A família multiespécie (pais, filhos e animais de estimação) é o reflexo de uma nova realidade em Portugal. Neste mercado de cuidados para cães e gatos – que vale 612,2 milhões de euros – os donos não olham a custos para garantir bem-estar, saúde e longevidade. Há coleiras para monitorizar batimentos cardíacos, seguros de saúde e até banhos de ozono.
Houve um tempo em que o cão dormia na rua ou no quintal, tomava banho na banheira dos donos e o gato era apenas um caçador de ratos. Hoje, estes animais são membros da família e os tutores que se preocupam com os seus animais já compram ração rica em proteína, bolachinhas caseiras light, brinquedos interativos e tratamentos estéticos. Na clínica veterinária Pranavet, em Caxias, o ambiente é intimista. Há música de fundo com sons da natureza, existe uma cama para cães e gatos poderem relaxar, um espaço para sessões de acupunctura e tratamentos de água medicinal. Aqui, é também possível fazer um cardápio personalizado para as refeições de cada animal. “A alimentação é a base de tudo. Queremos explorar uma alimentação natural, fresca, feita em casa e passar isso também para os cuidadores”, diz Maria Cervantes, médica veterinária e fundadora da clínica, ao Jornal Económico.
Em Portugal, existem cinco milhões de animais de companhia registados e o país é um dos líderes europeus com maior presença de cães de companhia: 27 por cada 100 habitantes, apenas atrás da Hungria (29 por 100). Este número reflete uma tendência crescente nos últimos anos. “As pessoas ficaram mais em teletrabalho, isolamento social, portanto, sentiram a falta de uma companhia e acabaram por adotar ou comprar mais animais”, explica Bernardo Soares, médico veterinário e One Health Director da agência de comunicação UPPartner, ao Jornal Económico.
De acordo com os dados da consultora internacional Euromonitor, o mercado português de cuidados para animais de estimação vale 612,2 milhões de euros. A maior parte da despesa (76%) concentra-se na alimentação animal, enquanto os cuidados e acessórios representam 23,5%. O crescimento do retalho também é forte, com os supermercados a liderarem as vendas (65,6%), seguidos pelas lojas especializadas (21%) e pelos canais online (17,2%). As pequenas e médias empresas representam a maioria dos cerca de três mil estabelecimentos do setor, contribuindo com 250 milhões de euros por ano e empregando cerca de dez mil pessoas. Prevê-se que o mercado atinja os 1,3 mil milhões de euros até 2029, crescendo a uma taxa média anual de 3,7%, impulsionada pelo aumento da posse de animais, atenção à saúde e crescente procura de alimentos especializados.
É neste contexto de forte crescimento e crescente sofisticação do mercado pet em Portugal que os grandes grupos empresariais tentam ganhar escala e consolidar posições. Em dezembro do ano passado, a Sonae decidiu concentrar todos os negócios dedicados a animais na Musti. A empresa finlandesa onde o grupo da família Azevedo assumiu uma participação de mais de 80% em 2024, passou a integrar as 65 lojas da ZU, marca nacional especializada neste setor. “A concentração na Musti das nossas atividades de retalho e cuidados para animais de estimação reforça a posição do Grupo neste mercado, proporcionando claras sinergias e benefícios de escala”, diz João Dolores, administrador da Sonae.
A multinacional Zooplus, sediada na Alemanha, as cadeias Kiwoko e Tiendanimal, com origem em Espanha, são outros players a operar no mercado nacional. Atualmente, a Kiwoko conta com mais de 200 lojas em Portugal e Espanha, um número que tem aumentado ano após ano. Além disso, para cobrir todas as necessidades de um animal de estimação, conta ainda com 100 salões de beleza. Presente em vários países, também a belga United Petfood escolheu Portugal para expandir a sua produção de ração seca, húmida e snacks para animais de companhia. A empresa vai instalar uma nova fábrica em Rio Maior, num investimento que ronda os 33 milhões de euros e que deverá criar 50 postos de trabalho.
Seguros de saúde disparam
Na mesma linha, o mercado nacional de seguros para animais encontra-se numa fase de expansão. De acordo com o relatório “Portugal Pet Insurance Market Size & Outlook, 2025-2033”, da Grand View Horizon Research, gerou uma receita de 82,4 milhões de dólares em 2024 (70,4 milhões de euros) e deverá atingir os 227,9 milhões de dólares até 2033 (194,7 milhões de euros), crescendo a uma taxa anual de 11,3% durante este período.
A Fidelidade, Generali Tranquilidade, Ageas e Mapfre já reportaram crescimentos significativos, com algumas a registarem aumentos até 50% no volume de apólices. “A pensar na grande diversidade de cães e gatos existentes em Portugal, o Fidelidade Pets foi desenvolvido de acordo com as necessidades de cada um, do seu ciclo de vida, local onde vivem e cuidados de saúde que exigem. Temos uma oferta diferenciada para cães e gatos, com foco na prevenção e cuidados de saúde animal, garantindo o acompanhamento adequado nas várias etapas do seu ciclo de vida. O animal de companhia está protegido com um seguro que tem acesso a coberturas de saúde, prevenção, responsabilidade civil e assistência. Acreditamos que a realização de exames de rotina é essencial para prevenir eventuais problemas de saúde e melhorar a qualidade de vida do seu animal de companhia. Por esse motivo, disponibilizamos a realização de um check-up periódico sem custos adicionais na maioria dos nossos planos”, diz fonte oficial da seguradora ao Jornal Económico.
A moda é outros dos setores em crescimento. Marcas icónicas como Gucci, Dolce & Gabbana, Burberry, Louis Vuitton, Celine, Hugo Boss, Tommy Hilfiger, Versace, Prada e Roberto Cavalli lançaram linhas exclusivas para animais de estimação. Mas a moda pet não se limita ao luxo. Também a Zara, H&M, Bershka, Primark e até Adidas já têm peças de design e inovação, com tecidos tecnológicos, impermeáveis ou com controlo de temperatura. Hoje, cada vez mais falamos de um termo que é família multiespécie. Ou seja, é a família humana e os animais”, diz Bernardo Soares.