Francisco Pinto Balsemão distribuiu a fortuna pela família, mas também não esqueceu os amigos. O último testamento do antigo primeiro-ministro, que morreu em Outubro deste ano, traz algumas surpresas, como uma doação ao motorista ou uma pensão vitalícia para uma antiga funcionária, avança a revista Sábado, que teve acesso ao documento assinado em Fevereiro de 2020. Como era expectável, a casa de Cascais fica para a mulher, Mercedes.
José Sousa trabalhou durante 33 anos para Francisco Pinto Balsemão, que o contratou depois de um almoço no Pabe, o restaurante de Lisboa onde então o motorista servia à mesa. E, desde então, conduziu o político sempre “sem acidentes”, como contava, alguns dias após a morte de Balsemão, à SIC. Num gesto de agradecimento, o testamento devota-lhe a quantia de 100 mil euros, que, de acordo com o documento de 6 de Fevereiro de 2020, devia ser actualizada à data da morte. Hoje, são 116 mil euros.
Além da mulher e dos filhos de Balsemão, além do motorista há mais cinco beneficiários do testamento, que também contempla outros amigos e ex-funcionários. É o caso de Maria José, a quem deixa “a quantia máxima de setenta mil euros, em dinheiro, destinada à aquisição de um imóvel”, a ser entregue precisamente no momento da compra. À mesma funcionária destina “cinquenta mil euros em dinheiro” e uma “prestação periódica mensal vitalícia em montante correspondente a duas vezes o salário mínimo nacional em vigor à data de pagamento”.
Ou seja, Maria José vai receber 1740 euros por mês, o dobro dos 870 do salário mínimo. A outra amiga, Margarida, também destina 100 mil euros — todos os valores devem ser actualizados desde 2020, somando mais alguns milhares. É a mulher, Mercedes, que deve distribuir os montantes pelos respectivos destinatários.
Para Tita, como é conhecida Mercedes Presas, fica a casa da Quinta da Marinha, que era a única que tinha a 21 de Outubro deste ano, quando morreu aos 88 anos. Não era bem esse o plano, uma vez que, em 2020, quando assinou o testamento tinha outros imóveis, que também deixaria à mulher. Era o caso do palacete da Rua Ribeiro Sanches, na Lapa, que herdou dos pais, mas terá sido vendido no ano passado, segundo a comunicação de rendimentos entregue ao Tribunal Constitucional.
O recheio das casas também seria para Mercedes, apesar de se terem casado com regime de separação de bens, tal como a “totalidade dos créditos” que Balsemão era titular e que tem a receber, incluindo “créditos em dinheiro, depósitos bancários e quaisquer valores mobiliários que neste testamento não sejam objecto de destino”, bem como as “participações sociais representativas da totalidade do capital social da Estrelícia – Investimentos Imobiliários Lda.”.
Contudo, a herança de Tita tem um limite: ou seja, a mulher de Balsemão não pode receber mais do que um quarto do património do marido, que tinha cinco filhos (que, à partida, não podem ser deserdados). Mas há fortuna para distribuir por todos, diz a Sábado, citando as últimas declarações de rendimentos: 19,6 milhões de euros em aplicações financeiras; 12 milhões em carteiras de títulos; 2,87 milhões em contas bancárias à ordem; 842 mil euros em conta a prazo; além de cerca de um milhão de euros em mais-valias. Contas feitas, entre dinheiro e aplicações, são mais de 36 milhões de euros.
A família no funeral de Francisco Pinto Balsemão
Rui Gaudêncio
Os negócios para os filhos
Mónica, Henrique, Francisco Maria, Joana e Francisco Pedro, os cinco filhos de Balsemão, recebem 929.482 acções da Balseger — que pediram para unir — através da qual a família controla a maioria (50,3%) do capital da Impresa, dona do Expresso e da SIC, liderada por Francisco Pedro. Dividiu também pelos filhos, em partes iguais, as quotas da Sociedade Francisco Pinto Balsemão e a participação pessoal na empresa de comunicação social, que vale 1,26 milhões de euros — sabe-se que a Impresa está em negociações com o grupo italiano MediaForEurope (MFE) para entrar na estrutura de accionistas.
Há outros bens pessoais distribuídos como dois jazigos de família, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, e na Guarda — não se sabe se continuavam na sua posse no momento da morte — ou um Porsche 356 C Coupé, que comprou em 1963 (aquele que, em 1975, foi alvo de um atentado bombista), mas deixou de constar na lista de património em 2024. Este automóvel devia ter sido doado a Rogério Pereira Vieira, vogal do conselho de administração da Impresa.
Francisco Pedro Balsemão é CEO do Grupo Impresa
Daniel Rocha
O testamento em vigor foi o sexto que assinou em vida. O primeiro data de 14 de Maio de 1966, quando nasceu a sua primogénita, Mónica, filha de Isabel Costa Lobo, a sua primeira mulher, mãe também de Henrique. Nessa altura, Balsemão tinha herdado o património do pai, Henrique Patrício Balsemão, que morreu em 1964, vítima de uma trombose.
Em 1975, quando se casa com Tita, assina um segundo testamento, onde passa para a nova mulher, mãe de Joana e Francisco Pedro, a casa da Quinta da Marinha. Onze anos depois, quando já tinha os cinco filhos (depois de Mónica e Henrique, ainda nasceu Francisco Maria, fruto de uma relação extraconjugal), assinou o seu terceiro testamento, no mesmo ano de 1986, em que se afastou da vida política.
O quarto testamento data de 2005, quando a Impresa sofreu um golpe financeiro pelo azedar das relações com Ricardo Salgado e o BES, que levou ao corte da publicidade. Ainda em 2010, faz um último testamento, onde ainda não incluía os amigos que agora presenteia.