Ora boa tarde

Como devem ter reparado, uma das noticias desta semana foi sobre os CTT e o Bloco de Esquerda. Já hoje saiu um artigo do Polígrafo sobre o assunto. Ora mais do que a rama-rama de um não-assunto que vai estar esquecido para a semana, este artigo deu-nos um exemplo *textbook* de como usar ligações pessoais e politicas, mais correções muito especificas, para transmitir ideias erradas usando apenas afirmações tecnicamente verdadeiras.

**TL:DR:** Num assunto cheio de declarações verificáveis por um fact-checker, o Polígrafo, expressamente a pedido do partido fundado pelo dono do grupo mediático a que está ligado, vem focar-se apenas em tecnicalidades inconsequentes para poder aplicar um rótulo de “Falso” a quem diz coisas inconvenientes, enquanto ignora todas as afirmações com efetiva relevância política e económica.

**Versão completa, vejamos**:

A noticia inicial, tanto quanto encontro, vem inicialmente do Jornal Económico: [Parpública compra ações dos CTT por ordem do Governo](https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/parpublica-comprou-acoes-dos-ctt-por-ordem-do-governo/). A ideia que se passa é que, entre 2020 e 2021, o Governo comprou ações dos CTT por exigência do Bloco de Esquerda, que quer reverter a privatização da empresa, e exigiu isso mesmo como condição de aprovar o Orçamento de Estado de 2021.

Logo de seguida o Vice-Presidente do PSD Miguel Pinto Luz pega no assunto e faz dele bandeira própria, afirmando que este acordo do Governo com o BE foi uma ação ilegal, imoral, e prejudicial aos contribuintes. Mais, vem responsabilizar o então Ministro das Infraestruturas, atual Secretário-Geral do PS, exigindo-lhe explicações. Afirma-o no Twitter, [nos jornais](https://www.noticiasaominuto.com/politica/2472707/ctt-compra-de-acoes-pela-parpublica-e-caso-grave-de-ma-gestao-publica), e mais tarde na televisão.

Ora no fim do dia de ontem, [precisamente na televisão](https://twitter.com/catarina_mart/status/1742673583216676999), a então líder do Bloco de Esquerda explica que não houve qualquer acordo do BE com o governo, que o BE votou contra o Orçamento de Estado de 2021, e aproveita para apontar o dedo às empresas e indivíduos ligados ao Governo que privatizou os CTT e que beneficiaram directa e indirectamente dessa privatização, especificamente a Eduardo Catroga, Carlos Moedas, Goldman Sachs e Grupo Champalimaud. Criticou ainda o encerramento de dezenas de postos dos CTT pelo país fora e a oferta de uma licença bancária juntamente com a privatização, que valia mais do que foi pago pelos CTT.

E é agora que entra em jogo o Polígrafo. Como? Com um artigo, [que os próprios dizem ser feito a pedido de Miguel Pinto Luz](https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/catarina-martins-diz-que-ha-dezenas-de-concelhos-em-portugal-sem-estacoes-de-correio-dos-ctt-tem-razao), onde vão analizar o quê?

* Quantas ações dos CTT foram compradas? Não, já se sabia que tinham sido 0,24% dos CTT.
* Se a compra foi feita por acordo com o BE? Não, já toda a gente sabia que o BE votou contra o OE2021.
* Se a compra foi ilegal? Não, já se sabia que não tinha sido.
* Se a compra foi prejudicial aos contribuintes? Não, basta ver o preço das ações e vê-se que valorizaram.
* Se o Eduardo Catroga esteve envolvido na privatização? Não, ainda alguém se podia lembrar que o memorando da troika foi assinado em casa desse Ministro das Finanças do PSD.
* Se o Carlos Moedas esteve envolvido na privatização? Não, esse é o próximo líder do PSD e é chato lembrar que fez um favor aos ex-patrões da Goldman Sachs e ainda meteu a mulher na administração dos CTT.
* Se a licença bancária oferecida aos CTT valia mais do que o que foi pago por eles? Não. Não sei porquê. É uma afirmação facilmente verificável para jornalistas, e de relevância politica e faz diferença se é verdade ou não. Eu não sei se é.

Ok, adivinharam, o Polígrafo, a pedido do Vice-Presidente do PSD foi ver se os CTT tinham efetivamente encerrado dezenas de postos, e concluiu que era mentira! Bem, quer dizer, concluiu quer era verdade, encerram 53 lojas e deixaram 33 concelhos sem nenhum posto, mas depois disso, já em 2021, e por exigência do Ministro das Infraestruturas, um tal de Pedro Nuno Santos, os CTT acabaram por reabrir mais 33 postos, ficando com pelo menos 1 por concelho. Portanto o encerramento é retractivamente mentira.

Mais há mais mentiras! Ao contrário do que afirmou a Catarina Martins, não se pode dizer que os CTT estão com o Grupo Champalimaud, porque eles apenas têm 13,73% da empresa, quando o maior investidor tem 14,99%. Com essa diferença de 1,26% não se pode dizer que o Grupo Champalimaud detém uma empresa onde é o 2º maior accionista, claro.

