Apesar de ter considerado a cerimónia um “regresso ao passado”, o Presidente da República aceitou o convite para presidir à parada militar que vai acontecer a propósito do 25 de Novembro. Entretanto, a menos de uma semana da efeméride, o presidente da comissão que organiza as comemorações corrige as declarações do Presidente: “A parada militar não é um regresso ao passado, é respeito pelo passado e pelo futuro”.

Ao Observador, a Presidência da República confirma que Marcelo “recebeu a Comissão Organizadora das Comemorações do 50.º aniversário do 25 de Novembro de 1975” e que esta o convidou a “presidir à Parada Militar alusiva à data, convite este que o Presidente da República aceitou.”

Quando o Observador começou por falar com o presidente da comissão, o general Alípio Tomé Pinto, este tinha referido que Marcelo, como comandante supremo das Forças Armadas, “está sempre convidado” e que já tinham sido feitos os “contactos devidos”. Mas a Presidência negava ter, por essa altura, recebido o convite — “O Presidente da República, que vai receber em breve o Presidente da Comissão, não tem conhecimento nem recebeu convite para parada militar nesse dia.”

Agora, Marcelo confirma a reunião e a sua presença na parada, no Terreiro do Paço, em Lisboa, um dia depois de ter parecido desvalorizar a cerimónia, classificando-a como um “regresso ao passado” em que não vai haver “discursos” — uma hipótese que inicialmente a comissão colocara — e cuja duração vai estar “condicionada pela cerimónia na Assembleia da República”, marcada para as 11h da próxima terça-feira (a parada terá a duração aproximada de uma hora).

“Se quiserem, é um regresso ao passado, reavivando aquilo que se fazia nos anos imediatamente seguintes ao fim da revolução”, comentou Marcelo Rebelo de Sousa, que falava esta terça-feira aos jornalistas em Cascais. E continuou lembrando que no ano passado o 25 de Novembro já teve direito a sessão solene na Assembleia da República, como acontecerá também este ano, e que no ano passado o 25 de Abril também foi celebrado com uma parada militar.

Ao Observador, o general Alípio Tomé Pinto, que organiza as comemorações, assegura que Marcelo Rebelo de Sousa “acolheu muito bem” a ideia — como comandante supremo das Forças Armadas “até seria estranho” se não participasse — e confirma que não fará nenhum discurso (haverá apenas uma mensagem de abertura do próprio Alípio Pinto e outra enviada por Ramalho Eanes).

Mas discorda de que a iniciativa represente um regresso ao passado: “Uma parada militar não é um regresso ao passado, é um respeito pelo passado e é também um futuro“, argumenta, frisando que o papel das Forças Armadas é o de “criar condições para que a política seja exercida em liberdade e segurança”. “É o seu papel de sempre, em todos os povos sempre existiram e existirão, porque a segurança é um bem indispensável”.

Assim, se as Forças Armadas fizerem bem o seu papel não representam nenhuma ameaça de “regresso ao passado” — como o próprio reconhece, quando as Forças Armadas “se metem na política há confusão” e por isso essa alteração do seu papel no pós 25 de Abril foi temporário, “uma situação de exceção que deve sempre durar pouco tempo”. Até porque, “contrariamente ao que muitos dizem”, defende, “o 25 de Novembro não é contra o 25 de Abril, mas contra a doutrina do 11 de março“.

O organizador explica que a parada militar vai contar com as várias unidades das Forças Armadas e com elementos de “todas as que intervieram” no 25 de Novembro, incluindo o regimento de comandos de Estremoz, a escola prática de Infantaria de Mafra, a escola prática de Cavalaria de Santarém, a primeira unidade do centro de instrução de Cascais ou o comando da região militar do Norte; em Cortegaça, a Força Aérea vai ter uma cerimónia no dia 27, sobrevoando as forças que estão em parada.

Nas mesmas declarações aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa quis ainda referir que a realização de uma parada militar para comemorar o dia 25 de Novembro de 1975 “é uma ideia” que “já houve, em tempos”. “Verdadeiramente, houve uma parada militar durante a presidência do Presidente Ramalho Eanes — durante os dois mandatos, salvo erro, houve sempre parada militar no 25 de Novembro, houve sempre cerimónia militar”.

As comemorações ainda assumiram estes moldes durante a Presidência de Mário Soares, mas acabaram por cair, passando a ser mantidas no interior dos quartéis, com cada ramo das Forças Armadas a celebrar por iniciativa própria.

No ano passado, no 49º aniversário do 25 de Novembro, o Presidente no Parlamento que não existe contradição na celebração das duas datas, classificando o 25 de Abril como “a data maior”.