De acordo com o último relatório de monitorização da DGS, divulgado esta terça-feira, a cobertura vacinal aumentou nos dois grupos mais idosos. No grupo etário potencialmente mais vulnerável, acima dos 85 anos (e para o qual está indicada a vacina de dose elevada, que confere maior proteção), a taxa de cobertura atingiu já os 80,6%, acima dos 78,9% registados na mesma semana do ano passado. Também no grupo anterior, dos 80 aos 84 anos, se regista um aumento, tendo a cobertura vacinal aumentado de 68,9% para 70,8%. Contudo, há menos adesão nas faixas etárias entre os 70 e os 79 anos e também entre os 60 e os 69 anos, o que leva à diminuição da taxa de vacinação somada de todos os maiores de 65 anos. Se consideramos este indicador, há, nesta época gripal, menos 15 mil pessoas vacinadas.
DGS. Mais de um terço das crianças com 6 a 23 meses já vacinadas contra a gripe
O número de vacinados global é este ano maior, também devido à principal novidade da campanha de vacinação de 2025/2026: o alargamento a todas as crianças dos 6 aos 23 meses, independentemente de serem saudáveis ou pertencerem a grupos de risco. Esta alteração permitiu já vacinar mais de 43 mil crianças, cerca de um terço das elegíveis.
Apesar de ainda se manter em valores reduzidos e normais para a época, a atividade gripal está a acelerar. Segundo o último relatório do Instituto Nacional e Saúde Doutor Ricardo Jorge, referente à semana entre 10 e 16 de novembro, foram detetados 185 casos positivos, um aumento de praticamente 50% em relação à semana anterior (na qual tinha sido registados, pela Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe e Outros Vírus Respiratórios, 124 casos).
No entanto, o relatório aponta para um início mais precoce do vírus Influenza nesta época gripal em relação à anterior. “A circulação do vírus da gripe mantém-se em níveis baixos, observando-se, no entanto, uma tendência crescente com 3 a 4 semanas de antecedência em relação às duas épocas anteriores”, aponta o INSA.
O médico de saúde pública Bernardo Gomes lembra o aviso feito pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que alertou, há poucos dias, a população para um “maior risco de complicações e uma época mais complicada este ano devido, efetivamente, à emergência de uma estirpe que não está prevista nas vacinas”.
A eficácia das vacinas disponíveis varia mas, normalmente, ronda os 70%, diz o pneumologista Luís Rocha. Ou seja, quem toma a vacina tem 70% menos probabilidade de contrair a infeção e, consequentemente, de desenvolver doença grave. O presidente da ANMSP realça que a eficácia varia de ano para ano. “Podemos estar a falar de 40 a 50% de eficácia. Para eventos mais complicados [para doença grave], os números são superiores”, diz Bernardo Gomes.
No entanto, a vacina disponível na presente época vacinal, cujo processo de produção terminou na última primavera, não contempla a mais recente mutação do vírus, isto é, a estirpe K do H3N2. “As análises antigénicas e serológicas in vitro também sugerem uma incompatibilidade entre a vacina e este novo subclade [estirpe]”, refere o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, acrescentando que “os dados reais sobre a eficácia da vacina são ainda limitados”. Por isso, a eficácia será menor, advertem os especialistas, o que poderá resultar num aumento da doença grave e da pressão sobre os serviços de saúde.
No entanto, os especialistas reforçam a importância da vacinação, a arma mais eficaz na prevenção da infeção. E quanto mais cedo os grupos de risco forem imunizados, maior proteção terão contra a gripe, principalmente nos meses de inverno, onde a circulação do vírus Influenza é mais intensa. “A primeira mensagem é que as pessoas se devem vacinar, principalmente nos grupos de risco acima dos 60 anos, em que existem mais doenças crónicas associadas, como doença respiratória, cardíaca, hepática, renal ou diabetes”, sublinha Luís Rocha.
No entanto, lembra Bernardo Gomes, além da vacinação há outros cuidados que a população deve adotar de forma a minimizar os riscos desta época gripal. “Se as pessoas tiverem mais cuidado com o distanciamento de pessoas doentes, não contagiarem outros e, eventualmente, tiverem cuidado com a ventilação das salas (ter esses espaços bem ventilados), se o clima ajudar e estiver mais quente durante o período de inverno, tudo isto faz com que, depois, a previsão acabe por não se tornar verdade”, diz o médico, referindo-se ao receio, generalizado na área da saúde, de que o inverno que se aproxima será mais exigente que o último.