**Conclusão:**

A Catarina Martins só diz verdades? Lol não, nem de perto. Calhou este exemplo ser com a Catarina Martins só porque foi tão óbvio e tão condensado que era impossível não notar. A conclusão é que os fact-checkers, e em especial o Poligrafo, que é o mais famoso, podem muito facilmente passar ideias completamente erradas dizendo apenas coisas que são tecnicamente verdade. Usam um verniz de neutralidade e isenção para fingir que só estão a verificar um facto, mas a escolha dos factos que se dignam a verificar, bem como a forma como interpretam frases (ex: “deter” é “ter ações”, “ter todas as ações”, ou “ter uma quantidade influente de ações”?) permite-lhes manipular os rótulos de verdade e mentira. E quando estão dependentes de grupos económicos que não resistem a fazer favores a partidos, então… está o caldo entornado.

by VicenteOlisipo

12 comments
  1. técnicamente → [**tecnicamente**](https://dicionario.priberam.org/tecnicamente) (o acento tónico recai na penúltima sílaba)

    fácilmente → [**facilmente**](https://dicionario.priberam.org/facilmente) (o acento tónico recai na penúltima sílaba) [⚠️](/message/compose/?to=ngramatical&subject=Acho+que+esta+corre%C3%A7%C3%A3o+est%C3%A1+errada&message=https%3A%2F%2Fwww.reddit.com%2Fr%2Fportugal%2Fcomments%2F18ydi84%2Fcom_a_verdade_me_enganas_exemplo_dos_ctt_be_e%2Fkg9zpkx%3Fcontext%3D3 “Clica aqui se achares que esta correção está errada!”) [⭐](https://chrome.google.com/webstore/detail/nazigramatical-corretor-o/pbpnngfnagmdlicfgjkpgfnnnoihngml “Experimenta o meu corrector ortográfico automático!”)

  2. Nota do OP: eu também não sou neutro e isento de qualquer opinião prévia ideológica ou politica. Eu vejo que a privatização dos CTT foi um roubo e não tenho pejo de o dizer. E a da ANA outro, e a da EDP outro, e por aí adiante. O argumento aqui não é que têm de acreditar no que eu digo como verdade absoluta. Mas eu também não tenho um site onde digo que sou o exemplo máximo da neutralidade e que só cá ando a verificar factos.

  3. eu gostava era de perceber como [e queste nao assunto de 2020 se tornou tao relevante anos depois, uns mesinhos antes das eleicoes…

  4. Primeiro foi a IMI e IVA da casa do Montenegro, agora foi os CTT e o PNS.

    Qual será a da próxima semana?

  5. Bem esgalhado. No entanto, cometeste um erro crasso: escreveste uma coisa longa que é preciso ler e verificar, e isso não é prático na política de hoje. Não consegues resumir tudo num meme a culpar os imigrantes? Garanto que terá mais sucesso.

  6. Isto até ao dia de eleições vai ser o “pão nosso de cada dia”. Ora a denegrir para um lado, ora para o outro, conforme a encomenda.

    Foi ontem com esta treta das ações dos CTT e foi a semana passada com as 8 sanitas do Montenegro.

    Para alguém com dois dedos de testa é fácil perceber que isto faz parte do processo, mas para o Zé Povinho são razões para se virar para os extremos. A seguir vem a conversa da corrupção (que existe mas não como nos é apresentada), dos compadrios e do diabo a quatro. E quem lucra com isto sabemos bem. Nem precisam de mexer uma palha.

    Resta-me a certeza de que se for eleito um populista qualquer que o mesmo não se aguentará muito tempo porque obviamente não resistira à tentação de corromper e ser corrompido, só que em doses industriais, obviamente!

  7. E uma compra que originalmente não terá sido superior a um milhão de €.

    Isto é um não assunto para tentar contrapor o caso da casa do Montenegro.

  8. Os portugueses são especialistas em comer gelados com a testa.

    O conteúdo do Poligrafo está feito para essas pessoas.

  9. O op odeia a privatização e ama a nacionalização. Concerteza precisa de umas aulas de economia.

    Edit: error ortográfico

  10. “Se a compra foi prejudicial aos contribuintes? Não, basta ver o preço das ações e vê-se que valorizaram.”

    Fake news. Desvalorizaram e não foi pouco.

  11. Li o artigo do Polígrafo uns minutos antes de ler este post. Fiquei boquiaberto.

  12. A Catarina Martins disse AGORA que os CTT não servem imensos concelhos, não disse só em 2020. Mesmo que tu aches que ela está “moralmente correta” porque no passado isso foi verdade antes de o PNS os obrigar a reabrir, o que ela disse efetivamente não é verdade. E isto não é um pormenor, o PS quer dar a ideia que apesar de algumas falhas a privatização vai funcionando se o governo pressionar para serem cumpridas certas coisas, enquanto que o BE quer dar a ideia de que continua a não funcionar

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