A certa altura de Coração sem medo, o recém-lançado romance de Itamar Vieira Junior, uma das personagens, Fátima, conta para Rita Preta, a protagonista da história, do tempo em que passou na prisão. Fátima relata que no período em que ficou numa colônia penal participou de um grupo de leitura. Apesar de não se recordar de todos os livros, cita uma história, segundo ela, “triste e bonita: o diário de uma mulher chamada Carolina, moradora de uma favela em São Paulo”. 

A história em questão é Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. A referência não é aleatória. Ao citar esse livro, Vieria Junior faz uma escolha não só estética, mas também política. Num ano em que leitores e espectadores parecem estar vidrados na vida da elite — a julgar pelo sucesso de Coisa de rico, de Michel Alcoforado, e pelo alarido em torno de Odete Roitman em Vale Tudo —, no romance que encerra a triologia iniciada com Torto arado, o escritor reafirma seu compromisso com os vulneráveis. 

As marcas dessa opção estão por toda a parte.  Ao encontrar Rita Preta, o leitor descobrirá que sua trajetória é rígida e ordinária, a ponto de poder ser confundida com inúmeras mães do Brasil — mulheres que cuidam dos filhos, são chefes de família e ainda precisam enfrentar jornadas de trabalho quase sempre degradantes em um país onde a renda média é baixa. 

Mãe de três filhos, Rita Preta já enfrentava uma vida de dissabores quando uma tragédia se abate sobre sua existência: seu primogênito, Cid, desaparece. Para agravar a situação, o último encontro com o filho é marcado por uma briga, na qual criadora e criatura disputam poder. As famílias infelizes são infelizes à sua maneira. A protagonista não recita Tolstói ou qualquer romance burguês; ela própria vive o negro drama.

O contraste da violência masculina não está na candura das mulheres, mas na sua resistência

A partir dali, a parca estrutura de seu mundo começa a ruir e ela se vê desenganada, desesperada, desamparada. A primeira parte do romance, que é subdividido em cinco, pode ser lida como uma crônica de uma morte anunciada — devidamente experimentada por jovens do Brasil profundo e também nas grandes cidades. 

Salvador, a primeira capital do Brasil, é o lugar onde a trama acontece. Partes da filosofia da composição de Vieira Junior, ficção e realidade se encontram: a metrópole baiana é uma das mais violentas do país, com destaque negativo para o alcance da violência policial. Vieira Junior é, sim, um autor político, mas não discute política partidária: seu romance não fulaniza este ou aquele partido; em vez disso, aponta para a violência de Estado, espécie de denominador comum de todas as épocas.

A trama engrossa. Ainda na primeira parte do romance, o narrador dá as pistas daquele que pode ter sido o destino de Cid. São indícios que levam Rita Preta e o leitor de um lado para o outro, numa busca incessante e sem respostas. 

Embora verossímil, a crônica policial não tem o apelo arrebatador de um thriller, e o romance, ainda que correto, soaria comum se ficasse nisso. É a partir do trecho final da primeira parte que a escrita de Vieira Junior se transforma, quando acontece o confronto entre Rita Preta e o filho do meio, Cainho. 

A despeito do cuidado para tratar de questões sensíveis como maternidade, solidão feminina, angústia (as personagens parecem a todo tempo conscientes de sua condição), para que a literatura tenha força é preciso torcer a palavra de modo a punir, e não somente a vigiar. Assim, se por um lado existem momentos em que o texto abusa de imagens desgastadas (como a do chão desmoronando sob os pés de Rita Preta), por outro é a relação entre mãe e filho, sobreviventes de um luto sem fim, que mostra ao leitor que não existe meio termo quando se trata de capturar a sensação de dor.

