Humphrey Bogart apareceu para o teste com os olhos injetados e a barba por fazer, depois de uma noite em claro na companhia de muitos copos de uísque. Para sua surpresa, foi escolhido para o papel —aquele tipo solitário e ressacado era exatamente o que estavam procurando. E os produtores estavam certos: a peça, “The Petrified Forest”, foi um sucesso. As resenhas entusiasmadas levaram a Warner a contratar o ator, que nunca mais saiu do cinema.

O episódio mostra como a carreira de Bogart foi também forjada pela experiência nas mesas e balcões dos bares. O Rick Blaine de “Casablanca” talvez não fosse tão convincente se o ator não tivesse a alma encharcada de álcool. É, afinal, o filme que melhor representou o ambiente de um bar clássico. E que tem o melhor bartender/dono de bar, na figura estóica do ator, com seu olhar cansado do mundo e fundas marcas de expressão.

A primeira exibição de “Casablanca” se deu em 26 de novembro de 1942, cerca de sete anos depois daquele teste que revelou Bogart. Fosse hoje, o longa seria difícil de engolir para o governo anti-imigração dos EUA. Apenas três dos atores creditados eram estadunidenses. A maioria —com algumas exceções, como a sueca Ingrid Bergman— era composta de refugiados do nazismo, como os próprios personagens. (Muitos choraram na famosa cena em que cantam a Marselhesa.)

O curioso é que, ainda que o Rick’s Café tenha virado template para bares descolados de hoje, apenas dois coquetéis são preparados pelo divertido Sascha: o french 75 e o champanhe cocktail. O ator que faz o bartender, o russo Leonid Kinskey, declarou que só conseguiu o papel porque era companheiro de copo de Bogart (e porque o primeiro ator escalado não era engraçado o suficiente.)

Muitos sentaram-se na mesa com o ator de “O Falcão Maltês” e “O Tesouro de Sierra Madre”, a começar pelo diretor de ambos filmes, John Huston. Alguns, em boa parte escritores e roteiristas, nos tempos da Lei Seca, quando tomavam drinques com gim feito na banheira.

Quando não tinha dinheiro para pagar, Bogart jogava xadrez a um dólar – e sempre ganhava. Mesmo assim, pendurava contas de até dezoito meses em vários speakeases. Diz-se que obteve sua cicatriz na boca em uma dessas noites clandestinas, resultado de uma briga.

Brigas, aliás, moveram seu casamento com a atriz Mayo Methot. Eram tão intensas (ela chegou a esfaqueá-lo e a botar fogo na casa) —e regadas a muito etanol— que foram proibidos de entrar juntos nos bares, medida sensata para preservar taças e garrafas.

Bogart adotou cedo o hábito de beber, absorvendo os eflúvios etílicos das festas promovidas por seus pais, da alta sociedade. No entanto, evitava se embriagar enquanto estava trabalhando. A carraspana só começava após as filmagens, já no camarim. Em dias de folga, ao meio-dia tomava um uísque antes do almoço, duas cervejas com a comida e Drambuie de aperitivo. Estava apenas começando, claro.

CASABLANCA

  • 60 ml de rum claro
  • 22,5 ml de licor de laranja
  • 22,5 ml de suco de limão
  • 15 ml de licor maraschino
  • Clara de um ovo
  • Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça martini. Decore com casca de laranja.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.