A 10 de abril de 1970, Paul McCartney esclarecia oficialmente que já não estava a trabalhar com os Beatles. O mundo tremeu, aguentou-se na medida do possível depois daquela que era a mais grave, dura e, apesar de tudo, esperada das separações. Que aquela novela já estava mal, talvez poucos soubessem de forma absolutamente esclarecida, talvez outros quisessem viver enganados, mas a inevitabilidade manifesta-se sempre.

Já entre 1970 e 1971, Neil Aspinall (1941-2008), responsável por tudo o que era coisa com a marca The Beatles, teve a ideia (como teve tantas outras ao longo da carreira da banda) de juntar tudo o que era imagem de arquivo com John, Paul, George e Ringo para fazer um filme documental sem entrevistas, apenas com os registos de atuações, sessões de estúdio, graçolas, pequenos dramas, desfiles de bons casacos entre a saída dos carros e a entrada em Abbey Road. A ideia era ótima, claro que era, mas o tempo era péssimo: seriam necessários vários anos até que um acordo entre as partes tornasse o fim da banda uma realidade digerível e a relação com o passado possível.

Em 1992, quando os Beatles-menos-John (1940-1980) já eram novamente um grupo de amigos mais ou menos saudável e se juntaram para fazer Anthology (um documentário em 6 episódios a contar a história do grupo, acompanhado por edições discográficas ambiciosas, em três volumes), a ideia de Aspinall tinha-se transformado na melhor de sempre em todos os sentidos e até teve planos alterados. Afinal houve entrevistas, conduzidas por Jools Holland (pianista-comunicador de enorme fama no Reino Unido), afinal os seis episódios transformaram-se em oito, os discos (originalmente três, agora com um quarto volume, com mais gravações e versões inéditas, 36 no total) ganharam capas ilustradas com magníficas colagens e, quando o primeiro episódio foi revelado em 1995, os Beatles voltaram a lembrar que nunca deixaram de estar na moda. A distância era apenas aparente e, por vezes, deliberada.

[o quarto volume de Anthology, já disponível em múltiplos formatos e também em streaming:]

No início dos encontros dessa mesma década, para arrancar com os trabalhos de escavação e seleção de arquivos, George Harrison (1943-2001) terá dito sábias palavras, como aliás costumava fazer (até mesmo quando não dizia nada era sábio, ora vejam o filme Get Back): “Foi bom as pessoas esquecerem os Beatles durante algum tempo, deixar a poeira assentar”. Mas as pessoas nunca os esqueceram, apenas aprenderam a viver com eles de outra maneira.

John Lennon já tinha dito, por volta de 1964, quando os Beatles estavam a caminho de ser maiores do que Jesus Cristo nos EUA, que sabia lá ele se a banda ia durar mais 2 anos ou 10 anos. Sabia lá ele onde iria estar, onde os companheiros iriam estar. Ringo Starr, inteligentíssimo a gerir o estrelato como coisa que sabia passageira, plástica e efémera, diz, a certa altura desta Antologia, que nem deu por nada: multidões, gritos, correrias, escândalos, ameaças, sucessos, tudo lhe passou ao lado porque ele estava no meio. Contas feitas, foi tudo “muito divertido”. Quem nos dera ser amigo de Richard Starkey.

Paul não. Paul era o cérebro e nunca deixou de ser. O chefe oficioso, o patrão não nomeado, o motivador que também era o polícia mau. O democrata que sempre soube que a democracia no rock’n’roll tem limites. O Mick Jagger dos Beatles. O melodista perfeito que carregou a bagagem até a ter perdido e que a recuperou assim que foi possível. É ele o motor de tudo. E Peter Jackson, que já tinha recuperado Get Back, recuperou Anthology, com McCartney como timoneiro.

[O trailer da reedição da série documental “Antologia”:]

Vai estar no Disney+ aos pedaços, a partir de 26 de novembro (primeiro com três episódios, mais três no dia 27 e os últimos no dia 29), como a contemporaneidade exige, mas é McCartney que paira sobre tudo isto, dando a mão a Yoko Ono, que gere o legado de Lennon, e dando corpo a outra frase chave do nono e novo episódio que esta reedição revela. Diz Paul: “É impossível contar a história dos Beatles”. A não ser que seja a história que os Beatles querem contar. E é por isso que agora temos uma hora extra: porque os Beatles quiseram. Eles que, afinal, nunca foram a lado nenhum.

A melhor banda de sempre, os mais visionários, os anos 60 em quatro pessoas, as quatro faces de Deus. Enfim, chamem-lhes o que quiserem, mesmo que prefiram os Rolling Stones, os Beach Boys ou o Quarteto 1111. Os Beatles parecem impossíveis. Como é que aconteceram? Como é que quatro tipos que tocavam em Hamburgo — porque era onde o rock’n’roll de amadores dava bom dinheiro, com álcool, erva e sexo à mistura (não deixem que a imagem inicial da banda voz engane, meninos sois vós se pensarem o contrário) — deixaram os quartos com beliches e tomaram conta do mundo de tal maneira que do mesmo mundo tiveram de fugir?

É isso que Anthology conta. Paul, George e Ringo, a recordar Liverpool, Hamburgo, primeiros sucessos, filmes, histeria, a América, a Índia, as Filipinas, as drogas, Dylan e Elvis, a magia do estúdio, o cansaço, os ciúmes e o fim, como na cantiga de McCartney. Mas é a história dos Beatles pelos Beatles. Faltam as discussões, os desacordos, as imposições, as separações feias logo no início, as chatices com dinheiro a caminho do fim, os desentendimentos sobre quem geria o quê, as acusações da mulher deste ou da mulher daquele, além do pós-separação, feio, difícil, uma travessia no deserto que ninguém nunca quer lembrar porque, enfim, há Strawberry Fields e Penny Lane e A Day in the Life e Rubber Soul e o White Album — porque raio haveríamos de concentrar atenções em qualquer outra coisa?