Homens em fúria

Se o Estado representa o algoz invisível — com sua violência praticada pelos agentes que deveriam garantir a ordem e a segurança —, os homens se revelam frágeis sobretudo quando irrompem em fúria. O eixo de Coração sem medo se estrutura na ideia de que os personagens masculinos são quebrados, mesmo quando querem exalar autoridade; são fracos, mesmo quando ambicionam demonstrar força; e são incapazes de agir corretamente, ainda que o mal se manifeste em sua frente. A exceção que comprova a regra talvez seja um auxiliar de escrivão, Edgar (mesmo assim, ele é opaco demais para ficar muito tempo ao lado das “mulheres fortes”). Quanto aos pais dos filhos de Rita Preta, cada qual à sua maneira, não passam de meninos grandes:não têm senso de responsabilidade, tampouco cuidado para não decepcionar as mulheres que acompanham. 

O contraste da violência masculina não está na candura das mulheres, mas na sua resistência. Coração sem medo é uma elegia à coragem feminina e se legitima não porque seu autor descreve exemplos de demonstração de força da protagonista e de suas coadjuvantes. A legitimidade decorre do fato de que as denúncias de violência obstétrica, policial e política são rebatidas com o espaço seguro do sonho, da imaginação e da memória que ratificam a importância de enfrentar as aflições. Rita Preta é vítima, mas não se deixa abater, mesmo que o cenário seja adverso em toda a narrativa.

Quando encontra aqueles que transtornaram a vida de sua família, ela os enfrenta com altivez. E só consegue fazer isso porque, aos poucos, se reconcilia consigo mesma. Em uma das cenas mais marcantes do livro, ao assistir a mais um episódio de maus tratos praticados pela polícia, Rita Preta se revolta:

Quem fala não é mais a mulher, a trabalhadora, a amante que quer seguir sua vida. Quem clama é a mãe. Quem ruge é a fera.

Trechos como esse sobram em Coração sem medo. Não as palavras de ordem, mas passagens que exibem tensão, como que preparando para o próximo ato. Em contrapartida, não são raras as vezes em que o narrador oferece uma digressão, seja para aludir a outros personagens da trilogia, seja para oferecer contexto da história em curso. É nesse sentido que a trama ganha fôlego e se aproxima do mistério. Os sonhos vão ganhando mais relevância com o avanço da narrativa, que vai se fragmentando, sem deixar escapar a temática principal. 

Na passagem que recupera os acontecimentos envolvendo o desaparecimento de Cid, os símbolos estão por toda parte: o nome do principal algoz, Faraó (um dos responsáveis pela perseguição ao primogênito de Rita Preta), o contraste entre o policial torturador que age como um pai afetuoso dentro de casa etc.

Ditadura

É impossível não conectar os pontos: Coração sem medo dialoga com a produção cultural contemporânea acerca da ditadura civil-militar de 1964. Afinal, Rita Preta é mais uma mulher que a um só tempo busca justiça para aqueles que fizeram desaparecer seu filho e quer ter o direito de viver o luto. 

Em outra passagem do livro, ela declara: 

Quero justiça. Estou defendendo meu filho, minha família. A ditadura não acabou aqui, governador. Nunca atinei para os estudos, mas meus filhos me ensinam muita coisa. Para as mães de periferia, a ditadura nunca acabou. Vocês continuam a sumir com nossos filhos. 

Coração sem medo guarda um tom amargo em relação às instituições do país. Não apenas em relação à elite que “em nada difere dos senhores e conquistadores de outros tempos”, mas também junto aos poderes estabelecidos, que, na última hora, podem alterar decisões esperadas há tempos. 

A história reserva para os filhos de Rita Preta uma condição especial no que se refere à sensibilidade e à demonstração de afetos. Se num primeiro momento eles são ingênuos — adolescentes ora irritadiços, ora angustiados —, com o desenrolar da narrativa eles amadurecem, a ponto de um deles, Cainho, merecer um segmento com destaque para os seus cadernos, textos escritos por ele que ajudam a dar sentido ao drama da família.

Sem o cinismo dos mais intelectualizados, ou a afetação de certo discurso progressista, que mesmo ao criticar os muito ricos não esconde certa admiração, Coração sem medo atesta que ainda há muito sofrimento represado em uma sociedade cujo denominador comum é a desigualdade. Mesmo assim, o compromisso do autor com os pobres sempre reaparece: deixar de sonhar não é uma opção.