“É uma exposição com várias frentes, do ponto de vista artístico e afetivo, tendo em vista também o facto de ter sido, em 1963, um dos fundadores da Cooperativa Árvore, num momento de união de muitas pessoas das artes visuais e da intelectualidade do Porto, em tempos difíceis”, disse hoje à Lusa José Emídio, artista plástico, presidente da instituição e um dos curadores da mostra, com a historiadora e crítica de arte Laura Castro.
Não sendo exatamente uma retrospetiva, a exposição mostra “um conjunto muito significativo do trabalho de Armando Alves, desde 1958 até há pouco tempo”, e resulta de “uma seleção feita a três” de obras que o artista tinha no seu ateliê.
“Claro que a última palavra foi sempre dele [Armando Alves]”, sublinhou José Emídio, recordando a primeira exposição individual que o artista realizou, em 1965, na Árvore, quando tinha “20 e poucos anos”.
Esta exposição “ilustra bem o que foi toda uma vida e todo um percurso de trabalho na área da pintura, sem esquecer o importante trabalho nas áreas das artes gráficas e do design” entre outras vertentes, disse o curador.
A mostra, com o título “Armando Alves na Árvore”, pretende também “dar a conhecer um pouco da ligação do Armando Alves à Árvore através dos tempos, tendo ele pertencido a várias direções, marcando presença em importantes eventos da cooperativa”, referiu.
“O Armando Alves tem uma pintura que eu sempre considerei muito limpa, que tem muito a ver com a sua própria maneira de ser, organizado na vida e no trabalho. É uma pintura pensada, muito apoiada nas raízes dele, no seu Alentejo, prevalecendo a paisagem alentejana, recriada de uma forma extraordinária e inovadora, quase roçando a abstração”, considerou José Emídio, admitindo a dificuldade de, enquanto pintor, falar da obra de outro artista plástico.
Entre as várias obras, José Emídio destacou um trabalho, que julga ser inédito e nunca exposto, que é “um desenho longo, ou um conjunto de 10 desenhos colados, a grafite, com cerca de sete metros de comprimento e 50 centímetros de altura, datado de 2004”.
“Temos também um objeto/escultura de 1970, que tem dois metros de altura” e uma pintura acrílica sobre tela, de 1962, com uma expressão “um bocadinho diferente do habitual do Armando, porque apresenta tons cinza, quando a sua obra é marcada por cores intensas”.
Sessenta anos depois de ter apresentado a sua primeira exposição na Cooperativa Árvore, Armando Alves volta, assim, à casa “onde tudo começou” neste ano em que celebra o seu 90.º aniversário.
Armando Alves, nascido em Estremoz, em 1935, é considerado uma figura maior da arte portuguesa contemporânea. Formado na Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde viria a lecionar, foi cofundador do grupo “Os Quatro Vintes”, com Ângelo de Sousa (1938-2011), Jorge Pinheiro e José Rodrigues (1936-2016).
Pintor, ‘designer’, ilustrador e professor, Armando Alves construiu, segundo os curadores da exposição, “uma obra rigorosa e profundamente humanista, marcada pela clareza do traço e pela delicadeza da cor”.
Com esta exposição, a Cooperativa Árvore celebra o artista, o fundador e o amigo, e homenageia “uma vida inteira dedicada à arte e à beleza do fazer”.
Inaugurada no sábado passado, sem a presença do artista, devido a problemas de saúde, a mostra distribuída por três salas, pode ser visitada gratuitamente até 29 de novembro.
Leia Também: Exposição ‘A Graça da Desgraça’ sobre Mário Viegas até dezembro em Almada