer valor extra para o seu trabalho? ), do outro duvido que o excesso de exigência (que ainda há em escolas com certos códigos postais) motive os alunos para novos desafios, nunca vi alunos tão desligados da escola como em certas zonas “finas”. É necessário traçar objectivos, metas concretas e diversificar os caminhos para que diferentes perfis de alunos lá cheguem.
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Longo desabafo de uma professora que veio ao reddit…
Desde que a morada do encarregado de educação seja aquela pode-se aceitar. Tem de ser é alguém responsável pela criança.
Claro que não falam da educação, a plebe não precisa de educação, o que precisam é de pagar os impostos trabalhar 12 horas por dia 7 dias por semana prestação da casa do carro e sempre de bolinha baixa…leva com algum futebol e as mulheres com novelas… Ta feito
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– Escolas com alta autonomia, bom.
– Integração com empresas, bom.
– Mais autonomia para os professores, bom.
– Há baixa correlação entre empreendedorismo e educação, alta educação não implica alto empreendedorismo ou até uma grande economia.
– Teres um alto ranking implica uma grande educação, e tratar os professores como subservientes destes rankings vai melhorar a classe ou a educação.
– Há aspectos na educação q são difíceis de medir mas importantes, como a sua felicidade na aprendizagem, integração na sociedade e a autonomia do individuo.
– A escola devia ser um espaço de exploração prático e não apenas um espaço para aprender o currículo do Estado.
– Contudo admito que os exames não deviam desaparecer.
Só li “raramente se fala da educação” se uma parte da população não vota pode ser ignorada
> A Estónia teve mais de 50 anos de ocupação soviética e ditadura comunista.
Os comunistas deram educação às pessoas, uma das poucas coisas boas que fizeram.
Há certamente muito a mudar no ensino português, pode-se sempre melhorar. No entanto, o grande problema do ensino não nasce na escola, mas em casa. A variável que melhor define, tanto cá dentro como lá fora, o aproveitamento de um aluno, é o nível de educação dos pais. E como já referiram aqui, mesmo os atrasados dos comunistas, que fizeram um porradão de asneira em quase tudo, como nós bem sabemos, conseguiram proporcionar à sua população um nível médio de ensino mais elevado que por cá. Ainda hoje estamos a pagar o atraso histórico da educação portuguesa, e isto nem é falando apenas do Estado Novo, porque se fez pouco mais que a 1ª República, que por sua vez fez mais que a monarquia, que não fez coisinha nenhuma.