Uma das maiores reservas de petróleo da última década foi recentemente destacada no mar Báltico e promete alterar de forma visível o panorama energético europeu. A descoberta, feita pela Central European Petroleum (CEP), coloca a Polónia sob atenção renovada e reacende questões sobre o futuro do abastecimento de crude e gás natural no continente, numa altura em que a Europa tenta estabilizar os mercados após meses de instabilidade.
O novo campo, designado Wolin Este 1, continua a ser apontado como o maior da história polaca e um dos mais significativos da Europa nos últimos anos. Situado a apenas seis quilómetros do porto de Świnoujście, no noroeste da Polónia, poderá conter até 240 milhões de barris de petróleo e 27 mil milhões de metros cúbicos de gás natural, segundo estimativas atualizadas que se mantêm válidas em novembro de 2025.
Só o bloco perfurado guarda cerca de 150 milhões de barris e 5 mil milhões de metros cúbicos de gás, um salto notável para um país cuja produção diária permanece abaixo dos 20 mil barris, de acordo com o jornal digital espanhol Noticias Trabajo. Nos últimos dias, responsáveis do setor confirmaram que estas projeções continuam a ser consideradas realistas.
Com esta descoberta, as reservas provadas de petróleo da Polónia, atualmente estimadas em 147 milhões de barris, poderão praticamente duplicar. Embora não garanta autossuficiência energética, especialistas citados pela mesma fonte sublinham que o impacto estratégico é evidente: o consumo interno poderá ficar assegurado durante um ano inteiro e o país reforça a ambição de se tornar exportador regional.
Um novo ‘ator’ no xadrez energético europeu
A descoberta desta que é uma das maiores reservas de petróleo da Europa surge num período marcado pela oscilação dos preços da energia, pelos efeitos prolongados da guerra na Ucrânia e pelo esforço da União Europeia em reduzir dependências externas. Até agora dependente sobretudo da Noruega e da Rússia, a Polónia ganha nova margem para desempenhar um papel mais relevante na matriz energética europeia, reforçando a posição que tem consolidado desde o início de 2025.
Para o CEO da CEP, Rolf G. Skaar, o achado mantém-se “histórico” tanto para a empresa como para o setor energético polaco. Segundo o responsável, o campo de Wolin Este representa uma “oportunidade conjunta para desbloquear o potencial geológico e energético do mar Báltico”, declaração que voltou a repetir recentemente num fórum energético em Copenhaga.
A perfuração foi realizada com recurso a uma plataforma jack-up instalada em águas rasas de 9,5 metros, atingindo os 2.715 metros verticais. É uma operação tecnicamente exigente, mas considerada economicamente viável, fator que poderá acelerar o avanço do projeto, segundo a fonte inicialmente citada. Em 2025, a CEP confirmou que está a aprofundar estudos de produtividade nos estratos inferiores.
Potencial de expansão e interesse internacional
O bloco explorado encontra-se numa concessão muito mais ampla, com 593 quilómetros quadrados, onde poderão existir outros depósitos de relevo. O cenário faz lembrar o modelo norueguês, onde uma descoberta inicial gerou uma série de achados menores, criando um polo energético altamente competitivo, de acordo com a mesma fonte.
O potencial desperta cada vez maior interesse internacional. No entanto, a CEP e o governo polaco ainda não divulgaram um calendário oficial de exploração, nem detalhes sobre o investimento necessário ou uma eventual parceria com grandes petrolíferas globais. Este mês, fontes governamentais admitiram que decorrem negociações preliminares.
Reservas estratégicas ou exportação?
Um dos pontos ainda em aberto prende-se com o destino do crude. A Polónia poderá optar por reservar a produção para reforçar a segurança energética interna ou avançar para a exportação, respondendo à procura europeia por alternativas ao fornecimento russo. Até ao momento, não existe uma decisão política definitiva.
O impacto nos preços da energia dependerá da escala da operação e da rapidez com que avancem as fases de refinação e distribuição. O governo reiterou este mês que qualquer efeito no mercado será gradual e dependerá de autorizações ambientais e da construção de nova infraestrutura.
Desafios ambientais e compromissos climáticos
Apesar do entusiasmo, surgem preocupações ambientais, refere a mesma fonte. Não existem ainda estudos públicos completos sobre o impacto potencial no ecossistema do mar Báltico, uma zona já sensível do ponto de vista ecológico. Além disso, Varsóvia terá de compatibilizar este projeto com os compromissos climáticos assumidos no quadro europeu, tema que voltou às discussões este mês.
A descoberta reforça a posição geoestratégica da Polónia. A possibilidade de se tornar produtora e fornecedora de energia num contexto marcado pela instabilidade faz de Varsóvia um protagonista emergente no setor.
Impacto regional e efeito dominó
Os reflexos poderão atingir os países vizinhos. Os Estados bálticos, a Alemanha e até parte da Escandinávia poderão beneficiar de um novo ponto de origem energética ou, pelo menos, de menor pressão sobre os mercados, especialmente se a produção avançar até ao final desta década.
Para analistas citados pela imprensa europeia, o efeito dominó é praticamente inevitável, abrindo espaço a novas dinâmicas no abastecimento europeu. Contudo, a grande incógnita continua a ser a velocidade com que a CEP conseguirá transformar o potencial desta que é uma das maiores reservas de petróleo da Europa em produção efetiva. Embora não redesenhe imediatamente o mapa energético europeu, a dimensão da descoberta coloca a Polónia numa posição inédita, refere ainda o Noticias Trabajo. De cliente passa a potencial fornecedor, alterando equilíbrios estabelecidos durante décadas.
História do petróleo
Um dado curioso é que o petróleo não é um recurso recente na história da humanidade: já era utilizado na Antiguidade, com registos de uso na Mesopotâmia há mais de 5.000 anos. Na altura, servia sobretudo para impermeabilizar barcos e estruturas, muito antes de se tornar o motor da economia moderna.
Outra curiosidade interessante é que algumas das primeiras perfurações modernas, no século XIX, produziam quantidades mínimas quando comparadas com as estimativas atuais de Wolin Este, ilustrando a evolução tecnológica que moldou toda a indústria energética.