“Quantos norte-americanos ainda têm de morrer ou ficar gravemente feridos para esta operação acabar?”. Indignado por mais uma morte às mãos dos agentes federais, o mayor de Minneapolis dirigiu-se a Donald Trump e voltou a pedir ao Presidente dos EUA para retirar os polícias da cidade, depois de um homem de 37 anos ter sido morto a tiro na manhã deste sábado pela polícia anti-imigração dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês). A imprensa norte-americana identificou a vítima como sendo Alex Jeffrey Pretti.

Antes de se saber da morte do cidadão norte-americano, o governador do Minnesota, Tim Walz, denunciou “mais um tiroteio horrível por agentes federais”, apelando ao Presidente Donald Trump para acabar com a operação anti-imigração e retirar “milhares de agentes violentos” daquele estado norte-americano.

Em reação, através da Truth Social, o Presidente dos EUA publicou uma fotografia da arma que estaria na posse deste homem (que a polícia local disse ter licença de porte de arma), e acusou o governador do Minnesota e o mayor de Minneapolis de “incitarem à ressurreição” com uma “retórica pomposa, perigosa e arrogante”.

Vídeos a circular nas redes sociais, e verificados pelo New York Times, mostram várias pessoas fardadas a agarrar um homem no passeio, enquanto pelo menos um polícia atinge a vítima com um objeto. Depois, é ouvido um tiro, os agentes afastam-se e a pessoa fica prostrada no chão. O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) revelou que o homem morto a tiro tinha na sua posse uma arma e dois carregadores.

ICE shoots a man 5x while lying on the ground approx 1 hour ago pic.twitter.com/BVqrlsdv3k

— Steak and Eggs (@pileatedbird) January 24, 2026

“Acabei de ver um vídeo de mais de seis agentes de cara tapada a matar um homem. Quantos mais norte-americanos têm de morrer ou ficar gravemente feridos para esta operação acabar? Quantas mais vidas precisamos de perder antes de esta administração perceber que uma narrativa política não é mais valiosa que os valores americanos”, disse o mayor Jacob Frey.

Apesar de a imprensa norte-americana ter revelado, inicialmente, que a vítima teria 51 anos, a polícia (numa conferência conjunta com o mayor) corrigiu a informação. Afinal, o homem terá 37 anos, a mesma idade que Renee Good, a mulher que também foi morta a tiro pelo ICE no estado de Minneapolis.

Mãe de três filhos, “poeta” e recém chegada a Minneapolis. Norte-americana morta a tiro pelo ICE identificada como Renee Good

Jacob argumentou que “os protestos pacíficos personificam os princípios fundadores dos EUA”, mas os “agentes de cara tapada”, por outro lado, “corroem a confiança na democracia”. “Se o objetivo era atingir a paz, isto está a fazer o contrário”. Diringido-se a Trump, disse que era altura de o Presidente norte-americano agir “como um líder”. “Coloque Minneapolis em primeiro, coloque os EUA em primeiro. Vamos terminar esta operação. Pedimos-lhe que aja agora, retire estes polícias”.

Ao lado do mayor, Brian O’Hara, líder da polícia local, detalhou que o único registo criminal da vítima dizia respeito a multas relacionados com o carro e que, além disso, “teria licença de porte de arma”. O polícia revelou que o alerta foi dado pelas 9h03 para um homem com “múltiplos ferimentos de tiro” que acabou por ser levado “de ambulância ao hospital” — antes, o DHS disse que o óbito tinha sido declarado no local.

O’Hara acrescentou que era cedo para revelar mais detalhes, mas lançou o apelo para que ninguém se dirija ao local do crime. “Evitem ir para lá, ou abandonem o local se lá estiverem”. Dirigiu-se também aos agentes federais, a quem pediu uma ação “digna e íntegra”.

“Esta é a pistola do homem armado, carregada (com outros dois carregadores!), e pronta a usar. Para quê tanto ruído? Onde está a polícia local? Porque é que não protegeram os agentes do ICE? O mayor e o governador disseram para eles saírem do local?”. Horas depois da morte de um homem de 37 anos, a reação de Donald Trump surgiu, como tem sido habitual, através da Truth Social.

Além de acusar Jacob Frey e Tim Walz de incitarem à violência, Trump alegou que há muitos polícias locais impedidos de fazerem o seu trabalho, o que obriga os agentes do ICE a defenderem-se. “Não é uma coisa fácil de fazer”, justifica o Presidente dos EUA. Acusa os democratas de “enormes fraudes monetárias” no “Grande Estado do Minnesota”, por terem permitido que “criminosos ilegais” se infiltrassem no Estado. “Queremos o dinheiro de volta e queremos esse dinheiro JÁ”.

