Cinco livros na estante é o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicatórias, cheiros e marcas, Ana não consegue doá-los e decide devolvê-los para quem a presenteou, dando início a reencontros marcados pelas mais diferentes emoções – Arte de Kiko com fotos de Ralf Tambke/ Divulgação
Cinco livros na estante é o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicatórias, cheiros e marcas, Ana não consegue doá-los e decide devolvê-los para quem a presenteou, dando início a reencontros marcados pelas mais diferentes emoçõesArte de Kiko com fotos de Ralf Tambke/ Divulgação
Publicado 23/11/2025 08:00 | Atualizado 23/11/2025 14:47
Logo que Denise Fraga apareceu nas primeiras cenas do filme ‘Livros Restantes’, minha mente começou a viajar pela minha própria história e não apenas pela da professora Ana Catarina, personagem vivida pela atriz. Já havia lido a sinopse do longa previamente e sabia que a obra iria retratar o momento em que a protagonista, depois de passar a vida em uma comunidade de pesca em Florianópolis, prepara-se para mudar para Portugal. Cinco livros na estante é o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicatórias, cheiros e marcas, Ana não consegue doá-los e decide devolvê-los para quem a presenteou, dando início a reencontros marcados pelas mais diferentes emoções.
Os livros de Ana, minha xará, me fizeram lembrar dos bilhetes que guardo com carinho na prateleira do meu quarto. A maioria está em um livro pequeno: os papéis das mensagens guardadas estão dentro de suas páginas, mas extrapolam suas dimensões. Um dos papéis, escrito à mão, traz à tona um ensinamento do médium Chico Xavier: “Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de ninguém sem nenhuma razão”. Já outro bilhete, mais recente, ainda está entrelaçado a uma embalagem por meio de um pregador colorido. Com papel amarelado, como se já tivesse sofrido a ação do tempo, ele traz um emoji que me faz rir em conversas no WhatsApp, além da dedicatória: ‘Com carinho’. Quando recebi esse mimo, estava em um momento tão sensível que chorei muito diante daquelas duas palavras escritas à mão: ‘Com carinho’.
Essas memórias permearam minha mente enquanto Denise Fraga nadava no mar em uma das cenas iniciais do filme, que tem direção de Marcia Paraiso e estreia nos cinemas no dia 11 de dezembro. E também enquanto barcos cruzavam as águas daquele vilarejo catarinense. Também fiquei atraída pela canção de Zininho, compositor catarinense, que faz parte da trilha sonora: “Deixe a porta aberta/ Qualquer dia vou voltar…”
No primeiro encontro para devolver um dos cinco livros restantes, a professora Ana Catarina revê uma amiga. “Eu vou para um lugar onde ninguém me conhece. Ninguém sabe quem eu sou. Lá eu não sou a filha da Dona Antônia, a irmã do Sérgio, a professora Ana Catarina, que agora tem ex-aluno que já é pai e mãe. Enfim, eu posso inventar até uma identidade nova para mim”, diz Ana. No entanto, fiquei pensando que, por mais que a gente se mude para um lugar que ninguém nos conheça, nosso passado jamais deixará de estar conosco. Serei para sempre filha e irmã de quem sou e tenho a convicção de que tudo isso constitui a minha história. Mesmo que eu me mudasse para muito longe, as emoções que vivi na minha terra, com as pessoas que amo, também embarcariam comigo.
No mesmo encontro, Ana Catarina entrega o livro à amiga e explica, lindamente: “Esses livros são especiais porque pessoas especiais me deram e escreveram neles. Tinham marcas. A letra, ali, falando comigo. De certa forma, eram livro-pessoas. E eu tô meio que pedindo para você guardar um pedaço de mim, para você guardar um pedaço da gente, assim…” A atuação de Denise dá o tom da mulher que se despede, mas revira seu passado: a fala é entrecortada por um certo nervosismo e pela emoção do reencontro. Em close na tela, suas mãos muitas vezes denunciam a inquietação de quem fez laços, mas está prestes a partir. Eu pude sentir a apreensão daquela mulher quando o zoom da câmera mostrava seus dedos quase arrancando as peles das laterais das unhas.
Fiquei encantada por essa ideia de os livros com dedicatórias serem pessoas. Para mim, os bilhetes guardados na minha prateleira também são assim. Ainda pensei nas mensagens que já eternizei com a minha letra e dei de presente para alguém: parte de mim se colocou ali. Assim, o filme se desenvolve costurando todos esses reencontros por meio dos livros devolvidos. Mas nem todos saem da maneira como Ana Catarina planejou. Na vida real é assim: há histórias que fizeram muito sentido em alguma época, mas que ganharam novos rumos durante os anos.
O filme traz ainda à tona uma memória dolorosa e triste para Ana Catarina, em um embate que lhe faz revolver uma ferida de infância e ver a mãe lhe abraçar de maneira terna. Já no fim da obra, me lembrei mais uma vez dos meus bilhetes guardados na prateleira do quarto quando Ana Catarina, já em Portugal, escreve para casa e faz um pedido à mãe: “Me escreve, quero ler você, pegar no papel que você segurou, sentir o cheiro que vem junto com a carta…” Quanta poesia em uma mensagem! Talvez seja por isso que eu tenha apreço pelos bilhetes que guardei. Talvez seja por isso que a minha xará do filme tenha tanto carinho com as dedicatórias. Em tempos cada vez mais virtuais, ainda acredito na beleza desse gesto de receber um papel que passou pelas mãos de outra pessoa. Com uma grafia só dela. E talvez essa seja uma porta aberta para memórias.