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Ao longo de uma cumeeira rochosa no Peru, uma formação com mais de 5.000 buracos alinhados, perto uns dos outros, avançam ao longo da montanha como se fossem uma serpente com cerca de 1,5 quilómetros de comprimento. Quando o arqueólogo Charles Stanish observou pela primeira vez esta “Faixa de Buracos” gigante há mais de uma década, nunca vira nada assim.
“O sítio é fascinante”, diz ele. Igualmente conhecido como Monte Sierpe ou “Montanha da Serpente”, o sítio deixou arqueólogos e teóricos da conspiração perplexos aquando da sua descoberta, durante uma expedição americana ao Peru em 1931. Um novo estudo da autoria de Stanish, que trabalha actualmente na Universidade do Sul da Flórida, e colegas seus, poderá finalmente ter resolvido parte do mistério que envolve a construção desta estranha formação há cerca de mil anos.
Com base em evidências microbotânicas e vídeos filmados por drones, a equipa defende que os milhares de buracos poderão ter sido utilizados para avaliar os tributos entregues pelos autóctones aos seus suseranos incas. A análise, publicada no dia 9 de Novembro na revista Antiquity, também sugere que as origens do sítio antecedem a ascensão do Império Inca.
Actualmente, o Monte Sierpe é um local isolado, no sopé dos Andes, cerca de 32 quilómetros a leste da cidade de Pisco, no sul do Peru. Contudo, os novos estudos sugerem que os incas se apropriaram do sítio porque foi, outrora, um local de encontro essencial, onde se negociava alimentos, vestuário, obsidiana e ferramentas líticas.
Desde extraterrestres à Atlântida
Os arqueólogos pensam que a Faixa de Buracos tem cerca de mil anos e que o povo local chincha ganhou controlo sobre o Império Inca cerca de 400 anos mais tarde. Os chincha viviam nas proximidades, mas os arqueólogos não sabem ao certo quem foram os construtores originais da formação.
C. Stanish
Um conjunto de buracos no Monte Sierpe registados em 2024.
O sítio ganhou proeminência em 1933, quando a National Geographic publicou as primeiras fotografias aéreas desta estrutura singular. E Stanish comenta que é, desde há muito, um foco de teorias de pseudoarqueologia, com alegadas ligações a astronautas antigos e ao mito da Atlântida.
Os estudos arqueológicos sugeriram uma lista de explicações muito mais plausíveis: poderá ter sido usado para fins de defesa ou de armazenamento, para guardar água, recolher nevoeiro ou cultivar alimentos.
Há cerca de dez anos, Stanish sugeriu que os incas utilizassem os buracos para contabilizar os tributos recebidos. O novo estudo sugere que a Faixa de Buracos tenha sido originalmente um mercado de permuta, reforçando a sua ideia original com mais provas científicas. (No entanto, os investigadores não afastam a possibilidade de ser um mero um geoglifo cerimonial, algo semelhante às linhas de Nasca.)
Vestígios reveladores de um antigo mercado
A equipa encontrou indícios minúsculos de milho e plantas silvestres tradicionalmente utilizadas para fabricar cestos no interior dos buracos. Isso sugere que as pessoas tinham revestido os buracos com material vegetal e depositado mercadorias no seu interior, e que utilizavam cestos ou feixes para transportar esses bens, afirma o autor principal do estudo Jacob Bongers, arqueólogo da Universidade de Sydney.
Além disso, a Faixa de Buracos também se encontra junto a uma rede de estradas antigas que ligavam a costa às terras altas dos Andes, sendo por isso “um bom candidato para um mercado de permuta”, comenta Bongers – um sítio lógico para diferentes grupos e mercadores especializados se encontrarem e trocarem mercadorias.
“O grande número de pessoas que depositavam os bens nos buracos poderiam fazê-lo como forma de exporem publicamente a quantidade de mercadoria disponível, bem como a quantidade de mercadoria necessária para uma troca justa”, explica. “Por exemplo, um determinado número de buracos contendo milho poderia ser o equivalente a um determinado número de buracos contendo outro tipo de mercadoria, como algodão ou coca.”
A arqueóloga Jordan Dalton, da SUNY Oswego, gosta da ideia de o Monte Sierpe poder ter começado como um mercado. Especialista em economia do período inca, ela não participou no mais recente estudo, mas tem trabalhado em sítios no vale de Chincha, situados nas proximidades, e visitou a Faixa de Buracos. “É uma zona transitória importante entre os vales e as terras altas, onde diferentes grupos étnicos se podem ter juntado”, diz ela. “Por isso, acho parece-me uma possibilidade muito interessante.”
J.L. Bongers
Ainda não se sabe que grupo ou grupos foram os arquitectos originais do mercado ou quantos buracos incluía aquando da construção original, mas é provável que os incas o tenham expandido e modificado a fim de o tornarem apropriado para os seus fins de contabilidade.
Um sistema de contabilidade na paisagem
Para além da análise dos restos de plantas encontrados nos buracos, os investigadores utilizaram drones para documentar a Faixa de Buracos a partir de cima. Viram que a estrutura com aproximadamente 1,5 quilómetros é composta por mais de 60 “blocos” de buracos diferentes, separados uns dos outros por faixas estreitas de terra. Diferentes blocos contêm diferentes números de filas e diferentes números de buracos em cada fila.
“Uma das secções do sítio tem, pelo menos, nove filas consecutivas com oito buracos cada, enquanto outra tem seis filas consecutivas com sete buracos e há uma fila com oito buracos, totalizando 50 buracos”, diz Bongers. “Outra secção tem, pelo menos, 12 filas, que alternam entre sete e oito.”
Os pormenores ainda são desconhecidos, mas os investigadores pensam que os padrões numéricos dos buracos do Monte Sierpe podem estar relacionados com os métodos de contagem utilizados em alguns khipus – feixes antigos de cordas com nós, que se pensa representarem números e que são frequentemente associados aos incas, mas cuja origem remonta a povos andinos mais antigos.
Os buracos do Monte Sierpe, em particular, podem corresponder ao método de contagem utilizado num khipu antigo que foi encontrado num sítio arqueológico a poucos quilómetros de distância. “De certo modo, o Monte Sierpe pode ter sido um ‘khipu na paisagem’,” diz Bongers. Os incas podem ter-se apropriado do mercado como forma de avaliar os tributos devidos pelos grupos de povos locais, estimando as diferenças entre o nível de tributos e o número de pessoas que deviam o seu tributo.
Se os investigadores estiverem certos, este estudo levanta questões sobre “como as comunidades do passado modificavam a paisagem de modo a unirem as pessoas e fomentarem a sua interacção”, diz Bongers. Stanish acrescenta que estudos futuros irão observar as origens dos vestígios de plantas encontrados, algumas das quais poderiam ser medicinais. “A Faixa de Buracos torna-se mais intrigante a cada descoberta”, diz ele.
Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.