Fundado em maio de 1915, o Clube Sportivo de Cascais, que outrora foi Grupo Sportivo e Dramático de Cascais, vive, presentemente, um dos momentos mais altos da sua história. O emblemático clube do concelho de Cascais tornou-se num fenómenos das redes sociais, apesar de competir na Segunda Divisão da Associação de Futebol de Lisboa, o equivalente ao sexto escalão nacional. Nos últimos tempos, o Cascais até sofreu uma renovação, que levou à entrada de capital estrangeiro na sua SAD, que tem no neerlandês David Dwinger a principal cara. Nesse sentido, a equipa dos distritais começou a transmitir os seus jogos através do canal de YouTube We Are Cascais, apontando na internet e nas redes sociais para chegar aos adeptos.
Quis o destino que as transmissões chegassem a Valen Scarsini, um influenciador argentino com mais de um milhão de seguidores que, depois de conhecer a equipa portuguesa, lançou um desafio aos seus seguidores: levar a transmissão do jogo entre o Cascais e a União de Tires a superar a fasquia dos dez mil espectadores. A partida da nona jornada da Segunda Divisão distrital de Lisboa aconteceu no último domingo e o resultado está à vista: em apenas uma semana, o Cascais ganhou mais de 30 mil seguidores no Instagram e mais de 38 mil no YouTube. Quanto ao jogo, a audiência superou os mais de 12 mil espectadores simultâneos — grande parte oriundos das América Latina — e, por esta altura, a transmissão conta com mais de 117 mil visualizações, sendo largamente a mais vista do canal do clube.
Dentro de campo, o resultado foi igualmente favorável ao Cascais, que venceu a equipa de Tires por 2-1, dando continuidade a um início de temporada bastante positivo, com 11 vitórias e três empates nos 14 jogos realizados. No seu Campeonato, a equipa comandada por Daniel Simões é líder isolada com 23 pontos, mais três que o Algés. Caso termine nos dois primeiros lugares, o Cascais vai garantir a subida à Primeira Divisão da AF Lisboa. Na Taça distrital, o clube cascalense vai entrar em ação no próximo fim de semana, em casa do Bragadense, ainda que já tenha conquistado a Taça de Cascais no decorrer desta temporada.
“Ao início ainda pensámos que pudesse ter sido uma jogada de marketing do clube — e, se fosse, era incrível —, e estávamos mesmo a questionar-nos: ‘O que é que se está a passar?’. As redes sociais cresceram de forma tão rápida e inesperada que, dentro do grupo, ficámos completamente à toa com tudo o que estava a acontecer. Depois, a direção confirmou-nos que não tinha nada a ver com aquilo, e percebemos que foi mesmo algo espontâneo, vindo desse influenciador. O certo é que tem trazido uma visibilidade enorme ao clube, tanto nas redes sociais como em termos de imagem. Estamos mesmo muito contentes. Nós, jogadores, temos recebido imensas mensagens de fãs a falar sobre os jogos, a pedir para dedicarmos golos e a mostrar apoio. Dentro da sexta divisão, estamos a viver algo que se aproxima do futebol profissional, pela envolvência e pelo entusiasmo dos adeptos, e tem sido muito giro”, explicou Tomás Reis, capitão e melhor marcador da equipa, com nove golos, ao Flashscore Portugal.
“Durante a semana, o nosso discurso entre jogadores foi exatamente o mesmo que teríamos se ninguém estivesse a ver. Claro que essa visibilidade extra pode mexer connosco de alguma forma e sabemos que há muito mais gente a acompanhar, mas a nossa mentalidade foi sempre a mesma: é apenas mais um jogo e foi assim que o encarámos. Aquilo que aconteceu foi uma loucura mas, dentro de campo, estávamos super tranquilos. Ninguém estava a pensar nas milhares de pessoas que estavam a ver o jogo. Era um jogo normal. Quando marquei o golo, nem me lembrei disso, para ser sincero. Só mais tarde, já em casa, quando estava a rever o jogo, é que me caiu a ficha. Recebi algumas mensagens no Instagram e até comentei com um colega: ‘Então, isto é que é ser jogador de futebol profissional?’ E ele respondeu: ‘Olha, parece que sim [risos]’. Foi engraçado. Não posso negar que sabe bem ter esse apoio dos adeptos. Dá-nos motivação e deixa-nos contentes, sem dúvida”, prosseguiu o capitão.
“Trabalhamos como se fôssemos um clube de Primeira Liga e sei que pode parecer difícil de acreditar, mas temos condições que muitas equipas de divisões superiores não têm. Usamos GPS, drones, temos analistas, acompanhamento de fisioterapia, controlo alimentar e apoio psicológico. É um contexto muito bem estruturado e sólido, que obviamente exige investimento, mas o dinheiro, por si só, não chega. O método de trabalho tem sido realmente muito bom. Depois, claro, temos jogadores com muita qualidade para a divisão em que estamos. Existem incentivos, como é natural, mas não é isso que nos motiva, é o contexto profissional que vivemos. Treinamos de manhã, temos todas as condições. Posso dizer, sem exagero, que não nos falta nada. Somos uns privilegiados para a divisão onde estamos. Temos um modelo sustentável que, acredito, nos vai levar até lá acima. Não tenho dúvidas”, completou Tomás Reis ao Flashscore.