Há lendas que nunca caem no esquecimento, por muito que os anos passem. Tó Madeira, o famoso — e misterioso — craque do jogo Championship Manager (CM), é certamente um destes exemplos. A lenda urbana foi resgatada pelas mãos de Luís Franco Bastos, mais de uma década após o P3 ter conseguido a única entrevista até à data concedida por Tó Madeira. A série ficcionada de três episódios lançada pelo humorista no YouTube uniu milhares de utilizadores nostálgicos e teve o condão de ressuscitar o “culto” iniciado há 25 anos. Será que Tó Madeira viu e gostou da série? O que é feito dele agora? Munidos de um contacto antigo, tentámos a nossa sorte.
“Achei o primeiro episódio engraçado, mas depois não gostei do rumo que a série levou”, admite António Lopes, o nome verdadeiro de Tó Madeira. Desiludido com o facto de a história ter sido altamente ficcionada e se ter desviado da verdade dos factos, diz-se, ainda assim, feliz e agradavelmente surpreendido com o facto de alguém ter recuperado a sua proeza.
“Surpreendeu-me, é algo com muita mais visibilidade do que as coisas pontuais. Soube através de um amigo meu que entra na série que tinha existido um contacto com o Desportivo de Gouveia e que seria o Luís Franco Bastos a fazê-lo. Mas comigo ninguém falou directamente”, diz.
Como nasceu a história de Tó Madeira? No ano 2000, a Sports Interactive (SI), empresa responsável pelo CM, um jogo de simulação em que o jogador assume o papel de treinador de uma equipa de futebol, procurava voluntários para catalogar as divisões inferiores do futebol nacional. Já naquela altura, o jogo dispunha de milhares de equipas e respectivos jogadores, uma base de dados impressionante que cativava milhões de pessoas.
António Lopes voluntariou-se para traçar o perfil aos jogadores do C.D. Gouveia, à altura na terceira divisão. Com a ajuda de dois amigos, preencheu tabelas com avaliações de dezenas de parâmetros dos jogadores do plantel, um processo moroso e que requer imparcialidade. No final, como recompensa pelo trabalho concluído pelos três, juntou à ficha do Gouveia três nomes: o de “Tó Madeira” (o próprio) e os dos dois amigos. Com parâmetros de jogo normais, passaram despercebidos.
Tudo mudaria no CM 2001/02, a edição seguinte do jogo. António Lopes foi convidado pela SI a actualizar os dados do plantel do Gouveia, mas, em plena época de exames para a licenciatura de Engenharia Civil, o estudante não dispunha de tempo para ser diligente.
“A solução que encontrei foi colocar-me a mim, aos meus amigos e primos todos no plantel, mantendo a maior parte das idades”, revelou ao P3 em 2014. “Exagerei nas características que atribuí a cada um dos jogadores, claro, mas sempre pensei que haveria algum tipo de algoritmo para verificar a base de dados”, confessou em 2014. Mas esse não foi caso e a brincadeira assumiu outros contornos.
O resultado foi Tó Madeira, um superjogador que combinava a velocidade e força de Cristiano Ronaldo à técnica e habilidade de Lionel Messi. Ainda juntou a essa receita a capacidade de David Beckham nas bolas paradas e as de Mário Jardel nos cabeceamentos. Resumindo: para quem quisesse ganhar um campeonato ou uma Liga dos Campeões, ter Tó Madeira na equipa era meio caminho andado para o sucesso.
Os irmãos Peralta, outro fenómeno de popularidade no jogo, eram, na verdade, dois primos de António que este decidiu incluir no Gouveia, alterando datas de nascimento: “Mas os meus primos chegaram, de verdade, a jogar no Sporting Clube de Portugal.”
Uma actualização ao jogo corrigiu estes super-heróis disfarçados de futebolistas, extinguindo-se a participação de Tó Madeira e companhia nos relvados virtuais do CM.
De volta ao presente, 11 anos volvidos, mantém a história linha por linha. Até admite ter instalado novamente o jogo para testar as proezas do Tó Madeira. “Voltei a instalar o jogo. Sou sportinguista e costumo jogar com o Sporting nestes jogos. Até posso mandar a foto, marquei 92 golos numa época. Foi o meu recorde. Na altura lembrava-me que marcava uns 50 ou 60 golos por época”, reitera. Minutos depois, chegou a fotografia a comprovar a proeza.
Agora regressou a atenção mediática. Na altura, vários funcionários da SI, a empresa que foi “enganada” por Tó Madeira, ficaram tão impressionados com a história que chegaram a criar um clube de futebol amador baptizado com o nome do jogador.
Na escola da filha de António, são já vários os alunos que ouviram falar do mítico Tó Madeira através dos pais, tios ou professores. No padel, desporto que Tó Madeira pratica regularmente, a camisola traz o nome da personagem no CM. Adversários e colegas pedem autógrafos e fotografias, quando tomam conhecimento de quem está na sua presença.
A atenção que Tó Madeira dedicou aos exames de Engenharia Civil — que o levou a inventar jogadores e avaliações para não falhar ao prazo da SI — acabaria por valer a pena.
António tem agora uma empresa de construção civil com dois outros sócios. Um caminho profissional peculiar para aquele que foi, por alguns meses, o melhor jogador da história da humanidade. Isto sem sequer precisar de dar um chuto numa bola.