Nas contas da SDR Portugal, cerca de 85% das garrafas consumidas em Portugal serão devolvidas aos retalhistas, sendo que metade do consumo será proveniente do canal Horeca, ou seja, dos restaurantes e hotéis. Essa é, aliás, uma das especificidades do mercado português. “O sul da Europa tem características diferentes, tem muitos cafés e hotéis. No total, vamos relacionar-nos com cerca de 90 mil entidades. E a grande dificuldade vai ser gerir o canal Horeca”, diz Leonardo Mathias. Espanha, que vai implementar o seu sistema em 2028, “já está a olhar para nós e a ligar-nos”, porque tem um mercado com características semelhantes, tal como França e Itália.
Isto acarreta um custo extra para os grandes retalhistas, ressalva Gonçalo Lobo Xavier, que têm de devolver dinheiro de embalagens que não venderam. Por isso é que está prevista uma compensação aos retalhistas por cada embalagem recolhida. É um mecanismo “de alguma complexidade tecnológica”, reconhece o porta-voz da APED, mas que vai chegar ao consumidor já com tudo “estudado e acautelado”. “Se uma garrafa que hoje custa um euro vai passar a custar 1,20 euros [valor exemplificativo], esses 20 cêntimos têm que ser devolvidos. Se a loja que devolver esses 20 cêntimos não for a loja que vendeu a garrafa, vai ter de receber os 20 cêntimos da loja que a vendeu. Tem que haver um mecanismo informatizado para ir buscar os 20 cêntimos à loja que a vendeu”. Ou seja, todas as garrafas e o respetivo valor de depósito vão ser rastreáveis, para que não haja desequilíbrios financeiros.
Daí que a APED, acrescenta Gonçalo Lobo Xavier, tenha feito um “esforço muito grande para incentivar os retalhistas a organizarem-se à volta da SDRetalhistas”, a estrutura que representa o setor neste sistema, e que vale mais de 80% da quota do retalho alimentar em Portugal. “O mecanismo fica assim muito mais facilitado”, porque estão quase todos inscritos no mesmo sistema, constata o diretor-geral da APED.
A distribuição também poderá ganhar, por outro lado, com mais pessoas nas lojas, aponta Leonardo Mathias. É isso que revela a experiência dos outros países. “Uma entidade que recolha bastantes destas unidades geralmente tem um aumento de tráfico dentro de loja. Portanto, isto pode ser um atrativo”, além do custo. Além de ser “uma oportunidade de modernização tecnológica e de reforço da relação com o consumidor”.
Com este tipo de recolha mais seletiva, garante-se que as garrafas e latas podem voltar a ser garrafas e latas de forma mais eficaz do que acontece atualmente com as embalagens que vão para o ecoponto amarelo, onde vão misturadas com todo o tipo de plásticos. “Após a devolução das embalagens, elas são recolhidas e transportadas para centros de contagem e triagem. Asseguramos que o material segue para a reciclagem, que vai ser uma reciclagem de alta qualidade, na medida em que vai poder produzir nova matéria-prima, portanto isto é verdadeira economia circular”, diz Leonardo Mathias.
A SDR tem atualmente abertos dois concursos para a contratação de operadores de contagem e triagem, um para a zona Centro/Sul, “com localização preferencial nos municípios incluídos nas subregiões administrativas localizadas a norte da Área Metropolitana de Lisboa”, e outro para o Norte/Centro, “com localização preferencial nos municípios incluídos nas subregiões administrativas localizadas a norte da Área Metropolitana do Porto”.
Leonardo Mathias diz que gostava de conseguir operar toda a cadeia de valor dentro da SDR Portugal, mas isso não é possível. Esta parte da operação tem de ser assegurada por operadores de gestão de resíduos, e a SDR não tem essa licença.
Já a recolha das garrafas poderá ser feita de duas formas. Por um lado pela chamada “logística inversa”, que se aplica a quem já é distribuidor de garrafas, e que poderá recolher as vazias quando vai entregar embalagens novas. A SDR Portugal acredita que 25% do canal Horeca vai funcionar assim. A alternativa é a logística dedicada, em que as garrafas são recolhidas por operadores especializados. Uma parte desta operação já existe, mas “pode ser expandido, tornado específico e podem ser formadas rotas novas de recolha e distribuição”, explica Leonardo Mathias.
