A excessiva polarização do discurso político está a deixar o outrora exército de sensatos numa redoma apertada. É verdade, como reconheceu Luís Montenegro na mensagem de Natal, que “não temos de estar todos de acordo”, mas o contrário disso não devia ser um país que vagueia desorientado num campo de batalha ideológico, em que a capacidade para ouvir (e aceitar) o outro parece reduzida a nada. Há várias explicações para o borbulhar desse caldo explosivo. E é redutor apontar apenas o dedo à atratividade da extrema-direita.

A força das lideranças já não se mede só pelo carisma e poder transformador da palavra. A ação política vive, hoje, sobretudo, da mediatizacao dos gestos e das atitudes, a forma prevalecendo sobre o conteúdo. Os desiludidos agarram-se aos populismos, quando não desistem de exercer o voto, cristalizando a ideia de que não vale a pena levantar a voz se depois fica tudo na mesma. Este progressivo distanciamento abre espaço para que esse país zangado se avolume, órfão de soluções políticas que realmente respondam às preocupações dos cidadãos. Quem nos lidera fala demasiadas vezes para quem não quer ouvir.

Os próximos anos serão de estabilidade política. A maré económica está de feição. Montenegro tem todas as condições para mostrar que, como defende, é um reformista. Não se espera uma revolução em tão pouco tempo, mas depois de anos de tanta agitação e instabilidade, era desejável que essa índole transformadora que parece inspirar o Governo fosse alimentada pelos tais agentes sensatos, provando que é possível orientar o país no caminho certo sem ceder à agenda espalhafatosa de quem professa a religião do ruído e não quer mudar nada.