Para Trump, os “tontos políticos” Frey e Walz deveriam focar-se nos “milhões de dólares roubados ao povo de Minnesota e aos EUA”. “DEIXEM OS PATRIOTAS DO ICE FAZER O SEU TRABALHO”. Segundo o Presidente, 12 mil “criminosos ilegais”, “muitos deles violentos”, foram detidos e levados para fora do estado. “Se eles ainda lá estivessem, iam ver algo muito diferente do que aconteceu hoje”.

No X, JD Vance partilhou a reação de Donald Trump e também acusou a “liderança local” de Minnesota de “recusar” os pedidos dos agentes do ICE para trabalharem em cooperação com a polícia. “Quando visitei o Minnesota, o que os agentes dos ICE queriam acima de tudo era trabalhar com a polícia local para que as situações não escalassem”.

When I visited Minnesota, what the ICE agents wanted more than anything was to work with local law enforcement so that situations on the ground didn’t get out of hand.

The local leadership in Minnesota has so far refused to answer those requests. pic.twitter.com/XUGIhXxUv7

— JD Vance (@JDVance) January 24, 2026

“Às 9h05, quando agentes da DHS estavam em Minneapolis a desenvolver uma operação de busca de um imigrante ilegal procurado por agressão violenta, um indivíduo aproximou-se dos agentes com uma pistola semiautomática de 9mm”. O comunicado do departamento é acompanhado de uma imagem que representa essa suposta arma.

O DHS descreveu que os polícias terão tentado desarmar o suspeito, mas “este resistiu de forma violenta”. “Temendo pela sua vida e pela segurança dos seus colegas polícias, um agente disparou tiros em legítima defesa. Os paramédicos presentes no local prestaram socorro imediato ao indivíduo, mas ele foi declarado morto no local”. Acrescentaram que “o suspeito também transportava dois carregadores e não tinha documentos de identificação — tudo indica que queria causar o máximo de dano e massacrar polícias”.

O departamento alegou que cerca de 200 manifestantes dirigiram-se ao local, obstruíram o trabalho dos agentes e agrediram as forças de segurança. “Medidas de controlo de multidões foram implementadas para garantir a segurança das pessoas”.

“Mais detalhes sobre a luta armada serão divulgados em breve. (…) Esta situação está em constante evolução e mais informações serão divulgadas em breve”.

“Acabei de falar com a Casa Branca após mais um tiroteio horrível por agentes federais esta manhã. O Minnesota está farto. Isto é repugnante”, escreveu o governador democrata na rede social X. O Presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, “tem de acabar com esta operação”, defendeu, apelando: “Retirem os milhares de agentes violentos e sem formação do Minnesota. Agora”. Mais tarde, através de uma conferência de imprensa, Walz acusou as “pessoas mais poderosas do Governo” de “distorcerem histórias”.

“O sistema de justiça de Minnesota vai ter a palavra final sobre isto. O Governo federal não é de confiança para liderar esta investigação”. O governador diz que os agentes do ICE estão a “criar o caos e a violência” e que os vídeos partilhados nas redes sociais são “repugnantes”. Desde que o tiroteio aconteceu, Walz falou duas vezes com a Casa Branca; primeiro, para voltar a pedir a retirada dos agentes, depois, para esclarecer que o caso iria ser investigado pela polícia local.

Já ao final da tarde nos EUA, em conferência de imprensa, a secretária de Segurança Interna norte-americana, Kristi Noem, reforçou a versão de que Pretti tinha a intenção de “matar agentes da autoridade”. “Os factos são estes: o indivíduo apareceu durante uma operação dos agentes federais com uma arma e dezenas de munições. Não estava lá para protestar de forma pacífica”, afirmou, citada pelo The New York Times. Segundo Noem, o homem morto a tiro “cometeu um ato de terrorismo doméstico”. Questionada pelos jornalistas sobre se Pretti segurava a arma no momento em que foi abordado ou se a apontou aos agentes, Noem não respondeu.

Noem culpou ainda Tim Waltz e Jacob Frey pelo escalar da violência em Minneapolis. Durante a conferência de imprensa, a secretária de Segurança Interna sublinhou que “centenas” de manifestantes se reuniram no local onde Pretti foi morto a tiro, e que alguns “atacaram” agentes da polícia federal, sendo que um dos manifestantes terá arrancado uma parte de um dedo de um agente à dentada.

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A morte deste homem de 37 anos acontece numa altura em que aumentam os protestos dos norte-americanos contra a ação do ICE, que se intensificaram depois da morte de Renee Good. Ao final da tarde deste sábado, milhares de pessoas começavam a juntar-se em Nova Iorque e em Washington em protesto contra mais uma ação mortal do ICE.

A tensão nos EUA, mas sobretudo em Minneapolis, levou até a NBA a adiar o jogo entre os Minnesota Timberwolves e os Golden State Warriors. A liga de basquetebol norte-americana tomou esta decisão “para dar prioridade à segurança da comunidade”.

Quem era Alex Pretti, o enfermeiro norte-americano de 37 anos morto a tiro pelo ICE em Minneapolis