O sistema vai ser implementado já com a aprendizagem de um projeto piloto que decorreu entre 2020 e 2022 em 23 supermercados espalhados pelo país. Na altura foi posto em marcha pela APED e pela APIAM (Associação Portuguesa dos Industriais de Águas Minerais Naturais e de Nascente) e financiado pelo Fundo Ambiental, e o que se pedia aos consumidores era que, justamente, levassem às máquinas de recolha automática as garrafas vazias para serem recicladas. “Foi para testarmos a validade do conceito, a formação que era necessária dar os colaboradores e para percebermos se isto realmente mudava o comportamento do consumidor”, explica Gonçalo Lobo Xavier.
O projeto foi “um sucesso”, lembra o responsável. Foram recolhidas quase 19 milhões de garrafas de plástico, cerca de 800 por dia em cada máquina, em média. E foi de tal forma um sucesso que os retalhistas começaram a verificar alguma “criatividade” por parte dos consumidores. “Por exemplo, em várias zonas do país, percebemos que havia famílias que se especializaram na recolha” de embalagens. “E isto, num certo sentido, até foi bom, porque verificámos que muita gente se organizou para recolher essas garrafas” em locais como praias, por exemplo, “e para usufruir do desconto e do talão”.
O sistema aceitava qualquer garrafa de bebida de plástico não reutilizável, com tampa e rótulo intacto. As garrafas deviam ser colocadas na máquina com a base virada para o interior. Numa primeira fase, era emitido um talão com um valor que podia ser descontado em compras. Quando o orçamento do projeto esgotou, passaram a ser emitidos pontos que podiam ser descontados apenas em bens como trotinetas ou bicicletas elétricas. Sem o prémio monetário, o interesse dos consumidores caiu.
Essa também foi uma das aprendizagens do projeto piloto, que permitiu perceber que “as pessoas são sensíveis se houver esta compensação financeira”. Isto porque o governo da altura ainda estava a estudar outras hipóteses de compensação.
“Tivemos dezenas de situações em que as pessoas vinham com os sacos com as garrafas e diziam, ‘ah já não há dinheiro? Então deixo isto aqui’. A operação nas lojas foi uma loucura”, lembra o diretor-geral da APED. Um sistema destes “implica uma operação muito grande, de limpeza, etc, porque as pessoas nem sempre têm cuidado. Por isso foi importante ter este projeto piloto, para tirarmos lições, e agora já estamos preparados para o que aí vem”, garante.
Até para possíveis fraudes. Também aqui, confessa Gonçalo Lobo Xavier, houve “criatividade” por parte dos portugueses. Durante o projeto piloto, apareciam nas máquinas objetos com formas semelhantes às de garrafas, com fotocópias de códigos de barras coladas, para enganar as máquinas.
Para que isso não volte a acontecer, as máquinas que vão chegar às lojas a partir de abril serão à prova de fraude. Além de lerem os códigos de barras terão também, por exemplo, sensores para perceber o peso e os materiais da embalagem. “Uma das nossas prioridades é a prevenção de fraudes”, garante Leonardo Mathias. Vai haver uma “rastreabilidade digital completa, com auditorias internas sobre as quantidades declaradas no mercado e as recolhidas”. E os algoritmos anti-fraude vão detetar automaticamente “padrões anómalos, devoluções repetidas, embalagens ilegítimas, duplicações, irregularidades geográficas…”. Não é possível garantir que o sistema é 100% infalível, ressalva Leonardo Mathias, mas “o investimento em tecnologias de informação é de tal forma robusto que acho que só através de um hacking, e mesmo assim…”. Segundo a SDR Portugal, estão previstas “penalizações financeiras significativas” para possíveis “comportamentos fraudulentos”.
Também não é qualquer garrafa que pode ser colocada nas máquinas. Não vale a pena começar a acumular já garrafas em casa para depois trocar por dinheiro, porque as embalagens abrangidas pelo SDR terão uma série de especificações. Desde logo, estarão marcadas com um símbolo, um círculo com uma seta e a palavra “volta”, que será colocado junto ao código de barras. Esta marcação será da responsabilidade dos embaladores de bebidas e é obrigatória. E também será uma forma de combater possíveis fraudes. Vai haver um período de transição de 120 dias na distribuição e no canal Horeca em que vão coexistir no mercado garrafas com e sem o símbolo SDR. Mas nas máquinas e pontos de recolha a regra é a mesma: “a garrafa ou tem os códigos ou não entra”.