
“Podemos traçar uma linha que liga alguém que compra cocaína numa noite de sexta-feira no Reino Unido aos acontecimentos geopolíticos que causam sofrimento em todo o mundo.”
Comprar cocaína no Reino Unido pode ajudar, de forma indireta, as fábricas de armamento na Rússia, alerta a Agência Nacional do Crime britânica (NCA, na sigla em inglês).
O organismo afirma que um homem ligado a uma rede de branqueamento de capitais liderada pela Rússia, a operar no Reino Unido, comprou um banco no Quirguistão, utilizado para efetuar pagamentos em nome da máquina de guerra russa.
Segundo o subdiretor de Crimes Económicos da agência, Sal Melki, trata-se de um “vasto ecossistema criminoso que financia ações muito negativas em todo o mundo”.
A NCA tem vindo a tentar desmantelar a rede de cima a baixo, chegando a colocar anúncios nos sanitários das áreas de serviço das autoestradas britânicas, alertando os estafetas que transportam dinheiro para organizações de branqueamento de capitais sobre as pesadas penas de prisão a que estão sujeitos.
A investigação ao branqueamento de dinheiro russo recebeu o nome de Operação Desestabilize. No ano passado, a NCA anunciou a identificação de duas redes, TGR e Smart. Atuavam em conjunto para branquear o dinheiro de gangues de tráfico de droga, fornecedores de armas de fogo ilegais e redes de contrabando de pessoas.
Os investigadores descobriram agora que George Rossi, chefe da TGR, comprou um banco no Quirguistão, através da sua empresa Altair Holding S. A. No dia de Natal de 2024, a companhia assumiu 75% das ações do Banco Keremet.
Investigações adicionais concluíram que o Banco Keremet facilitava pagamentos para um banco estatal russo chamado Promsvyazbank (PSB), descrito pelo Departamento do Tesouro norte-americano como um “centro de evasão de sanções”.
A NCA afirma que o Banco Keremet ajudava o PSB a efetuar pagamentos para a “base industrial militar da Rússia”, ou seja, para as fábricas que produzem armamento para utilização na guerra contra a Ucrânia.
Nas ruas, a TGR e a Smart fornecem “todo um espetro de serviços de branqueamento de capitais”, segundo a NCA. Permitem que pessoas como traficantes de droga e fornecedores de armas ilegais troquem o seu dinheiro por criptomoedas.
Os investigadores afirmam que a rede de branqueamento de dinheiro operava em pelo menos 28 cidades no Reino Unido, “sustentando toda uma estrutura que permite que o crime compense no nosso país”. Melki alerta que “não podemos ignorar a imensa dimensão desta ameaça”.
“Podemos traçar uma linha que liga alguém que compra cocaína numa noite de sexta-feira no Reino Unido aos acontecimentos geopolíticos que causam sofrimento em todo o mundo.”
“Não é algo simples como ‘OK, pago ao meu traficante e acaba aí’”, prossegue. “Na verdade, estamos perante um vasto ecossistema criminoso que financia ações muito nocivas a nível global.”
“Podemos afirmar com certeza que o branqueamento de dinheiro nas ruas é verdadeiramente fundamental para sustentar o funcionamento da criminalidade grave no país.”
Ele destaca ainda que os seus investigadores descobriram que a rede Smart, dirigida por Ekaterina Zhdanova, forneceu serviços financeiros a uma rede de espiões liderada pelo búlgaro Orlin Roussev, que rastreava inimigos da Rússia em toda a Europa.
Zhdanova encontra-se atualmente detida em França, aguardando julgamento.
A operação começou por investigar as atividades do grupo de ransomware Evil Corp, mas acabou por expor uma “escala impressionante” de branqueamento de capitais, segundo a NCA. A Smart e a TGR branqueavam “mil milhões de libras em património de criminosos”.
O dinheiro recolhido era lavado através de empresas com grandes quantidades de numerário, como o setor da construção, ou acumulado em esconderijos e retirado do país para branqueamento no estrangeiro.
Por vezes, o dinheiro era contrabandeado em caixas de detergente e leite em pó. Entre os envolvidos nos grupos destaca-se James Keatings, ex-jogador de futebol que passou por vários clubes escoceses.
Além disso, a NCA afirma que Semen Kuksov e Andrii Dzektsa branquearam dinheiro para o cartel de droga irlandês Kinahan. Dois homens condenados este ano, Valeriy Popovych e Vitaliy Lutsak, compravam veículos no Reino Unido e levavam-nos para a Ucrânia, onde eram vendidos em troca de criptomoedas.
Uma folha de cálculo indica que lavaram 6,63 milhões de libras de dinheiro britânico ilícito, apenas entre agosto de 2022 e junho de 2023.
Cerco a apertar
No nível mais baixo da cadeia, as pessoas que praticam branqueamento de capitais precisam de estafetas para movimentar o dinheiro do crime pelo país.
Estes estafetas costumam receber uma comissão de 0,5%. Ou seja, para transportar 100 mil libras, recebem 500 libras, mas podem ser condenados a cinco anos de prisão ou mais.
“O risco é todo vosso”, alerta Melki aos estafetas. Anúncios foram colocados sobre os mictórios das áreas de serviço das estradas britânicas, em russo e inglês, alertando para as penas de prisão aplicadas a quem transporta dinheiro ilegal.
“Estamos a comunicar diretamente com eles, no seu próprio idioma, alertando que o cerco se está a apertar”, afirma Melki. “Sabemos quem são e estamos a caminho.”