Um novo atlas digital das estradas romanas mostra que a rede viária do antigo Império era muito mais extensa do que se acreditava, graças ao cruzamento de dados históricos com imagens aéreas e de satélite.

Via di Mercurio em Pompeia
Frank Bienewald
Como diz o ditado,”todos os caminhos vão dar a Roma” e uma nova investigação vem dar ainda mais razão à frase: esses caminhos eram 50% mais longos do que se pensava.
O último grande atlas das antigas redes viárias do Império Romano tinha sido publicado há 25 anos. Desde então, os avanços tecnológicos e o acesso a novas fontes alargaram de forma significativa a capacidade dos investigadores para localizar estradas antigas.
Redescobrir os caminhos de Roma
Ao longo de cinco anos, uma equipa de arqueólogos analisou registos históricos, diários antigos, a localização de marcos quilométricos e outros dados de arquivo. Depois, procurou pistas em imagens de satélite e fotografias aéreas, incluindo imagens captadas por aviões durante a Segunda Guerra Mundial e digitalizadas recentemente.
Quando os relatos mencionavam estradas perdidas em determinadas zonas, os investigadores observavam o terreno de cima para identificar vestígios subtis, como diferenças na vegetação, variações no solo ou pequenas alterações de altitude. Também procuravam sinais de engenharia antiga, como montes artificiais ou encostas escavadas, que ajudavam a traçar o percurso das vias romanas.
Os dados e um mapa digital interativo estão disponíveis online para académicos, professores de História ou qualquer pessoa interessada na História da Roma Antiga.
O que faltava nos mapas anteriores
As investigações anteriores centravam-se sobretudo nas “estradas principais do Império Romano”, as grandes vias mais presentes nos relatos históricos, explicou Brughmans, investigador na Universidade de Aarhus, na Dinamarca.
O novo mapa preenche lacunas importantes sobre “estradas secundárias, como as estradas rurais, que ligavam aldeias e quintas” e outros locais menos documentados.
Os investigadores calculavam até agora que a extensão das estradas romanas rondava os 188.555 quilómetros. O novo estudo identifica quase 300.000 quilómetros de vias espalhadas por todo o Império Romano, permitindo visualizar percursos que iam de Espanha à Síria.
O trabalho aumentou também o conhecimento sobre estradas antigas no Norte de África, nas planícies de França e na península do Peloponeso, na Grécia.
“Este será um trabalho fundamental para muitas outras pesquisas”, afirmou o arqueólogo Benjamin Ducke, do Instituto Arqueológico Alemão, em Berlim, que não participou no projeto.
No entanto, ressalvou que ainda não é claro se todas as estradas estiveram em funcionamento ao mesmo tempo.
Uma nova forma de compreender o Império
A possibilidade de visualizar as antigas rotas utilizadas por agricultores, soldados, diplomatas e outros viajantes romanos permitirá compreender melhor tendências históricas que dependiam da circulação de pessoas durante o período romano, explicou Brughmans. Entre elas, a ascensão do cristianismo na região e a disseminação de epidemias.
“Os romanos deixaram um enorme legado com esta rede rodoviária”, afirmou Adam Pažout, arqueólogo e coautor do estudo, da Universidade Autónoma de Barcelona.
As proezas de engenharia romana na construção e manutenção de estradas, incluindo pontes de pedra em arco e túneis escavados em encostas, continuam a moldar a geografia e a economia da região do Mediterrâneo e de outras áreas.