Antes mesmo de ser alfabetizada, a escritora e advogada Paula Novais já brincava de escrever: “Gostava de ‘rabiscar horizontalmente’, emulando a escrita cursiva dos adultos”, ela conta. Há alguns dias, Paula descobriu que seu primeiro romance, Gaiolas de Concreto Armado, foi escolhido como vencedor da segunda edição do Prêmio Caminhos de Literatura.
O concurso literário premia romances inéditos de autores brasileiros estreantes. O livro de Paula será publicado pelas editoras Dublinense, no Brasil, e Kacimbo, em Angola, no primeiro semestre de 2026. Ela receberá R$ 5 mil de adiantamento e uma mentoria sobre carreira e mercado literário com Henrique Rodrigues, idealizador do prêmio.
Paula Novais é a vencedora da 2ª edição do Prêmio Caminhos de Literatura 2025 pelo romance ‘Gaiolas de Concreto Armado’. Foto: Valéria Vieira/Divulgação
Rodrigues, escritor e gestor cultural, esteve à frente do Prêmio Sesc de Literatura por 20 anos e foi demitido após uma polêmica envolvendo a leitura de um trecho do livro vencedor na Flip 2023. Lembre o caso, revelado pelo Estadão. No ano passado, ele criou o Prêmio Caminhos, que também deu origem a um instituto de mesmo nome.
Em sua primeira edição, o Prêmio Caminhos de Literatura escolheu o livro Mãezinha, da médica paraense Izabella Cristo, que retrata o sistema de saúde inspirado por experiências vividas pela própria autora. A comissão final contou com a avaliação dos escritores Micheliny Verunschk e Marcelo Moutinho.
Neste ano, a comissão avaliadora foi formada por Airton Souza (vencedor do Prêmio Sesc 2023, que motivou o rompimento de Rodrigues com a organização) e Cintia Moscovich. Eles avaliaram 20 romances pré-selecionados por subcomissões formadas por Marcela Dantés, Rodrigo Casarin, Débora Ferraz e Tiago Germano.
“Esse resultado é magnífico, porque os jurados selecionaram a obra pelo critério da qualidade literária, sem nenhum favorecimento ou olhar cerceador para qualquer conteúdo ou temática”, disse Rodrigues, sobre a escolha de Gaiolas de Concreto Armado.
O livro de Paula Novais tem como pano de fundo a pandemia de covid-10. A protagonista é Nerissa, uma jovem que vive o luto pela perda da mãe e a dificuldade de pertencimento. Ela desenvolve uma amizade inesperada com Alzira, sua vizinha no turbulento edifício onde vivem.
“O livro conta a história de amizade de duas mulheres de gerações e origens diversas que se aproximaram durante a pandemia e em virtude dela. A partir dessa relação, se criam novas possibilidades de leitura do mundo contemporâneo e do resgate de registros sublimados desde o golpe de 1964″, explica Paula.
Henrique Rodrigues, escritor e idealizador do Prêmio Caminhos de Literatura. Foto: Monica Ramalho/Divulgação
Mineira radicada no Rio de Janeiro, Paula diz que recebeu a notícia da premiação com “imensa alegria” e que admira o trabalho das editoras. “Me sinto muito honrada de agora fazer parte do percurso corajoso da premiação, tão importante para os escritores em busca de uma primeira oportunidade e para a literatura brasileira”, afirma.
Ela conta que, apesar ter sido uma criança e adolescente com gosto pela escrita e pela leitura, nunca havia se imaginado como escritora, tanto que formou-se advogada. Tudo mudou em 2017, quando enfrentou um luto tão profundo que precisou “buscar novas formas de existir.”
Começou a escrever contos e crônicas, pelos quais foi premiada pela UBE – União Brasileira de Escritores nos concursos Anna Maria Martins (contos) e Ruth Guimarães (crônicas). Em 2022, publicou seu primeiro livro de contos, Ambidestria, pela Editora Urutau.
Seu primeiro compromisso após a premiação será no dia 15 de novembro, na Fliporto, Festa Literária Internacional de Pernambuco, em Recife, onde fará uma mesa com Henrique Rodrigues e Airton Souza para discutir Gaiolas de Concreto Armado. Ela também participará da Flipoços, em Poços de Caldas, Minas Gerais, em maio de 2026.