A notícia fez manchete na semana passada e desapareceu de pantufas com a pressa com que apareceu : “Idosa morta há dois anos encontrada num bairro do Porto.” Em três anos já vai em 757 casos.
Em tempos escrevi sobre o Estatuto da Pessoa Idosa. Foi aqui.
Passou a primeira volta das eleições presidenciais, que até foram dominadas por temas legislativos. Trinta debates depois, horas e horas de discursos depois e mais umas quantas horas de entrevistas, rádio e podcasts – o padrão repetiu‑se: os idosos ficaram, mais uma vez, para trás. Parece que já nem interessa convencer os idosos.
Portugal vive uma crise social que roça a crise moral. Um país que não sabe cuidar dos seus idosos não está a construir futuro, está apenas a gerir presente. Uma coisa é não ter soluções. Outra, bem diferente, é não ter ambições. Portugal abdicou da ambição de cuidar mas eu não desisti do dever de apontar, apelar e mendigar. Precisamos de mais.
O Estatuto do Idoso é, como já escrevi, um belo papel e um primeiro passo. Mas não altera rigorosamente nada na vida real dos idosos. Precisamos de medidas que criem impacto, porque criar impacto é formalizar existência. É para isso que pisamos a terra desta forma pessoal. E criar impacto não significa fazer barulho, significa transformar o que apenas parece bem naquilo que realmente faz bem.
O Estado e a família
O Estado parece querer vincular a família ao cuidado dos idosos como vincula ao cuidado das crianças. Parece bem, parece um dever lógico mas um idoso não é uma criança porque um tem uma vida cheia e outra ainda não tem vida nenhuma. Um é inocente e o outro até pode ser culpado da sua condição. Uma criança é vazia de passado, um idoso carrega uma história dele. É verdade que muitos pagam a fatura do egoísmo e injustiça social, do afastamento estratégico, da desarmonia familiar. Mas também é verdade que muitos desses idosos participaram, ao longo da vida, na desconstrução desses laços. Famílias são feitas de histórias e nem sempre essas histórias aproximam. Não estou a apontar, estou a ser pragmático. O Estado não pode assumir que os laços resolvem tudo e dar nós em cordas que não se entrançam.
O Estado não pode obrigar à moralidade familiar. Mas tem obrigação moral de cuidar de todos, mesmo quando a família não aparece. Cada idoso foi, para o Estado, fonte de votos, de receita, de impostos, de emprego. Há uma dívida estrutural do estado, goste o estado ou não daquele idoso.
Empurrar para as famílias desagregadas um cuidar tão exigente não acrescenta valor a ninguém. Cuidar deve ser voluntário para todos, exceto para o Estado.
O que o Estado pode, e deve fazer, é apoiar quem cuida independente de ser família ou não, próximo ou distante, vinculado ou não. Em paralelo, o estado pode sim interferir na sociedade de forma clara, fomentando uma cultura de cuidado transversal, de coexistência, de união e respeito, para idosos e para todos os que mais precisam.
O modelo atual não funciona
A realidade portuguesa são casas pequenas, sem o “quarto extra” para acolher quem envelhece. Lá vai o tempo em que cabia mais um. A nossa sociedade está construída em vidas separadas, empregos distantes, famílias que migraram dentro e fora à procura de um mundo melhor. A cada novo residente deslocado para Lisboa ou Porto corresponde uma família que envelhecerá longe de quem mais a poderia apoiar. A concentração nas grandes cidades esquece tudo o que de social fica para trás. E ninguém fala nisso!
Em Portugal não existem modelos concretos e consistentes que permitam outro tipo de apoio que não seja hospital ou lar.
Como apoia alguém que vive em Lisboa os pais que vivem em Chaves? Discutimos o SNS até à exaustão, mas ignoramos que a falta de cuidados acaba sempre por entupir o SNS e consumir recursos desnecessários. Ás vezes os idosos nem precisam de grande coisa, só mesmo quem esteja lá disponível.
Pensar fundo a rede de cuidados
É urgente pensar fundo a rede de cuidados, sem culpas familiares e sem medo institucional. O envelhecimento populacional obriga-nos a criar um SNS próprio para idosos.
Em vez de usarmos o Serviço Nacional de Saúde para tudo, precisamos de um Serviço Nacional Social, paralelo e não apêndice do SNS mas que se possa suportar nele apenas quando é necessário. Um serviço focado nas carências dos idosos, articulado com familiares ou próximos que queiram ajudar. Muitos só não fazem mais porque sabem que, ao assumirem, todos os outros desaparecem.
O estatuto de dependente é o exemplo perfeito: uma assinatura que se transforma numa obrigação quase eterna.
Cuidadores, Cuidadores, Cuidadores
O Estado tem de assumir a rede de cuidadores como assume a rede de médicos. Tem de aprender com o SNS, integrar modelos públicos e privados, e garantir que o apoio social não é um luxo inacessível. E tem de formar e certificar cuidadores: um cuidador não é uma empregada doméstica com mais responsabilidades. É alguém preparado para cuidar. É uma oportunidade para o estado poupar no SNS e ao mesmo tempo gerar novas oportunidades de emprego. É aqui que pode entrar parte da imigração.
O Estado tem também de abandonar dogmas, como o direito absoluto de permanecer em casa. Sim, é desejável. Mas tem de ser melhor do que a alternativa, e ser melhor implica proximidade, suporte emocional, físico, médico e social. Manter o idoso no seu espaço é bom, desde que esse idoso não morra sozinho, e o seu corpo seja encontrado dois anos depois.
Se alguém consegue, em consciência, não sentir culpa por isto, que se anuncie. Falhámos redondamente. E continuamos a falhar.
Colocar o tema na agenda
Não basta candidatos irem aos lares dançar fandango. Para isso já temos voluntários que vão lá todos os dias. O que precisamos é de candidatos a presidente, ou executivos, ou quem quer que seja, que agarrem o tema dos idosos de forma integrada, séria e estrutural.
Não quero “vender” um debate mas quero com estes artigos vender um ponto na agenda. Parecendo que coloco todos no mesmo saco, não, de todo. Há milhares de anónimos que estão lá, para os seus e para os nossos, sem cor, nem credo mas com uma entrega tremenda que fazia corar qualquer um de nós. Este artigo é também para esses, que tanto fazem com pouco e muitas vezes sem ajuda de ninguém.
Elevemos a sociedade a outro nível e talvez, quando lá chegarmos, não estejamos tão isolados, tão abandonados, tão à nossa mercê. Não se esqueçam que crianças nunca mais seremos mas idosos, se tudo correr bem, todos seremos um dia.