Aos 86 anos, sir Jackie Stewart é o único campeão do mundo de Fórmula 1 dos anos 60 que ainda está vivo. Venceu o Mundual três vezes — 1969, 1971 e 1973 –, ficou outras duas no segundo lugar e conquistou a alcunha “The Flying Scot”, o Escocês Voador. Foi mecânico antes de ser piloto, competiu por quatro equipas diferentes e nunca deixou a modalidade mesmo depois de terminar a carreira, mantendo-se ligado à Ford durante décadas, fundando a própria equipa e continuando a ser parceiro quase vitalício de marcas como a Rolex, a Heineken ou a Moët & Chandon.
Conhecido na cultura pop por ter sido o primeiro piloto a atirar champanhe depois de uma vitória — inicialmente até foi um acidente –, Jackie Stewart foi também um dos grandes responsáveis pela melhoria das condições de segurança dos pilotos de Fórmula 1. Acabou a carreira na véspera de cumprir o centésimo Grande Prémio porque François Cevert, o seu protegido, morreu em pista nesse mesmo fim de semana. A partir daí, e garantindo sempre que foi a mais funerais do que qualquer outra pessoa, dedicou-se à redução dos riscos da modalidade. Agora, décadas depois, tem outro desígnio.
Em 2014, a mulher de Jackie Stewart foi diagnosticada com demência frontotemporal. Braço direito do piloto britânico durante seis décadas, Helen McGregor era presença assídua no paddock e os relatos da altura garantem que tinha voz e opinião respeitada entre os engenheiros e os responsáveis das equipas, sendo mesmo considerada uma das mentes mais brilhantes da Fórmula 1 dos anos 60. Atualmente, como conta o marido, não se recorda de nada.
“É uma jornada emocional muito grande. Ver alguém que amamos, que adoramos, alguém que cortejámos durante quatro anos, que é minha mulher há mais de 60 anos, ser-me roubada grau a grau”, contou o antigo piloto em entrevista ao jornal The Telegraph. Dois anos depois do diagnóstico de Helen, Jackie Stewart decidiu fundar a Race Against Dementia, uma fundação que já angariou mais de 20 milhões de libras para a investigação da doença e apoiou 65 projetos, conectando cientistas e investigadores com especialistas em engenharia ligados à Fórmula 1 com o objetivo de acelerar a inovação.
Para o britânico, que entretanto entregou a liderança da fundação a um dos filhos mas continua muito ligado ao projeto, o objetivo é a cura. “Às vezes nem consigo acreditar que ainda não existe. Se nada for feito, uma em cada três pessoas que hoje estão vivas vai morrer com demência. É a principal causa de morte no Reino Unido e é a doença mais cruel de todas. Estou mesmo a falar a sério quando digo que este é o maior desafio da minha vida. A Fórmula 1 é muito global, mas não é tão global como a medicina”, acrescentou.
Na entrevista, Jackie Stewart lembrou um dos primeiros momentos em que percebeu que a mulher já não se recordava dele, sublinhou que os períodos de lucidez são cada vez mais curtos e raros e explicou que Helen já não consegue andar, estando totalmente dependente. O britânico tem noção de que beneficia de um privilégio pouco comum, já que praticamente tornou o apartamento onde vivem na Suíça num centro de cuidados para a mulher, e reconhece que sem a fortuna que amealhou ao longo da carreira não seria possível mantê-la ainda em casa.
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“Visito muitas clínicas e lares para pessoas com demência e é tão deprimente. Ninguém fala com ninguém, toda a gente está perdida no seu próprio mundo. Saio sempre a chorar. Ela tem duas enfermeiras 24 horas por dia e são ambas especialistas na doença. Temos muita sorte”, sublinhou. Aos 86 anos, Jackie Stewart continua a acordar cedo para fazer exercício, passeia os dois cães e faz fisioterapia de forma regular — algo que se tornou obrigatório há dois anos, quando sofreu um AVC enquanto estava na Jordânia como convidado de um casamento da família real do país.
Presença habitual nas corridas de Fórmula 1 e com lugar mais do que guardado para a última do ano, no início de dezembro em Abu Dhabi, o antigo piloto fala apaixonadamente sobre as investigações apoiadas pela fundação que criou: uma da Universidade de Cambridge, que procura encontrar mudanças moleculares no cérebro que antecipem demência 10 a 20 anos antes dos primeiros sintomas, outra da Universidade de Edimburgo, que estuda a maneira como a versão tóxica de uma proteína pode agravar a doença, ou até projetos associados à utilização da inteligência artificial.
“Encontro pessoas afetadas por esta doença em todos os sítios para onde viajo. Posso estar na rua em Timbuktu e alguém vem ter comigo para dizer ‘Jackie, lamento muito pela Helen, a minha mãe também tem demência’. Não sei quanto tempo vai demorar, não tenho um número. Mas temos de encontrar uma cura. E rezo para que aconteça enquanto ainda for vivo”, terminou.